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A Copa do Mundo de 2014 e os quadros sombrios pintados pela imprensa nacional e internacional

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 22:04


Segunda-feira, 26 de maio

Imagem: http://blogs.estadao.com.br/olhar-sobre-o-mundo/files/2010/06/AB191.jpg
 
A copa do mundo que se disputará no Brasil de 12 de junho a 13 de julho do ano que começa será a mais difícil da história para o Brasil. A previsão de dureza para aquele que o mundo inteiro vê como o país do futebol — por ser a única nação pentacampeã e também a única a ter comparecido a todas as edições do evento, desde que um torneio capenga com a presença de quatro escassas seleções europeias abriu a série em 1930, no Uruguai — não leva em conta apenas as chances esportivas da equipe comandada por Luiz Felipe Scolari. Mesmo em uma Copa maiúscula, que contará com a presença de todas as equipes que já levantaram a taça, ninguém seria louco de subestimar o Brasil, muito menos jogando em casa. O prognóstico cauteloso se deve mais a fatores extracampo, que desta vez não poderemos nos dar ao luxo de relegar a segundo plano. Haja o que houver, seja quem for o campeão, existe desde já uma certeza:  na Copa do Mundo do Brasil, o Brasil vai se encontrar com o Brasil — o país onde se joga o futebol mais vitorioso e festejado do mundo com o país que é pereba na infraestrutura, perna de pau na educação, consistente na desigualdade social e matador na corrupção. Nenhum dois é mentira, mas naturalmente, estranham-se no espelho.

Isso torna a Copa de 2014 única: aquela que mesmo ganhando, corremos o risco de perder. Pela primeira vez, vencer nos gramados não será suficiente. De forma incontestavelmente mais desafiadora do que em 1950, quando o mundial da Fifa era um certame paroquial comparado  à superprodução de hoje, será preciso vencer nos aeroportos, nos hotéis, nos táxis, nas filas diante dos estádios e na segurança ­ — em resumo, na organização — um jogo em que o placar já foi aberto e nos é amplamente desfavorável, com obras atrasadas, promessas que nunca saíram do papel, orçamentos estourados e desculpas estropiadas...”

Era 1o de janeiro deste ano. Após a noite de champagne e da confraternização com os amigos e, evidentemente, algumas horas de sono, aproveitava o início da tarde do primeiro dia do ano, para ver as reportagens de um dos principais semanários do país: a revista Veja. Abrindo o ano de 2014, a revista trazia uma reportagem especial, de oito páginas, assinada pelo jornalista Sergio Rodrigues, intitulada A Copa e a Copa no país do futebol. Os dois primeiros parágrafos desse texto são uma transcrição do início da reportagem de Veja. 

Ao ler a reportagem, veio-me à mente as lembranças de quando o Brasil foi anunciado como país sede da Copa de 2014. Fiquei exultante com a possibilidade de que o país do futebol sediaria o Mundial de futebol de 2014. Nada mais justo. Fiquei ainda mais na expectativa pelo desenvolvimento que o evento traria ao país em matéria de infraestrutura e melhores serviços. Expectativa essa compartilhada com toda a nação brasileira. Hoje, a menos de um mês do início da competição, vejo frustradas essas expectativas. Frustração essa que não é compartilhada apenas por mim.

Os quadros que se pintam na imprensa nacional e internacional a respeito do evento não são nada animadores. Eu diria que se assemelham a tela, Os comedores de batata, produzido por Van Gogh, em sua primeira fase, na qual o pintor usa cores sombrias e personagens melancólicos. 




Recentemente, foi a vez de um importante semanário alemão, dar mais uma pincelada nesse quadro: a revista Der Spiegel. O seminário estampou em sua capa, uma foto de uma bola oficial do Mundial caindo em chamas sobre a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. A foto é reforçada pelo título Mortes e jogos. Em dez páginas de reportagem, divididas em três matérias, a revista apresenta questões como o atraso nas obras, insatisfação dos brasileiros, e possíveis manifestações nas ruas durante o evento.  

O jornalista alemão, Jens Glüsing, afirma em matéria de sua autoria, intitulada “Gol contra do Brasil”: "Justamente no país do futebol, a Copa do Mundo pode virar um fiasco: protestos, greves e tiroteios em vez de festa", e lança a preocupação de que as notícias que se tenha do evento sejam sobre protestos e greves, e problemas relacionados à questão da infraestrutura e da violência. 

Jens Glüsing analisa ainda o fato de que, enquanto na Alemanha, os torcedores já tenham começado a se preparar para a festa comprando camisas da seleção nacional, e outros adereços, o que se vê no país do carnaval é coisa bem diferente. "Nas favelas do Rio, policiais e traficantes se enfrentam de maneira sangrenta. Em São Paulo, gangues queimam ônibus quase todas as noites." E questiona: "Os jogos vão terminar em pancadaria nas ruas? Políticos e funcionários da Fifa serão perseguidos por uma multidão enfurecida?"

A Der Spiegel, analisa ainda a situação econômica do Brasil e o descontentamento da população com as condições de vida no país, colocando em tudo isso um novo fator: o ódio a Fifa. Outra questão que tem sido motivo de protestos nas ruas é o uso do dinheiro público na construção dos estádios de futebol e as altas somas de dinheiro envolvidas nessas transações. 

Gostaria de discordar dos jornalistas alemães em suas considerações e preocupações quanto à realização da Copa do Mundo no Brasil. Mas, sou brasileiro e vejo de perto essa realidade e também me preocupo. Dentro dos estádios sei como será a Copa: Muita festa, alegria e bom futebol sendo jogado. Todas as equipes na expectativa de levantar a taça de campeão darão mais emoção ao torneio. Não sei como estarão os ânimos fora dos estádios. Haverá protestos violentos como o da Copas das Confederações, no ano passado? Certamente também a população não saíra por aí enfurecida a caça de políticos e funcionários da Fifa. Apesar de tudo, o brasileiro ainda é um povo pacífico. Quanto à violência admito que o tanto o turista como o próprio habitante das cidades sedes tem de tomar cuidado e não andar por aí ostentando no corpo objetos valiosos como correntes, anéis e relógios. 

É uma questão de precaução. Só para citar um caso: em abril passado, a equipe de jornalismo da TV Globo fazia uma reportagem investigativa sobre assaltos no centro do Rio. Durante uma semana o cinegrafista Júnior Alves registrou, do alto de um prédio, os assaltos que aconteciam na região. Ao fim desse tempo, quando o repórter Eduardo Tchao, fechava a reportagem, entrevistando uma senhora que estava com um cordão no pescoço — de ouro ou de prata, não sei ao certo — um bandido passou correndo e arrancou a joia do pescoço da mulher, diante das câmeras e no meio da entrevista. O repórter, por reflexo, correu atrás do ladrão, mas este logo despareceu em meio à multidão. Ou seja, a questão da prudência deve ser observada por todos, turistas e habitantes locais.  

Só discordo da reportagem em relação ao ódio contra a Fifa. Não temos ódio da entidade. Acho ódio uma palavra muito forte. Não é esse o caso. Há no brasileiro um sentimento de revolta no sentido de que há investimentos públicos para construir estádios monumentais, mas não há verbas suficientes para melhorar áreas como saúde, educação e segurança.

Além de Veja e Der Spiegel, também pintaram quadros sombrios a respeito do Brasil e da Copa de 2014, veículos de grande repercussão como; The Economist, The New York Times, Financial Times, Evening Standard, Daily Mirror, El País, CNN, France Football e Lá Nacion. Claro que há visões equivocadas como a do The Economist, que chama o brasileiro de preguiçoso. Em publicação recente, essa revista britânica publicou uma matéria afirmando que a produtividade do trabalhador brasileiro está estagnada há cinco décadas e sugere que esse fator pode ter raízes culturais. A reportagem é ilustrada com a imagem idílica de uma pessoa descansando numa rede. Claro, quem vê de longe e não procura analisar melhor os fatos acaba escrevendo bobagem. Só para citar um exemplo: O paulistano para ir trabalhar tem de pegar ônibus, trens e metrôs lotados. Além disso tudo, ainda enfrenta um transito infernal. Saí de casa de madrugada e, muitos só voltam, à noite. Eu pergunto, onde é que está preguiça do brasileiro? Acho que a estagnação produtiva e econômica deve ser buscada em outras raízes e não na preguiça do povo. 

Sexta-feira (23), falando sobre essa questão dos problemas enfrentados pelo Brasil na preparação para a Copa, o ex-atacante da seleção brasileira Ronaldo, Membro do Conselho de Administração do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo, afirmou em entrevista à Reuters: "E de repente chega aqui é essa burocracia toda, uma confusão, um disse me disse, são os atrasos. É uma pena. Eu me sinto envergonhado, porque é o meu país, o país que eu amo, e a gente não podia estar passando essa imagem para fora" Ronaldo também disse durante a entrevista: "Os estádios, de uma maneira ou outra, vão estar prontos. Agora, o legado que fica para a população mesmo -- as obras de infraestrutura, de mobilidade urbana, aeroportos -- é uma pena que tenham atrasado tanto". O estranho é que é que, justamente, Ronaldo, venha a público dar declarações como esta a apenas 17 dias da Copa, ele que estava participando da organização, porque não fez essas críticas antes? Talvez haja nessas declarações de Ronaldo algum interesse político, que, aliás, é o que não vai faltar por aqui esse ano. 

Diferentemente de Ronaldo a Presidente do Brasil, Dilma Roussef, tem uma visão sobre a Copa semelhante à de Alice no País das Maravilhas. Em discurso no 17o Congresso da União da Juventude Socialista, em Brasília, ela rebateu as críticas de Ronaldo, mesmo sem citar o nome dele. Durante o discurso ela afirmou: "A Copa do Mundo se aproxima, tenho certeza que nosso país fará a Copa das Copas. Tenho certeza da nossa capacidade, do que fizemos. Tenho orgulho das nossas realizações, não temos do que nos envergonhar e não temos o complexo de vira-latas, tão bem caracterizado por Nelson Rodrigues se referindo aos eternos pessimistas de sempre”. Semelhante a Ronaldo, o discurso de Dilma também está carregado de interesses políticos. Quanto a mim não me coloco na categoria dos pessimistas, mas dos realistas. 

Nesta segunda-feira, os jogadores da seleção brasileira se apresentaram em um Hotel no Rio. Agora é para valer, podemos dizer que a Copa, para nós, começou hoje. E começou sob protestos. Por volta das 10h30, o ônibus que levava os atletas para a Granja Comary, em Teresópolis, onde o grupo ficará concentrado, deixou o hotel sob vaias de cerca de duzentos profissionais ligados a área da educação. Os manifestantes gritaram, bateram na lateral do ônibus e ainda colaram adesivos na lateral do veículo com críticas aos gastos do Mundial no país. Com dificuldade, os jogadores deixaram o local sob escolta policial. Por que os protestos junto aos jogadores? Afinal de contas, não são eles que administram a educação no país. Acontece que protestar em local onde estão os atletas que defenderão a nossa seleção dá muita visibilidade, inclusive perante a imprensa internacional... 

Fora de campo como vimos, o Brasil está perdendo o jogo. A realização da Copa do Mundo de 2014 revelou ao mundo outra face do Brasil: a do país que faz as coisas no improviso. Espero que isto tenha servido de lição para os políticos e empresários brasileiros. Dentro de campo tem outra coisa que me preocupa: Estão jogando toda a responsabilidade nas costas do Neymar. Neymar é um grande jogador. Sem dúvida, um profissional acima da media e a quem admiro, porém, Neymar é apenas um dos craques do elenco da Seleção Brasileira. Ele não é a Seleção Brasileira. 

O jeito agora é deixar a bola rolar e ver o que vai acontecer. Coisa que não vai mais demorar muito.



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