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Chega de racismo! Queremos igualdade.

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:24
Quarta-feira, 30 de abril


"Resolvi escrever para não engasgar, ter insônia ou uma úlcera. Nem sei se vou publicar isso, mas se estiverem lendo é porque mudei de ideia. Estou aqui na minha vida, trabalhando, fazendo mil coisas ao mesmo tempo, mas estou ligada no que se passa no mundo real e virtual. Estou triste pela guerra no Rio e pelas vítimas, sejam elas policiais, negros, brancos, ricos ou pobres. Ninguém merece viver com medo. Estou chocada com o caso do menino Bernardo; enojada. Fiquei orgulhosa com a atitude do Daniel Alves, ele deu uma banana para o preconceito e mostrou que de macaco não tem nada. Ele foi muito humano. Estou vendo o movimento da banana e respeito quem aderiu, pois, tenho certeza que foi de coração. Mas não sou macaca, eu tenho minha própria opinião, sou negra com muito orgulho! Racismo é crime, cadeia neles!

Nesses 40 anos de vida, já vi e vivi o bastante pra saber quem sou e ter consciência das minhas atitudes. Não preciso me explicar e nem me justificar para ninguém. Quem me conhece, me conhece! Estou vendo as montagens na minha foto com Carol e Fe sendo modificada com vários dizeres. Uns engraçados, uns irônicos e outros bem violentos. Não me surpreendo, pois, respeito o individualismo intelectual e até mesmo o modismo. Opinião cada um tem a sua. No mundo de hoje, está difícil dizer quem está certo e quem está errado, cada um defende seu ponto de vista e vamos em frente. Hoje, li no Face opiniões diversas sobre o caso do DG e o movimento da banana. Poucas concordei e muitas me assustaram. Muito Preconceito, racismo e ignorância mascarados e justificados como "opinião". Minha gente, o grande barato da vida é aprender, evoluir, transformar, amar... Nem tudo é do jeito que pensamos, nem tudo é do jeito que lemos. Estou cansada! É tanto ódio, julgamento, tanta sentença precipitada. Estou realmente assustada, o ser humano é tão nojento e cruel que estou quase querendo ser macaco agora".

O sincero e forte desabafo acima é da cantora Preta Gil, filha do cantor e compositor, Gilberto Gil. Preta resolveu abrir o coração e falar de recentes casos de racismo, publicando esse texto no seu perfil no Facebook, na madrugada de ontem (29). O comentário vem na esteira da campanha, Somos todos macacos, deflagrada pelo jogador do Barcelona Neymar Junior.

Neymar postou, no último domingo, uma foto sua e do filho, o pequeno e loiro, David Lucca. Os dois seguram uma banana, sendo a de Neymar, uma banana de verdade e a do filho, um brinquedo de pelúcia. Junto com a foto a hashtag #somostodosmacacos, em português, inglês, espanhol e catalão.

A campanha foi iniciada por Neymar após mais um lamentável incidente de racismo contra o companheiro de time no Barcelona, Daniel Alves. Em jogo difícil contra o Vilarreal, o Barcelona venceu de virada pelo placar de 3 a 2, e com esse resultado, se garantiu na briga pelo título do campeonato espanhol. Daniel participou de dois dos gols feitos pela equipe, mas sua atuação maior foi no episodio de racismo praticado contra ele, durante a partida.

Imagem: http://www.paraiba.com.br/2012/11/10/71440-apos-reves-daniel-alves-descarta-mudar-estilo-do-barcelona

O lance foi o seguinte: No estádio El Madrigal lotado e com câmeras espalhadas por todo o lado, Daniel Alves se preparava para cobrar um escanteio, quando um torcedor atira uma banana em sua direção. O jogador pega a banana atirada ao chão, descasca e come, continuando em seguida, a cobrança do escanteio. Penso que, em se tratando de gentileza, Daniel poderia ter jogado capim ao torcedor que lhe atirou uma banana. Assim, Daniel teria comido a banana e o torcedor o capim e estaria tudo resolvido.

Ironias à parte, o que Daniel não esperava, era que o fato fosse provocar tamanha repercussão a nível mundial. Famosos do mundo inteiro, em páginas sociais, programas de TV, jornais impressos e online, postaram fotos comendo banana, em apoio ao jogador do Barcelona.

Em entrevista ao programa Globo Esporte, da rede Globo, Daniel Alves desabafa: “O crescimento de um povo e das pessoas se vê pelas atitudes e não pelas palavras. Eu espero que isso possa gerar muito mais coisas e as pessoas se conscientizem de uma vez que somos todos iguais e temos todos o mesmo objetivo sem tentar causar danos às pessoas até porque somos todos iguais, somos todos humanos”.

Somos todos humanos: Acho que essa seria a frase ideal para a campanha. Faria mais sentido e, nisso venho a concordar com a Preta Gil: Não somos macacos, somos humanos e como tal, devemos nos respeitar uns aos outros em nossas diferenças e semelhanças, até porque, se fossemos macacos, não precisaríamos estar abordando esse tipo de discussão. Ou será que alguém já viu algum macaco desrespeitar a própria espécie? Qual nada, os macacos sabem conviver em paz uns com os outros. É impressionante, não impressionante não, é vergonhoso mesmo, que na época da era da velocidade da informação  e das maravilhas da tecnologia, ainda tenhamos que nos ocupar de assunto tão repugnante quanto o racismo.

Já ouviu falar de quando se junta fome com vontade de comer? Pois foi isso o que aconteceu com essa campanha estrelada pelo Neymar. Dias atrás, Neymar também foi vítima de racismo. O fato aconteceu no dia 13 de abril. O atleta voltava, junto com os companheiros do Barça, de um jogo contra o Granada. Quando desembarcavam do ônibus, em Barcelona, ele foi alvo de insultos racistas por parte de torcedores rivais.

A partir desse episódio, surgiu a ideia de bolar alguma campanha que caminhasse no sentido de tirar o poder da pessoa preconceituosa. No domingo, quando o episódio aconteceu, a campanha já estava pronta. Não aconteceu com Neymar, aconteceu com Daniel, porém, o gancho foi perfeito. O trabalho que o ex-santista teve, foi apenas tirar a foto com o filho, que ele afirma ter sido espontânea.

"Não é uma campanha publicitária, mas um movimento e uma voz. Ajudamos a embalar isso numa hashtag. Já estávamos falando sobre isso, e quando o Dani comeu a banana achamos que faria todo sentido lançar. O timing era perfeito", disse Guga Ketzer, sócio e vice-presidente de criação da agência de publicidade Loducca.

Abaixo as criticas, acho que foi valida a campanha encabeçada pelo Neymar e a atitude espontânea do Daniel Alves. Chamou a atenção, de forma irônica, mas veemente contra essa praga que é o racismo. À imprensa, Daniel Alves declarou: - A gente debateu um dia porque já tinha acontecido isso com ele um dia. Já tínhamos sofrido com isso no estádio. Mas a ação não tem nada a ver com publicidade. Até porque a gente não espera que as pessoas tomem esse tipo de atitude. Futebol é para se divertir, é para passar um momento de alegria e diversão”.

Achei desprezível o ato racista do torcedor do Vila, mas achei legal a reação espontânea do Dani e a rapidez e sagacidade da equipe de publicidade da Loducca. Outra coisa que achei legal foi a rapidez com que o time identificou o torcedor e aplicou-lhe uma punição severa, afastando-o do quadro de sócios do clube e proibindo-o de assistir jogos no El Madrigal por toda a vida. Acho que isso de punir severamente devia acontecer aqui também no Brasil, pois aqui também há dessas coisas. Por aqui quando acontece um caso de racismo no futebol as coisas ficam por isso mesmo. Às vezes, nem o juiz registra o caso em súmula. Eis um bom exemplo esse da Espanha, a justiça desportiva brasileira também deveria aplicar punições severas a quem comete atos desse tipo.

Imagem: http://deadspin.com/5263277/the-sordid-life-of-clippers-owner-donald-sterling

Por falar em punições severas, nota dez também para o pessoal da NBA pela punição exemplar que aplicou a Donald Sterling. Sterling terá que deixar a presidência dos Los Angeles Clippers, também está suspenso da NBA para o resto da vida e ainda terá que pagar uma multa de 2,5 milhões de dólares (cerca de 5,5 milhões de reais). Tem mais, o racista não poderá frequentar nenhuma instalação da liga americana de basquete, seja em dias de jogos ou treinos, e nem poderá participar de qualquer negociação dos clippers. O empresário de 81 anos estava na presidência dos Los Angeles Clippers desde 1981.  

Desde que o site TMZ Sports divulgou conversas em áudio no qual Sterling fazia declarações racistas, as reações contrárias vieram de toda a parte dos patrocinadores  do time ao presidente da nação, Barack Obama. Todos criticaram veemente as declarações do empresário.

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Educação: Uma luz que afasta as trevas da ignorância

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:11
Terça-feira, 29 de abril


Imagem: http://www.overmundo.com.br/banco/educacao-libertadora

Ontem, dia 28 de abril, foi o Dia Internacional da Educação. Essa data surgiu no calendário quando, no ano 2000, em Dakar, no Senegal, foi realizado o Fórum Mundial de educação. Na ocasião, representantes de 180 países assinaram um documento, no qual se comprometiam a universalizar o acesso à educação até 2015. A data propõe uma reflexão, em todo o mundo, sobre o futuro e os desafios a serem enfrentados e vencidos na área educacional. Infelizmente, em muitos países a questão da educação não é tratada com o devido valor que ela merece. É o caso do meu querido Brasil. Não desanimo, porém, pois sei que um dia eu hei de ver a luz da educação brilhando intensamente sobre esse amado país, irradiando esperança e desenvolvimento em toda a nação. Desejo esse que se estende a todos os outros povos de outros países, nos quais a educação também é relegada a segundo plano. Aqueles que já encontraram o caminho, meus parabéns.

Como reflexão para esta data, escrevi o texto abaixo, o qual compartilho com vocês.

***
Pense em uma caverna escura e perdida nas encostas de alguma montanha perdida nos recônditos dos primórdios da humanidade. Um desespero imenso lhe invade a alma, ao saber-se sozinho naquele ermo absoluto. Sua vontade é sair dali o mais rápido possível. Você soube de pessoas que se acostumaram a viver desse modo, perambulando pelas sombras, sem encontrar o caminho da liberdade. Mas não é isto que você quer para si mesmo.

Mas como se livrar dessa situação, se não consegue enxergar um palmo adiante do nariz? Sua apreensão maior não é o fato de estar em uma caverna. Cavernas são lugares como qualquer outro. Há pessoas que vivem em cavernas e são felizes. Sua inquietação maior é saber que falta ali um elemento importante. Uma série de indagações  surgem em sua mente como um turbilhão. Faltam-lhe respostas a todas elas.

Como é o lugar em que se encontra no momento? É grande ou é pequeno? Há muitas estalagmites e estalactites? Como é vizinhança? Haverá vizinhança? Se existe, como são essas pessoas? Dóceis ou brutas?

Como e de que forma, se pode encontrar o caminho se não há modos de se divisar um caminho a seguir? Estaria condenado a viver eternamente sem que tenha tido a ventura de conhecer, por um instante sequer, o mundo em sua real forma?

Milhões de questionamentos lhe dominam os pensamentos e você que sente que falta algo, um elemento fundamental que te ajude a encontrar a saída para que possa apreciar horizontes mais amplos e espaços mais vastos.

Como num passe de mágica, transporte-se agora para os dias modernos.

Você está em seu quarto de dormir. Nele você acumulou um monte de coisas que só a modernidade pode proporcionar. Notebook, tablets, smartphones. Há também bons livros e revistas. Tudo isso está ao seu alcance, mas você não pode desfrutar deles. Tal qual na caverna, uma escuridão impregna o ambiente e você não consegue divisar um palmo a frente do nariz. Diferentemente de lá, aqui você pode sentir os objetos pelo toque e distingui-los pela forma. Entretanto, os eletrônicos não funcionam, falta-lhes uma fonte imprescindível. Você até consegue pegar um livro nas mãos. Sabe que é um livro pelo seu formato característico, mas não consegue distinguir se é um livro de economia ou de política, de literatura ou de história. Quem será o autor? Em que ano foi escrito?  Para quem foi escrito? Perguntas como estas giram em sua órbita lhe deixando ainda mais angustiado. Você sabe que as coisas estão todas ao seu redor, mas você não pode desfrutar e aproveitar dessas ferramentas.

Você sente que é preciso fazer algo urgente para sair dessa incomoda situação. Entretanto falta-lhe um instrumento fundamental que te liberta dessa situação opressora.

Ora, todos nos sabemos o que falta, tanto na caverna primitiva quanto no quarto moderno. Falta-lhes a maravilhosa e abençoada luz.

Nenhum homem, em nenhum lugar do planeta pode quebrar as amarras da ignorância e encontrar a saída libertadora se não brilhar sobre ele a luz da educação. Essa luz funciona como um mágico poder que abre os olhos aos cegos e dá libertação aos cativos.

Quantas nações já não alcançaram a plenitude e o esplendor do desenvolvimento econômico e social apenas acendendo sobre seu povo as luzes da educação? Não falo de uma educação mecanicista, que transforme os homens em robôs e máquinas subservientes, falo de uma educação verdadeiramente libertadora que torne os homens e mulheres agentes de seu próprio desenvolvimento.

De modo contrário, quantas nações já não sucumbiram ao fracasso e à derrota por não terem dado o devido valor a essa arma revolucionária, chamada educação. Com isso, relegando seu povo a viver na opressão e na angústia de buscar uma saída e não haver saídas possíveis. Quantos irmãos em humanidade não sabem o que é a felicidade de pegarem um livro nas mãos e decifrar os seus códigos linguísticos?

Devemos ter fome de educação, assim como temos fome de pão. Devemos ter sede de conhecimento como um peregrino no deserto anseia por água.

Porém, o conhecimento buscado e apreendido não deve servir para ser amealhado em celeiros, nem guardado a sete chaves, em cofres difíceis de abrir. Conhecimento posto dessa forma é como luz que acende e se coloca debaixo da mesa. E para que serve uma luz acesa e posta debaixo da mesa? A quem iluminará?


Educação para ser boa de verdade, tem de ser compartilhada com os irmãos de caminhada. Tem que provocar o indivíduo, questioná-lo, não pode deixá-lo indiferente à beira da estrada da vida.  Educação de verdade tem que libertar, tornar o homem agente de sua própria história.

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Blues e Choro na noite de Campinas

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:50
Sábado, 26 de abril

Um chorinho me traz muitas recordações / Quando o som dos regionais invadia os salões/ E era sempre um clima de festas / Se fazia serestas, parando nos portões / Quando havia os balcões / Sob a luz da Lua / E a chama dos lampiões à gás / Clareando os serões / Sempre com gentis casais / Como os anfitriões / E era uma gente tão honesta / Em casinhas modestas / Com seus caramanchões / Reunindo os chorões / Era uma flauta de prata / A chorar serenatas, modinhas, canções / Pandeiro, um cavaquinho e dois violões / Um bandolim bonito e um violão sete cordas / Fazendo desenhos nos bordões / Um clarinete suave / E um trombone no grave a arrastar os corações...”

Trecho da música: Homenagem à Velha Guarda
(Autores: Paulo César Pinheiro E Sivuca)
Interpretação: Clara Nunes

Dicas culturais


Imagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Choro

Onde houver um coração pulsando, cheio do mais puro sentimento... Onde houver um coração amargurado pela perda de um amor... Em qualquer mesa de bar, onde houver um amor nascendo... Sempre haverá a sonoridade de uma guitarra espalhando o lamento de um blues pelo ar ou som de violão plangente tocando um choro.

Choro e Blues, o primeiro uma música tipicamente brasileira, considerada por muitos como a primeira música urbana do Brasil. Um estilo musical que nasceu e cresceu nos quintais dos subúrbios cariocas e em modestas residências no bairro de Cidade Nova, nos idos de 1880, no Rio de Janeiro. Os pequenos conjuntos musicais faziam uma música cheia de lamento, como se os instrumentos estivessem chorando, desse caráter extremamente sentimental da música que faziam, adveio à denominação: Choro. Sem dúvida, tanto quanto o samba, o choro é um patrimônio da cultura brasileira. Pixinguinha, Jacó do Bandolim e Altamiro Carrilho são alguns de seus legítimos representantes.

O segundo, um estilo musical tipicamente americano, nascido das lamentações dos escravos nas plantações de café. Também um estilo lamentoso, exprimindo sonoridades que brotam dos sentimentos aprisionados no coração, sentimentos esses que se libertam através das canções e se tornam expressões artísticas que dão som, cor e tom a uma música tão bela e envolvente.

Quem dera se de todo sofrimento brotasse um blues, um choro, certamente o mundo seria bem menos triste e muito mais cheio das boas vibrações que nascem com as notas produzidas pelas mãos dos hábeis instrumentistas.

Esses dois estilos tão belos e envolventes que nasceram em lugares diferentes, mas que possuem os mesmos matizes podem ser conferidos em Campinas. O Blues, neste domingo. O choro no mês que vem. Confira abaixo as dicas e, se está em Campinas e região, anote para não esquecer.

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Imagem:  http://www.rootstime.be/CD%20REVIEUW/2013/MA1/CD149.html

Cantor Mud Morganfield encerra festival de blues em Campinas no domingo

Apresentação será na Concha Acústica do Taquaral, com participações de Blues Etílicos e Big Band Blues...


Mud Morganfield Fest in Blues

Campinas recebe no domingo (27) um dos mais significativos e simbólicos shows relacionados à cultura do blues. O cantor Mud Morganfield, filho mais velho do lendário Muddy Waters, se apresenta na Concha Acústica do Parque Taquaral, a partir das 18h, com entrada gratuita. Antes da apresentação de Mud Morganfield, sobem ao palco as bandas Blues Etílicos, um dos mais antigos e representativos nomes do estilo, e a Big Band Blues. Os shows encerram o 1º Campinas Fest in Blues, que tem movimentado a cidade desde o último dia 11 de abril. O festival é uma realização do bar/restaurante Almanaque Café, em parceria com a Secretaria de Cultura de Campinas.

Muddy Waters

O cantor Mud Morganfield é filho de Muddy Waters, nada menos que o “Rei do Blues”, que influenciou gerações como Beatles, Chuck Berry e Rolling Stones.
De acordo com a crítica especializada dos Estados Unidos, Mud Morganfield é um herdeiro que daria muito orgulho ao Rei do Blues de Chicago, por ser abençoado com uma poderosa voz que transmite ressonância emocional profunda em números de slow e traditional blues. Segundo ele, começou a cantar para mostrar ao mundo o que o pai havia deixado de legado ao mundo. “Eu amo e tenho orgulho de cantar as músicas do meu pai, assim como eu amo e sempre vou me orgulhar dele. Eu não sou Muddy Waters e eu certamente não estou tentando ser Muddy Waters. Sou Mud Morganfield, mas quando estou no palco sempre sinto que meu pai está lá comigo e isso significa muito para que eu possa manter a sua música viva ao redor do mundo", conta o músico.


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Imagem: http://www.cisguanabara.unicamp.br/

VII Encontro de Choro da Unicamp

Apresentação do Conjunto Chorando na Sombra

Entre 04 e 09 de maio de 2014, a cidade de Campinas recebe a sétima edição do Encontro de Choro da Unicamp. O evento musical surgiu em 2004 no Instituto de Artes da Unicamp e, desde então, já foram realizadas seis edições em diferentes formatos, com foco na formação musical e apresentações musicais. Todas as edições contaram com a iniciativa e organização de alunos, artistas e professores, com atividades sediadas prioritariamente dentro do Campus universitário.

A proposta para edição deste ano se inova ao trazer um formato itinerante, ocupando diferentes espaços do município com o intuito de aproximar as atividades artísticas provenientes da Unicamp à comunidade campineira, atingindo especialmente o distrito de Barão Geraldo - onde se localiza a universidade - centro de Campinas e bairros do entorno.

Chorando na Sombra

Formado por alguns dos principais músicos de choro da região de Campinas, o conjunto Chorando na Sombra apresenta-se semanalmente há mais de quatro anos nas segundas-feiras de choro no Empório do Nono, um dos mais tradicionais e conhecidos projetos do gênero em todo o Estado de São Paulo. Em 2009, o grupo realizou uma importante apresentação no teatro da UMES, em São Paulo, a convite do conjunto Izaías e Seus Chorões, dentro do projeto "O Choro e Sua História". Além disso, o Chorando na Sombra já acompanhou nomes como Zé da Velha, Isaías do Bandolim e Silvério Pontes.

Ficha técnica: Márcio Modesto (flauta), Lucas Nahun (cavaco), Guilherme Soares (violão de 7 cordas) e Roberto Amaral (pandeiro).

Serviço:

Apresentação do Conjunto Chorando na Sombra

Data: 06/05/14 (terça-feira)

Horário: 20h00

Entrada gratuita

Local: CIS-Guanabara, à Rua Mário Siqueira, 829 , Botafogo, Campinas, Fone: 19 32337801





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O trágico fim do menino Bernardo Boldrini - Parte II

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:47
 Quinta-feira. 24 de abril


Hoje eu tive um sonho
E foi o mais bonito
Que eu sonhei em toda a minha vida
Sonhei que todo mundo vivia preocupado
Tentando encontrar uma saída
quando em minha porta alguém tocou
Sem que ela se abrisse ele entrou
E era algo tão divino, luz em forma de menino
E uma canção me ensinou”.

(Guerra dos Meninos – Roberto e Erasmo Carlos)



Que não chegou a tempo...


Como vocês já sabem, me chamava Bernardo Boldrini, tinha 11 anos e morava na cidade de Três Passos, no Estado do Rio Grande do Sul. Meu pai, Leandro Boldrini é um conhecido e respeitado médico-cirurgião, um excelente profissional. Ele é casado com a bela e competente enfermeira, Graciele. Os dois tem uma filha, minha irmã, com um ano e poucos meses.

Fui feliz até o dia 10 de fevereiro de 2010. Naquele dia, uma trágica notícia caiu como uma bomba sobre a minha cabeça. Minha mãe, Odilaine Uglione, saiu de casa dizendo que ia a clinica onde ela e meu pai trabalhavam (eles também eram sócios no negócio), a fim de resolver um assunto. A relação entre ela e meu pai não andava muito boa. Eles estavam pensando em se divorciar. Faltavam apenas três dias para ela assinar a separação. Os dois já tinham acertado com os advogados e, em decorrência da partilha de bens, minha mãe receberia R$ 1,5 milhão e ainda teria direito a uma pensão de R$ 10 mil por mês. Ao sair de casa mamãe me abraçou Ela estava bem, pelo menos não parecia triste, deprimida ou coisas desse tipo. Sentia-se até um pouco aliviada pois vinha sofrendo muito ultimamente.

Passadas algumas horas após a saída dela, chegou em minha casa alguns policiais dizendo que minha mãe havia se suicidado dentro da clinica, com um tiro na cabeça. Minha mãe tinha apenas 32 anos quando isso aconteceu e meu pai tinha 38 anos. Ao ouvir aquela triste notícia, as lágrimas começaram a cair de meu rosto, como caem as águas da cachoeira. Custei a acreditar que meu precioso tesouro havia ido embora de um modo tão trágico. Na verdade, tinha minhas dúvidas de que minha mãe houvesse cometido suicídio. Vô Jussara acreditava que ela tinha sido assassinada. Mas não podíamos fazer nada, pois os laudos periciais concluíram que foi suicídio. Não adiantava brigar: eram as palavras dos peritos contra as nossas suspeitas.

Quando minha mãe morreu eu tinha sete anos. Após a morte dela, a felicidade fez as malas e saiu de minha casa para nunca mais voltar. Desfez-se tal qual se tal qual se desfazem os castelos de areia. O mais triste para mim foi ver que meu pai não partilhava da dor pela perda de minha mãe. Nunca o vi derramar uma lágrima sequer. Enquanto meus olhos e os de minha vô, pareciam rio à transbordar, os de meu pai eram rio seco pelo qual não corria água há muito tempo.

Acho normal o marido querer arranjar uma outra companheira quando a mulher morre. Afinal de contas, ele precisa de alguém que lhe dê suporte emocional para superar aquela dor e, até mesmo, pensando em questões práticas, como a criação dos filhos. Evidentemente, tudo isso após guardar o luto por aquela que foi sua companheira. No caso de meu pai, essa coisa de arranjar uma nova namorada foi algo escandaloso. Menos de um mês depois da morte de minha mãe, ele andava de braços dados com a loira e bonita Graciele. Graciele era enfermeira, porém, havia sido contratada como secretaria de meu pai. Ela já havia namorado outros médicos na cidade e confessara, certa vez, a uma amiga,  que seu sonho era se casar com um médico.


Imagem: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2014/04/21/meia-irma-de-bernardo-e-disputada-por-familiares.htm

Não demorou muito para que eles se casassem e Graciele viesse morar em nossa casa. A partir do dia em que entrou em nosso lar como dona da casa, ela começou a viver o sonho dela e eu começava a viver o meu inferno. No início, ela fez o papel da boa madastra. Levava-me para passear, tomavamos sorvetes juntos, brincavamos muito também. Depois de um certo tempo, a máscara de mulher afável caiu e eu, assustado, percebi que, por trás daquele rosto bonito e daquela mulher amável, se escondia uma mulher má e estupidamente ambiciosa.  

Kelly - era assim que nós a chamávamos na intimidade - tinha uma mente fértil, porém, inclinada ao mal. Vivia inventando coisas que eu não havia feito e quando meu pai chegava fazia ele acreditar em suas mentiras. E meu pai acreditava nas coisas que ela dizia. Ficava bravo, às vezes me batia, ou me dava alguma outra espécie de castigo.

Na escola em que estudava, frequentemente, havia reuniões de pais e mestres. Pensa que eles apareciam por lá? Nunca. Se queria mesmo ficar por dentro dos assuntos da escola, era eu mesmo quem tinha que ir a essas reuniões. Ainda falando da escola, eu passava a maior vergonha entre os meus amigos, pois eu nunca tinha dinheiro para compra lanches. Se não ficava com fome por completo, era porque os meus amigos dividiam o lanche deles comigo. Enquanto eles estavam sempre cheirosos e limpinhos, eu andava com o mesmo uniforme sujo e amarrotado durante dias seguidos. Sapatos novos e roupas novas? Esses presentes, fazia tempo que não ganhava nenhum.


Imagem: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/amiga-diz-que-ajudou-a-matar-bernardo-por-dinheiro
Nas férias escolares, meus amigos costumavam viajar com os pais. Meu pai e minha madrasta também costumavam viajar para fora do país. Eu nunca os acompanhava. Eu ficava na casa dos amigos e familiares, na cidade mesmo, ou quando alguma dessas boas almas me levava para algum lugar, era no mínimo, até a cidade mais próxima.  

Havia coisas bem piores que estas. Eu não tinha as chaves de casa. Então muitas vezes eu chegava em casa e a porta estava fechada. Certa vez, fazia muito frio e eu estava sem agasalho e apenas de chinelos. Fiquei esperando algum tempo que alguém chegasse para abri a porta de casa, naquele frio que quase me cortava a pele. Um dentista, conhecido nosso, passou e me viu naquele sofrimento, então ele teve a bondade de me levar para a casa dele.

Isso ainda não foi o pior. Certa noite, eu dormia tranquilamente em minha cama. De repente, acordei sufocado, agoniado e gritando. Era como se tivesse me faltando a respiração. Quando despertei por completo, vi a Kelly perto de minha cama, com um travesseiro na mão. Perguntei o que ela fazia ali e ela me respondeu que tinha ido apenas fechar as janelas. Desconfio que naquela noite ela tentou me matar, asfixiando-me com um travesseiro.

No dia 04 de abril deste ano, uma sexta-feira, ela me encheu de esperança dizendo que teríamos que ir a cidade de Frederico Westphalen, pois ela gostaria de me dar uma televisão nova. Fiquei super feliz com a novidade. Contei para todos os meus amigos da escola que iria ganhar uma nova TV. Quando voltei da escola naquele dia, ela estava na maior pressa em sairmos comprar a TV. Não tive nem ano menos, tempo de trocar o uniforme da escola. Saí do mesmo jeito que chegara: sujo e suado. Aliás, essa coisa de andar sujo e suado não era nenhuma novidade para mim. Ela me disse também que, depois, nós passaríamos na casa de uma benzedeira, uma rezadeira.

Achei estranho quando ela me deu um comprimido para eu tomar. Disse-me que o medicamento servia para que não vomitasse durante a viagem. Na verdade, o remédio servia para que eu adormecesse, era uma primeira tentativa de me dopar. Estava tão ansioso pela novidade que o remédio não fez efeito algum. Ela dirigia a caminhonete preta, uma L200, em alta velocidade, a 117 km/h. O carro parecia voar por sobre o asfalto. A polícia rodoviária nos parou e multou a Graciele, advertindo-a para que não corresse daquele jeito. Vi quando o policial olhou em minha direção no banco de trás do carro, acho que ele queria conferir se eu estava usando cinto de segurança. Até acenei para ele, pois achei que, diante da velocidade em que estávamos, ele tinha sido até simpático.

Descemos da caminhonete, próximo a um posto de gasolina e uma amiga de Graciele, a assistente social Edelvânia Wirganovicz, se juntou a nós. Estranhei a presença dela, mas minha madrasta me disse que ela nos ajudaria a fazer as compras. Kelly deixou a caminhonete estacionada no posto e entramos no carro de Edelvania. Antes de entrar no carro, notei que havia câmeras do posto de gasolina, apontadas em nossa direção.  Dentro do carro, a madrasta me deu mais um daqueles comprimidos. Quando perguntei onde estávamos indo, ela me disse que íamos à casa da benzedeira e que para isso ele precisava apenas levar uma picadinha na veia. Foi quando ela pegou uma seringa e aplicou na veia do meu braço esquerdo.  A partir daí as coisas foram perdendo a nitidez... O mundo foi perdendo a cor... E eu fui apagando devagarzinho, feito uma vela... Até que apaguei completamente.

Elas me levaram para um lugar afastado na beira de um rio. No local já havia uma cova pronta, acho que uma delas, ou as duas já tinham ido antes ao local e prepararam tudo direitinho. Depois elas tiraram minha roupa, meu uniforme da escola, que ainda estava usando. Tiraram também os meus tênis. Depois colocaram meu corpo no buraco. Kelly jogou soda caustica sobre meu corpo para que ele fosse consumido com mais rapidez e não deixasse mau cheiro. Edelvania colocou pedras em cima de mim e depois cobriram tudo com areia.

O que restou do meu corpo foi encontrado na noite de segunda-feira, dia 14, dentro de um saco plástico e enterrado próximo às margens de um rio, em um matagal, um local de difícil acesso.

A multa que Graciele levou no caminho, as câmeras de segurança do posto de gasolina e a nota de compra de um extintor para carro foram fundamentais para que a polícia esclarecesse imediatamente o crime.  Logo após a descoberta do corpo, foram presos; minha madrasta Graciele, meu pai Leandro e a amiga deles, Edelvania. Quanto a meu pai, a polícia ainda está investigando a participação dele no crime.


Imagem: http://www.jornaldiadia.com.br/news/noticia.php?Id=24188

Por que todo esse ódio que eles sentiam por mim? Ambição desmedida. Quando eu fizesse dezoito anos, herdaria a parte da herança que minha mãe havia deixado. Eles não estavam interessados em dividir a herança, queriam toda a fortuna para eles. Quanto a Edelvania, coitada dela também. Em troca de dinheiro para pagar um apartamento, ela ajudou a tirar a vida de um inocente.

Quanto a mim, seguirei meu caminho pela eternidade e descansarei em paz, junto à minha mãe. Na manhã de terça-feira, dia 15, meu corpo foi enterrado no Cemitério Ecumênico Municipal de Santa Maria (RS), no mesmo cemitério onde minha querida mãe foi enterrada, em 2010. O cemitério estava lotado e o carinho dos amigos e familiares que lá estavam embalaram minha alma e a encheram de ternura. Há 295 km dali, em Três Passos, cidade onde nasci e na qual morava, houve um absoluto silêncio e lagrimas rolaram em muitas faces. Havia muita revolta também. Os habitantes quiseram colocar fogo na casa em que meu pai morava. A polícia chegou e os convenceu de que se fizessem aquilo, estariam destruindo provas.

A você que leu esse triste relato, eu peço que me ajude, rezando por mim para que sejam afastadas as sombras que me perseguiram nos últimos anos de minha breve vida terrena. Bernardo Uglione Boldrini é meu nome.



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O trágico fim do menino Bernardo Boldrini - Parte I

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:12
Quarta-feira, 23 de abril


Suplicando por uma ajuda...

Fazia uma tarde quente no dia 24 de janeiro deste ano, quando um menino de 11 anos, magro, cabelos castanhos, olhar triste e fala macia entrou nas dependências do Fórum de Três Passos e, após informar-se na portaria, foi encaminhado à sala onde ficava o Centro de Direitos da Criança e do Adolescente, da cidade de Três Passos, no Rio Grande do Sul. Vestia-se de modo simples e apesar, da pouca idade, demonstrava atitude de alguém determinado, que sabe o que quer.

Os funcionários que trabalhavam na área de proteção à criança e ao adolescente estavam acostumados a lidar com casos graves tais como; violência, drogas e abuso sexual. Geralmente esses casos, apesar de envolverem crianças e adolescentes, eram tratados diretamente com adultos. Por isso, acharam bastante atípico o fato de uma criança ir sozinha ao Fórum, mesmo assim, ouviram com atenção as queixas do garoto. O menino se apresentou como Bernardo Uglione Boldrini e relatou que estava ali porque queria ser adotado por outra família. Segundo contou ele, a madrasta,Graciele Ugulini,  o tratava com desprezo e o pai,Leandro Boldrini,  o ignorava por completo. Havia, no relato do garoto, um mixto de tristeza e convicção, que convenceu os funcionários a levá-lo à sala da Promotora da Infância e da Juventude, Dinamárcia Maciel de Oliveira.

Dinamárcia já trabalhava há tempo o suficiente no Ministério Público, para saber ouvir o coração das crianças e adolescentes aos quais tinha que ajudar, a maioria deles, vivendo situações complexas. A promotora pegou o menino no colo, como faria uma mãe e deixou que ele falasse das angustias que eram o motivo de seu sorriso triste e olhar melancólico. Sentindo-se acolhido, o menino, que, durante anos, permaneceu calado, sofrendo em silêncio, resolveu falar. Disse a Dinamárcia que se sentia excluído das relações familiares e que não desfrutava do carinho e da atenção do pai e da madrasta. Falou de seus ambiciosos sonhos: ter um peixinho de aquário e assistir uma partida de futebol, no estádio Arena do Grêmio, em Porto Alegre, junto com o pai. Repetiu à promotora o que já havia dito aos funcionários que o atenderam por primeiro: que deseja ser adotado por uma nova família. Havia uma família com a qual ele, geralmente passava os fins-de-semana: a família Petry, e essa era a sua preferência.

A promotora procurou os Petry e falou a eles do que ocorrera no Fórum e do desejo do menino de ser adotado por eles. Apesar de gostar muito do guri, o casal dos Petry, também faziam parte do círculo de amizades dos Boldrini e não quiseram se indispor com o pai de Bernardo. Encontravam-se eles, diante de uma situação constrangedora e não aceitaram as considerações feitas por Dinamárcia.

Diante da negativa da família Petry, a promotora decidiu ir por outro caminho. No dia 31 de janeiro, entrou com um pedido de transferência da guarda do menino para a avó materna, Jussara Uglione. Aberto o processo civil, o juiz Fernando Vieira dos Santos, da Vara da Infância e Juventude, acolheu, em audiência, o pedido para que a guarda de Bernardo fosse transferida para a avó. Nessa mesma ocasião, o juiz marcou uma audiência, na qual ouviria o pai de Bernardo.

A audiência com Leandro Boldrini aconteceu 11 dias depois. Durante a realização desta, o pai do garoto pediu ao juiz uma segunda chance de reaproximação com o filho e comprometeu-se a, a partir daquele momento, ser mais atencioso e carinhoso para com Bernardo.  Comprovado que, aparentemente, o garoto não era vítima de violência física, o juiz aceitou o pedido de segunda chance, e concedeu ao pai do garoto um prazo de 90 dias para que pudesse reavaliar o caso e marcou nova audiência para o dia 13 de maio, a fim de verificar se havia ocorrido algum progresso na relação pai-filho. 

Infelizmente, o prazo concedido pelo juiz não pode ser concretizado. Um crime bárbaro impediria que a nova audiência que, definitivamente, selaria a paz entre pai e filho, acontecesse.

Uma vida como a que Bernardo levava não podia passar despercebida numa cidade com pouco mais de vinte mil habitantes. Muita gente sabia da relação difícil que ele tinha com a madrasta e do abandono a que era relegado por parte do pai.

A primeira denúncia que chegou à Promotoria da Infância e da Juventude foi ao final de ano passado, em novembro. Uma Assistente Social denunciou perante o órgão competente, a situação de abandono ao qual o menino era submetido.  A promotoria resolveu então abrir um expediente para verificar a situação familiar do filho do médico cirurgião. O conselho tutelar da cidade fez as averiguações de praxe e, em 29 de novembro, enviou um relatório aos promotores da infância e da juventude no qual atestava que, realmente, o menino Bernardo vivia numa situação de abandono perante a família. Enfatizava ainda a necessidade de um acompanhamento ao garoto e destacava a relutância do pai em ajudar a resolver o problema. Dizia ele, com certa arrogância, que estava tudo bem e que o conselho tutelar fosse resolver problemas mais urgentes. Coincidentemente, nesse mesmo dia a promotoria também recebeu uma carta da escola onde Bê _ como era chamado pelos amigos mais íntimos _ estudava, na qual havia relatos de que ele possuía sérios problemas afetivos e o pai não dava a mínima importância para esse fato.

Em 03 de dezembro, o conselho tutelar entregou novo relatório a procuradoria relatando novos aspectos da questão, como por exemplo, uma família que havia acolhido Bernardo e na casa de quem ele, muitas vezes, ficava. Os conselheiros tutelares estavam trabalhando seriamente para que a situação fosse resolvida da melhor maneira possível. Eles procuraram Leandro Boldrini novamente e , dessa vez, marcaram uma consulta com um psicólogo para que este conversasse com Bernardo. Fazendo pouco caso da situação, o pai não levou o filho para a entrevista com o psicólogo e, de forma arrogante, se recusava a receber os conselheiros. Poucos dias depois, foi a vez do advogado da avó materna, Jussara, pedir à procuradoria os documentos que instruíam o processo e que sua cliente pretendia ficar com a guarda do neto.

Quando Bernardo entrou pela porta do Fórum, naquele 24 de janeiro, os funcionários e a promotoria já eram sabedores do caso. Só não esperavam que Bernardo, fosse sozinho e de livre e espontânea vontade, pedir à justiça, dois valiosos bens e que lhe eram tão escassos: carinho e atenção. Naqueles dias, o processo estava prestes a ser concluído. A promotora aguardava apenas o depoimento da avó. Entretanto, após conversar com Leandro e com a mulher dele, o juiz entendeu por bem que fosse tentada uma reconciliação.

Três dias antes de desaparecer, Bernardo passava em frente ao Fórum, junto com uma mulher, sua amiga, quando avistou Dinamárcia na calçada, os dois se cumprimentam de longe, trocaram um sinal de que estava tudo ok, e ele seguiu em frente. Dinamárcia ficou tranquila ao ver que o menino parecia bem. Bernardo virou-se para a mulher que o acompanhava e disse esperançoso, apontando para a promotora: “Essa é a mulher que vai mudar a minha vida”. Infelizmente, Dinamárcia não teria mais tempo para isso.




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Brincando de roda... De capoeira

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:22
Segunda-feira, 20 de abril

Ê
Maior é Deus
Maior é Deus, pequeno sou eu
(Tudo) O que eu tenho foi Deus que me deu
(Tudo) O que eu tenho foi Deus que me deu
Na roda da capoeira
(Hahá!) Grande e pequeno sou eu
Camará…

(Mestre Pastinha)


Ontem foi domingo de Páscoa e, com certeza, muita gente saiu à procura dos coelhinhos. Não exatamente em busca dos coelhinhos, mas de seus deliciosos ovos de chocolate. Huuuummm!! Que delícia que são os ovos de chocolate! Na verdade, por trás da corrida a esses deliciosos ovos, se esconde um significado muito mais profundo e rico, que indica a passagem para uma nova vida. Páscoa representa uma das maiores e mais importante festa para os cristãos. Nessa época, eles comemoram a vitória de Jesus Cristo sobre a morte. Se cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a nossa fé, como diz o apóstolo Paulo.

Teve gente aqui em Campinas para quem o coelhinho chegou mais cedo e eles comemoraram uma Páscoa antecipada. É sobre isso que gostaria de falar a vocês.

Faz tempo que o domingo é um dia especial. Desde civilizações antigas que ele é tratado como um dia diferente e propício para se reverenciar as forças espirituais que regem o mundo. Os babilônicos aproveitavam o este dia da semana para celebrar o Deus Shamash (Sol), os egípcios e assírios o utilizavam para fazer suas preces e orações ao deus Ra (Sol). Para os cristãos o sol é Jesus Cristo e o dia propício para lhe render graças também é o domingo. Afinal foi nesse dia que ele ressuscitou.

Foi também no domingo (06), dia tão rico de significado e de força cósmica, que fui ao bairro de Vila União, conhecer uma roda de capoeira praticada por crianças.

Eram 9h30 da manhã quando cheguei ao Terminal Central de Campinas, onde tomaria um ônibus com destino a Vila União. Manhã tranquila, terminal de ônibus também. Poucas pessoas esperavam ônibus no terminal. Durante a semana, o lugar parece um formigueiro humano, tantas são as pessoas que circulam pelo local.

Enquanto aguardava o ônibus, aproveitei para continuar a leitura do ensaio, Da Felicidade, de Sêneca, advogado, escritor, filosofo e um dos mais influentes intelectuais do Império Romano. O ônibus chegou uns vinte minutos depois. Após um percurso de cerca de meia hora, cheguei ao bairro de Vila União.


O evento acontecia na enorme praça de esportes do bairro. No momento em que cheguei, as crianças se divertiam em uma gincana, cuja tarefa, era encontrar ovos coloridos. Cada um desses ovos possuía uma pontuação diferente. Vencia a competição quem conseguisse encontrar o maior número de ovos com maior pontuação. Após essa brincadeira o instrutor dos pequenos, Mestre Salário, chamou-os para formar a roda a roda de capoeira, ali mesmo, no gramado, à sombra das árvores.

Enquanto era organizada a roda, lancei um olhar em volta, observando a beleza e a quietude do lugar, que era rodeado de muitas árvores. Enfim, sob a sombra das árvores da praça, soou o inconfundível toque do Berimbau e, em seguida, os cantos que dão ritmo ao jogo. As crianças se posicionaram á frente do conjunto, aos pés do Berimbau. O Berimbau solista indicou o início do jogo, os pequenos capoeiristas giraram seus corpos na direção do adversário e iniciaram o jogo.

Os raios de sol daquela manhã dominical, abriram espaço por entre a copa das árvores e também vieram apreciar uma roda de capoeira cheia das boas energias que emanam do universo infantil. Notei que, além da brilhante luz do astro rei, o ambiente era iluminado por outra luz tão intensa e tão benéfica quanto o sol da manhã: a luz da felicidade. Luz essa que emanava de fontes diferentes; da expressão de alegria com que pais e mães acompanhavam a prática de esportes dos filhos; no brilho que se fazia notar no olhar concentrado das crianças; no carinho e na firmeza com que o Mestre Salário e seus auxiliares organizavam a roda e incentivavam os pequenos capoeiristas.


Fiquei a observar o empenho com que aqueles meninos e meninas se entregavam ao jogo da capoeira, resgatando, dessa forma, toda uma tradição iniciada com os africanos que aqui aportaram no início do processo de colonização de nossa terra Brasil. Era notável a maneira respeitosa com que eles se comportavam na roda e a seriedade com que encaravam esse momento. Também era gostoso ver com que agilidade e leveza, giravam seus pequenos e frágeis corpos, realizando movimentos característicos da luta.

A capoeira, sem dúvida, dentre outras benesses, ajuda a criança a se posicionar diante da vida. Quando pratica capoeira a criança aprende não apenas a jogar, mas também a cantar, tocar os instrumentos necessários a marcação do ritmo do jogo. A prática do esporte em questão fortalece nos pequenos a base emocional, e estimula a prática da observação e da defesa pessoal, evitando com isso, o incentivo à prática da violência e da agressividade. São inúmeros os benefícios que uma roda de capoeira pode proporcionar àqueles que estão dando os primeiros passos na estrada da vida; disciplina, organização, desenvolvimento do corpo e da mente; ampliação do campo de conhecimento, dentre outras.
Eu havia conhecido o Mestre Salário no dia anterior, sábado, dia 05 de abril, em uma roda de capoeira organizada pelo Mestre Topete, em frente à Catedral. Na breve conversa que tivemos, o capoeirista me falou do trabalho que desenvolvia com crianças. Contou-me também que faria um evento no dia seguinte e me convidou para ir participar.

                                                                           Mestre Salário

Mestre Salário é capoeirista há 26 anos. Além da Academia que mantém na Vila União, dá aulas em várias escolas particulares de Campinas. Em seu trabalho, procura valorizar a integração entre os alunos e trabalhar também o aspecto da inclusão social.

Ele decidiu fazer uma roda de capoeira especial, uma espécie de Páscoa antecipada, devido ao fato de que, por ocasião da Páscoa, estaria em Natal, capital do Rio Grande do Norte, participando de um evento de capoeira. Nem é preciso dizer que as crianças gostaram e muito. Para elas foi uma oportunidade de participarem de uma confraternização, jogar capoeira e ainda ganhar chocolates. Para os pais foi uma oportunidade de acompanhar o desenvolvimento esportivo dos filhos, uma vez que, durante a semana, muitos deles estão trabalhando e não podem fazer isso.

Mestre Salário também é representante, no Estado de São Paulo, da Fundação Internacional Capoeira Arte das Gerais, e representante geral dessa mesma fundação, em Campinas.


Há um trecho do ensaio de Sêneca, Da felicidade, que estava lendo, e que se aplica muito bem a esse momento: “Em primeiro lugar, a mente deve estar sã e em plena posse de suas faculdades; em segundo lugar, ser forte e ardente, magnânima e paciente, adaptável às circunstâncias, cuidar sem angústia do seu corpo e daquilo que lhe pertence, atenta às outras coisas que servem para a vida, sem admirar-se de nada; usar os dons da fortuna, sem ser escrava deles. Compreendes, ainda que não claramente, que, além disso, advém uma constante tranquilidade e liberdade, uma vez afastadas as coisas que nos perturbam ou nos amedrontam. Em lugar de prazeres e gozos mesquinhos e frágeis, até mesmo prejudiciais em sua desordem, que venham uma grande, inabalável e constante alegria e, ao mesmo tempo, a paz e a harmonia da alma, a generosidade com doçura. Qualquer tipo de maldade é resultado de alguma deficiência”.

Preenchendo o tempo dos filhos com o esporte e, com isso, acertando algumas deficiências na personalidade deles, os pais estão, mesmo sem o saberem, afastando-os da maldade.

***

Ao final da apresentação daquela iluminada roda de capoeira, conversei com os pais de três dos garotos que lá estavam, preparando-se para serem grandes capoeiristas, quem sabe, futuros mestres. Nas fotos, optei por apresentar a imagem dos garotos, apesar de ter conversado com os pais deles.

Conversei primeiro com o Estavam Bertucci Lorençon. Ao lado dele, a esposa, Juliana Franco Milton Lorençon. O casal tem três filhos: Rafael, Lucas e Guilherme, o mais novo da turma. Aliás, meu primeiro contato com alguém do grupo foi, justamente com o pequenino Guilherme, que estava em seu carrinho de bebê, se divertindo com um brinquedo. Tem gente que fala, meio que com descaso: “Ah, é apenas uma criança”, mas se esquecem de que as crianças também se comunicam se não com palavras, mas muito com o olhar, com as mãos, com o sorriso. Evidentemente, o pequenino Guilherme ainda não é praticante da capoeira, mas enquanto os irmãos estão na roda, sua mente está captando o toque do Berimbau, ouvindo os cantos ritmados, enfim, mesmo que forma inconsciente está absorvendo a energia da roda de capoeira.

                                                                                  Lucas e Rafael

José Flávio – Há quanto tempo os filhos de vocês estão na capoeira?

Estavam Loreçon – O Rafael, que é o mais velho, está há um ano. O Lucas há um mês.

José Flávio – Vocês notaram alguma diferença no comportamento deles, depois que começaram a frequentar as aulas?

Estavam Lorençon – Sim! Eles já começaram a melhorar no aspecto disciplinar. O respeito e atenção também melhoraram. Eles já melhoraram de forma significativa.

José Flavio – Eles estão gostando?

Estevam Loreçon – Estão sim. No dia da aula são eles mesmos que nos lembram do compromisso: “Hoje tem aula de capoeira”.

Em seguida a essa entrevista, conversei também com Bruno Finotelli Pires, pai Paulo Henrique Gonçalves Ficag, mais conhecido como Paulinho – outro garoto, mais novo, porém com mais tempo de prática no jogo da capoeira. Paulinho é irmão de Rayssa, que também pratica capoeira. Bruno é esposo de Márcia.

                                                                                   Paulinho Ficag

José Flávio – Quantos anos têm o seu filho?

Bruno Finotelli – Cinco anos.

José Flávio – Há quanto tempo ele pratica a arte da capoeira?

Bruno Finotelli – Que ele está na capoeira, vai fazer quatro anos. Ele começou com dois anos, quando ele completar seis anos, ele faz quatro anos de capoeira.

José Flávio – Como surgiu a ideia de matriculá-lo em uma aula de capoeira?

Bruno Finotelli  – A iniciativa surgiu através da escola. O Mestre Salário fazia um trabalho junto à Escola Gênius e, como ele é aluno do Gênius, iniciou a capoeira lá. Depois de um ano, ele foi convidado a vir para a Academia, pois já estava se diferenciando dos outros alunos.

José Flávio­ – Percebi que ele entra na roda de capoeira com bastante seriedade...

Bruno Finotelli – Ele é bastante dedicado. Na verdade, é o seguinte: na roda, ele quer jogar a toda hora, mas o mestre vai impondo uma disciplina a ele. Pois, é preciso deixar as outras crianças jogarem também.

José Flávio – O que mudou no comportamento dele com a frequência as aulas e aos treinos?


Bruno Finatelli ­­– O comportamento dele melhorou muito. Ele era muito agitado, agora está mais calmo. Ele tem um diferencial no comportamento que todo mundo percebe de longe.


Para mais informações sobre o trabalho de Mestre Salário, acesse página do Facebook, Salário Capoeira: https://www.facebook.com/salario.capoeira?fref=ts

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