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Tragédia em Santa Maria - Parte 1

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 19:22

No dia 28 de janeiro de 2013, o Brasil acordava sob o choque de uma grande tragédia ocorrida na cidade de Santa Maria, no Estado do Rio Grande do Sul. Uma festa universitária era realizada na boate Kiss. Dentro da casa noturna havia muito mais gente do que o previsto para o local. Depois ficou provado que, diversas irregularidades além dessa, foram responsáveis pela grande tragédia. Os alvarás de funcionamento da boate não estavam em ordem, a esponja de revestimento do teto da boate não era adequada para o local, os fogos de artifício usados pela banda Gurizada Fandangueira eram propícios para serem utilizados em lugares abertos e não em lugares fechados. Enfim, muitas vidas poderiam ter sido poupadas se normas básicas de prevenção e combate à incêndios tivessem sido observadas.

O incêndio ocorrido na madrugada de domingo, 27 de janeiro de 2013, exatamente há um ano, deixou um número de 242 mortos, em sua maioria, jovens entre 18 e 24 anos. As vítimas não morreram queimadas, morreram em conseqüência de terem respirado a fumaça altamente tóxica liberada pelas espumas do teto. Pessoas que saíram com vida da boate e, aparentemente bem, chegaram ao hospital mortas, tal era o grau de toxicidade da fumaça. Foi uma comoção nacional e não houve quem não se emocionasse com fato.  Depois da tragédia começou uma onda de fiscalização de casas noturnas em todo o país. Pensou-se que a nação viveria uma nova era quanto à segurança desses estabelecimentos. Um ano depois, toda essa pressa em encontrar soluções que impeçam que novas tragédias como a de Santa Maria aconteçam ficaram apenas no papel. Mudanças legislativas, propostas nos meses que seguiram, não entraram em vigor.  Um projeto de lei federal que propõe regras mais rígidas ainda está para ser votado no Congresso Nacional. As investigações sobre o incidente caminham a passos lentos. Em resumo, nada mudou. As únicas coisas que mudaram, verdadeiramente, foram a vida dos familiares que perderam jovens na tragédia e a vida dos sobreviventes daquele fatídico evento.

O texto a seguir foi construído com base em documentários, reportagens de jornais e telejornais e é baseado no depoimento de quem estava dentro da boate Kiss naquela noite e viveu todo o horror que aconteceu no local. Criei um personagem fictício para narrar os fatos verdadeiros em relação ao que aconteceu dentro da casa noturna, das homenagens na cidade e de como está a situação atualmente. Ao final do texto, o personagem deixa uma mensagem de conforto àqueles que perderam seus entes queridos. Por ter ficado extenso, dividi o texto em duas partes. A primeira, apresento a vocês agora e amanhã publico a parte final.



Imagem: http://valsoaressilva.blogspot.com.br/2011/10/crenca.html


É dia 27 de janeiro de 2014. Um belo e esplendido sol se derrama sobre a cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, trazendo vida e luz aos habitantes do lugar, e revigorando o verde da que circunda a região. Tem sido assim desde a fundação desta terra, há 156 anos. Caminho pela cidade, sem destino certo. Passo em frente à Universidade Federal – uma das maiores instituições de ensino público do Brasil. “Poderia estar estudando aqui, se meus planos não tivessem sido barbaramente interrompidos”, penso com certa melancolia. Esse pensamento logo se dissipa ao pensar que frequento agora uma Universidade onde tenho aprendido muito mais do que se estivesse na Federal de Santa Maria.




Imagem: http://en.wikipedia.org/wiki/Universidade_Federal_de_Santa_Maria

Santa Maria era uma alegre cidade universitária.  À sombra das arvores por onde caminho agora, os jovens cheios de planos e com toda uma vida pela frente, sentavam-se e cantavam e tocavam violão e saboreavam um gostoso chimarrão. Essa alegria foi embora, transformou-se em fumaça, no fatídico dia 27 de janeiro de 2013. Hoje, após um ano, as pessoas ainda tentam retomar a normalidade da vida. Mas isso ainda é uma coisa difícil. Nunca mais as lembranças daquela madrugada serão apagadas. Elas ficarão para sempre marcadas na história da cidade.

Vou ao centro da cidade – a propósito, uma coisa boa nesse meu novo estilo de vida é o fato não ter minha locomoção limitada. Posso ir aonde quiser e à hora em que desejar.  No centro da cidade, flores e rosas brancas estão espalhadas por todas as ruas, praças, janelas e avenidas. Há uma infinidade de velas acesas. Aqui e acolá, pessoas rezam fervorosamente, sozinhas ou em grupos. Vejo tristeza em todos os rostos. Melancolia em todas as faces. Lágrimas em todos os olhos. Faixas brancas foram estendidas na fachada das lojas, dos comércios, nas escolas, na Prefeitura Municipal. Enfim, de algum modo, as pessoas querem expressar o luto e a saudade que sentem de seus entes queridos. Santa Maria, no dia hoje, confunde-se com uma cidade mística.

Sentada em um banco de uma pequena e florida praça, está sentada uma jovem de belos cabelos cacheados. Ela parece ter o olhar perdido no tempo. Uma lágrima escorre-lhe pelas faces. Passo as mãos pelo seu rosto tentando enxugar essa lágrima teimosa que insiste em cair dos olhos da jovem. Apesar de meu esforço, ela não consegue notar a minha presença.  Sopro no ouvido da bela jovem gaúcha, umas palavras de conforto e de esperança.  Pelo menos nessa tarefa, acho que tive êxito... O esboço de um sorriso achegou-se aos seus lábios e a lágrima foi substituída por um leve brilho no olhar.


Imagem: http://oglobo.globo.com/pais/veja-imagens-da-boate-kiss-apos-incendio-7440062


Caminho mais algumas quadras pelo centro da cidade e chego à Rua dos Andradas, número 1925. Meus sentidos se turvam e minha percepção extra-sensorial fica um pouco confusa.  Apodera-se de mim um sentimento de angústia, é como se, de repente, uma grande tribulação me envolvesse. Meu espírito enfraquece e tento me segurar em alguma coisa, mas é como se tudo ao meu redor tivessem sido envolto por uma densa nuvem de fumaça. Sinto-me sendo sugado para dentro de um abismo de tristeza, angústia e depressão. Preciso reagir, pois, apesar de já aprendido bastantes coisas, ainda não aprendi tudo. Mas já sei que esse redemoinho que me envolve é uma armadilha que me levará ao caminho das trevas interiores, onde tudo é choro e ranger de dentes. Preciso ser forte, reagir, não me deixar tragar por esse turbilhão. Após alguns minutos de luta, minhas vestes ficam novamente resplandecentes, recobro a lucidez e chego mais próximos das pessoas que ali estão reunidas. Em plena rua está sendo celebrado um culto ecumênico. A beleza, a suavidade e o perfume dos belos arranjos de flores quebram o ambiente de tristeza e o transformam em lugar de divina inspiração.  As flores não são apenas ornamentos, elas são carregadas de simbolismo e significados. Os lírios, tulipas, violetas e rosas brancas colocadas ali simbolizam a paz, a pureza, a lealdade.  As rosas e os crisântemos; o amor e a fidelidade. A morte não é capaz de matar o amor, apenas o transforma. Aliás, nada é capaz de fazer morrer um verdadeiro amor.  Quando uma alma se vai e a outra segue seu caminho terreno, o amor é a linha invisível que as une. Há também o azul das violetas representando as moradas celestes. Dos amores-perfeitos, nem é preciso explicar coisa alguma: o nome já diz tudo. A folhagem verde que dá o toque especial aos arranjos expressa a esperança que embala o coração dos seres viventes. As velas queimando também têm seu significado: a brevidade da vida. Fiquei ali parado, inebriando-me do vinho delicioso advindo daquelas fervorosas orações. Quão bem fazem as orações às almas que delas tanto necessitam...

Perdão, falei tanto que até esqueci-me de vos dizer quem sou e qual é o imóvel ao qual parei em frente. Meu nome é Ângelo Farias Giacomelli, tinha 19 anos quando morri asfixiado, há um ano, no incêndio que vitimou 242 pessoas, em sua maioria jovens como eu, na boate Kiss, no centro de Santa Maria. Na Rua Andrada, 1925, funcionava a boate Kiss.

***


Imagem: http://noticias.uol.com.br/album/2013/01/27/incendio-em-boate-deixa-varios-mortos-e-feridos-em-santa-maria-rs.htm

Era sábado, dia 26 de janeiro e eu tinha dois bons motivos para ir à boate Kiss: primeiro, havia acabado de ser aprovado para o curso de Pedagogia, na Universidade Federal de Santa Maria e queria comemorar essa conquista junto com os amigos em uma festa na Kiss. Sempre fui um idealista e achava como acho até hoje, que a educação e uma ferramenta capaz de transformar, em primeiro lugar as pessoas, e por conseqüência, a sociedade a qual ela pertence. Os países ditos desenvolvidos são aqueles em que a educação é peça fundamental na construção de seus projetos. “Mais uma vez os homens, desafiados pela dramaticidade da hora atual se propõe a si mesmos como problemas. Descobrem que pouco sabem de seu “posto nos cosmos”, e se inquietam por saber mais...”, diz o grande educador brasileiro, Paulo Freire, em sua clássica obra, Pedagogia do Oprimido. Era a essa vontade de saber mais a qual eu queria me dedicar.

O outro motivo que tinha para ir a boate era o convite que havia recebido para participar de em evento na Kiss, promovido pela juventude universitária de Santa Maria. Na verdade, era uma festa promovida pelos alunos dos cursos de Zootecnia, Engenharia de Alimentos, Agronegócios, Medicina Veterinária, Agronomia e Pedagogia. O objetivo era arrecadar fundos para a festa de formatura dos alunos desses seis cursos. Vários universitários de outros cursos também aderiram à causa, de modo, que a juventude universitária da cidade estava bem representada naquela festa. A maioria dos jovens presentes tinha entre 18 e 24 anos.

Cheguei à boate por volta das 23h40 da noite de sábado, dia 26 de janeiro de 2013. A casa noturna havia acabado de abrir as portas. Eu não estava sozinho. Fui acompanhado por três amigos; Fabrício, Matheus e Carlos e duas amigas; Fernanda e Aline.  Estávamos todos alegres e entusiasmados era a primeira vez que eu participava de festas na Kiss. Meus amigos já haviam ido a várias delas. Quando chegamos havia pouca gente na boate. Nos primeiros minutos do dia 27, os jovens começaram a chegar em grande quantidade, enchendo  o espaço. Era tanta gente que, até o simples ato de pegar uma bebida no bar, era tarefa difícil. Quase não havia espaço para caminhar pelo ambiente. Lembro-me de ter perguntado para Aline:


Imagem: http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2013/01/estudio-de-fotografia-que-cobria-festa-na-boate-kiss-entrega-fotos-a-policia


_ Soube que a capacidade de lotação dessa casa é de 690 pessoas. Pelo que vejo já há por aqui mais de 1.500 participantes. Isso não poderá causar algum tipo de problema?
_ Qual nada! Já aconteceram várias festas aqui com a casa cheia e tudo correu normalmente. Fica sossegado. Disse ela despreocupadamente.


Mas eu não estava sossegado. Meu sexto sentido me dizia que algo terrível estava para acontecer naquela madrugada de domingo.

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