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Gira Girou

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 20:00
Sábado, 01 de fevereiro

“Meu canto esconde-se como um bando de Ianomâmis na floresta
Na minha testa caem, vêm colocar-se plumas de um velho cocar
Estou de pé em cima do monte de imundo lixo baiano
Cuspo chicletes do ódio no esgoto exposto do Leblon
Mas retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon
Eu sei o que é bom
Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem
Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final
Alguma coisa está fora da ordem

Fora da nova ordem mundial...”

(Trecho da música, Fora da Ordem – Caetano Veloso)

O texto a seguir é uma “salada” originada a partir da música Mundo Bom, da autoria de Agepê e Canário, interpretada pelo próprio Agepê. Ainda foram usadas na "receita" as músicas Roda Viva, de Chico Buarque, Fora de Ordem, de Caetano Veloso, e Êta Mundo Grande, de Martinho da Vila. Chico, Caetano e Matinho, creio, dispensam apresentações. Quanto a Agepê, algumas palavras são necessárias. Antonio Gilson Porfírio, mais conhecido como Agepê, nasceu no Rio de Janeiro, em 10 de agosto de 1942, e faleceu em 30 de agosto de 1995. Sambista de primeira categoria, dono de um repertório eclético e bem escolhido, teve em Canário seu grande parceiro nas composições. Entre seus grandes sucessos estão: Menina dos Cabelos Longos, Deixa Eu Te Amar e Moro Onde Não Mora Ninguém. Um artista digno dos aplausos que recebeu.

As frases em destaque são trechos literais extraídos das músicas citadas.

Vamos ao texto e boa leitura. Espero que saboreiem o prato.


Imagem: http://astronomy-universo.blogspot.com.br/2013/05/galeria-de-imagens-fotos-da-terra-vista.html


É noite. Ando pelas ruas de uma Campinas fria e nua. As mãos não ousam sair dos bolsos do agasalho. Imagens desconexas surgem em minha mente, algumas côncavas outras convexas. No caos organizado de minhas idéias ouço a voz suave e macia de Caetano.. Finjo não ouvir. Prossigo meu caminho.Não dou bola. Prossigo. Ele insiste:

_  Ei, alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundialA situação parece que se tornou mais grave. Mais que fora da nova ordem mundial, alguma coisa está fora da ordem emocional.

_ Cara, e eu com isso? – Pergunto.

_ Acorda! Sai do reino da fantasia. Você faz parte disso tudo. Eu faço parte disso tudo. Nós fazemos parte disso tudo.

_ Ah, me deixa em paz. Só quero curtir o frio da noite numa cidade nua. Não me venha com comidas indigestas!

De repente, não sei como, surge por entre as árvores da praça, Chico Buarque montado num cavalo alado, com sua fala suave, porém, firme:

_ A gente quer ter voz ativa. No nosso destino mandar, mas eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá.

Num passe de mágica o tempo roda, num instante, nas voltas do meu coração. Rodou o mundo, rodou o moinho, rodou o pião, na palma da minha mão. A cortina fechou e abriu rapidamente. O cenário mudou e eu estava à beira de um rio onde corre leite e mel. Ao meu lado, vestido de branco, estava um Agepê tranquilo e sereno.  Cantava com a autoridade de um profeta a clamar no deserto. A mensagem em forma de música se misturava às minhas próprias reflexões.

Eta, mundo velho e bom, bonito, colorido, boa praça.

O mundo nasceu assim. Um paraíso feito para o homem. Se o Brasil é belo hoje,  imagine então quando foi descoberto!   Que cenários paradisíacos! Milhares de quilômetros de Mata Atlântica! Puro verde. Verde-mar! Fartura de alimentos puros e saudáveis, sem agrotóxicos. Sem trans qualquer coisa. Coisa de Adão Eva. Vieram às maças envenenadas da ambição desmedida, da corrupção desenfreada, do lucro a qualquer custo... E o que era paraíso está virando inferno. Que pena! Mas ainda há tempo de salvar este santuário chamado terra. É hora de uma tomada de consciência e, normalmente, sem querer dar uma de super-herói, a gente consegue. Ah, se consegue!

Atrás do lado feio da vida há coisas lindas pra se ver. Quero ver.

Enxergar o sol no meio da tempestade. Não deixar a peteca do otimismo cair. Bola pra frente.  É uma atitude a ser adotada por todos nós. Afinal, como diz Martinho da Vila, na música Êta Mundo Grande “Eta mundo grande, cheio de beleza,com esta imensa natureza, que o Bom Deus criou, esse mundão foi feito pra se vadiar, mas o que vale nesta vida, é o que se faz, o que se sonha, e o que se ama”. 

Gira mundo, vai girando, roda mundo vai rodando, roda gira, gira roda, me leva pra qualquer lugar. No eixo do meu dia-a-dia te deixo me fazer cantar.

Pois é, às vezes da vontade de pegar a roda vida e fugir nela para bem longe. Sabe aquela estória tipo ilha deserta? Porém, realidade rima com gravidade, prende os pés da gente no chão. Que chato! O jeito é fugir para o universo da música e apreciar a constelação dos sons.

Tem gente que não entende que a vida é feita de açúcar e sal, de chuva e sol.  Quem sabe arrancar o veneno do peito e sair satisfeito por aí, faz da vida um carnaval.

É amigo, pensa que a vida é só leite , ramalhete de flores, etc e tal? Que nada! Também tem espinhos, pedra no caminho, tem bofetada na cara, tem as tais das decepções, tem lagrima chorada. Não é mole não! Mas não precisa fazer estoque de veneno no peito por causa disso. Você será vítima dele se assim fizer. Ao contrário: bota uma roupa bonita, um perfume cheiroso, levanta a auto-estima e vem pra roda de samba, ou vai pra Maracangalha. Você decide. O importante é estar bem!

Agepê subiu. E eu voltei às ruas de Campinas. Corri atrás de Caetano e, enquanto ele desaparecia em uma esquina, ainda foi possível ouvi-lo dizer:

Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem. Apenas sei de diversas harmonias bonitas, possíveis, sem juízo final...


Fiquei ali, parado naquela esquina, pensando: realmente, alguma coisa deve estar fora da ordem...

(Texto de minha autoria, publicado originalmente no blog rec2010.blogspot.comem 08 de junho de 2011 )


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Incrível!!! Aconteceu em Anapólis

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 20:11
Quinta-feira, 30 de janeiro


As imagens são impressionantes. Depois que as vemos, ficamos sem entender como é possível que uma coisa dessas aconteça. Quando penso nesse caso, uma palavra apenas, me parece adequada: intervenção divina, ou como se diz popularmente: um milagre.

Era terça-feira, dia 21 deste mês. A dona de casa, Vilma Theodoro do Nascimento, de 56 anos de idade, saiu de casa, como faz costumeiramente, para buscar o neto, João Pedro Nascimento, de apenas 5 anos de idade.

Avó e neto voltavam, tranqüila e despreocupadamente, para casa quando, num cruzamento próximo a escola onde o menino estudava, aconteceu um acidente de automóvel, que resultou em imagens incríveis.

Um Honda Fit bate em um Chevrolet Celta, em conseqüência bate em um Wolksvagen Gol que estava estacionado. Naquele momento, passavam por ali, Vilma e seu neto João Pedro. Eles percebem o acidente e tentam desviar do automóvel, porém, é tarde demais. O Gol derruba-os no chão e passa por cima deles. Imediatamente após ser atropelado o menino levanta-se rapidamente e corre para verificar o estado de saúde da avó, que ainda continua deitada na calçada.

Pedestres que passavam pelo local socorreram as vítimas e as levaram ao hospital. A equipe médica que atendeu aos dois pacientes, após ver as imagens que foram gravadas por uma câmera, colocada em um imóvel próximo ao cruzamento, ficou emocionada e surpresa, com o fato deles terem chegado aquela unidade médica sem maiores seqüelas, após tão grave acidente. Os exames constataram que os dois haviam sofrido apenas ferimentos leves. João Pedro foi liberado no mesmo dia e seguiu sua vida normalmente. Vilma, a avó dele, saiu do hospital no dia seguinte e também fez o mesmo.

Esse curioso fato aconteceu na cidade de Anápolis, no Estado de Goiás.

Achei que apenas o relato não dava a verdadeira dimensão da situação, e resolvi ilustrar com vídeo da reportagem apresentada pela TV Anhanguera, afiliada da Rede Globo em Goiás. A matéria foi ao ar no Jornal Anhanguera, 1ª edição.  O caso também foi destaque na imprensa de todo o país.
            


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Tragédia em Santa Maria – Parte 2

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 18:25
Terça-feira, 28 de janeiro

Imagem: http://www.exatasnews.com.br/secretario-da-seguranca-confirma-superlotacao-da-boate-kiss-perfil-das-vitimas-e-como-aconteceu/


Comecei a analisar melhor o ambiente. O espaço total da boate devia ter um pouco mais que 600 metros quadrados. Entrava-se nela por duas portas frontais que cumpriam, simultaneamente, dupla função: entrada e saída. “E se houvesse algum imprevisto, uma situação que causasse tumulto? Como faríamos para sair dali?” Isso seria um grande problema, pensei. Para agravar mais essa situação, nas portas de entrada foram colocadas grades de proteção com a finalidade de organizar a entrada dos freqüentadores da boate. Aquilo representaria um grande obstáculo se as pessoas precisassem sair em situação de emergência.  Olhei para o teto da boate e notei que ele era revestido por uma camada de espuma ordinária. Nem desconfiava que estivesse olhando para algo que ceifaria a vida de muita gente naquela noite.

Logo após atravessar o hall de entrada, chegava-se a um salão com duas áreas Vips e dois bares. À esquerda desse salão, acessível por uma rampa e uma escada, localizava-se a pista de dança. Esse local podia ser dividido em duas partes: na frente ficava um mezanino, no qual se podia abrigar um DJ, e um bar. Ao fundo ficava o palco principal. Naquela noite, quem se apresentaria nele seria a banda regional, Gurizada Fandangueira. A banda já havia se apresentado na Kiss por diversas vezes. Meus amigos contaram que eles tinham o hábito de usar shows pirotécnicos para impressionar o público. Eu já os conhecia dos CDs, mas nunca havia participado de um show ao vivo com eles.  Por esse motivo, aguardava ansiosamente pelo início do show. Quando eles subiram ao palco, passava das duas horas da manhã de domingo. Por alguns momentos senti vontade de ir embora, mas meus amigos estavam tão animados que resolvi ficar mais um pouco.

Estava na pista, dançando com Aline quando vi o vocalista da banda erguer o braço o mais que conseguiu. Ele disparou um artefato luminoso em direção ao alto. Todos pararam para ver os efeitos luminosos provocados pelo artefato. Foi quando meus olhos viram uma faísca atingir a espuma que recobria o teto. Um pequeno foco de incêndio logo foi formado. Era tão pequeno que não me causou preocupação. Um simples extintor de incêndio logo resolveria o problema. Foi o que fez um dos seguranças da boate que estava próximo ao palco. Ao perceber o foco de incêndio, ele pegou um extintor que estava próximo ao palco e o acionou. Nada aconteceu. Tentou mais uma vez. Vi uma nota de preocupação em rosto quando tentou pela terceira vez e não obteve sucesso. Um dos integrantes da banda tomou o instrumento das mãos do segurança e tentou acioná-lo, mas o extintor não funcionava de jeito nenhum.  Eu acompanhava atentamente todos esses detalhes. Enquanto isso, o pequeno foco de incêndio já havia adquirido proporções consideráveis.  Quando o vocalista da banda viu que não havia mais jeito, ele pegou o microfone e pediu que todos se retirassem do ambiente, pois estava havendo um incêndio.

Imagem: http://extra.globo.com/noticias/brasil/policia-recolhe-extintores-de-boate-incendiada-em-santa-maria-7414457.html


O desespero começou a tomar conta de quem estava na pista de dança, pois o fogo ainda não havia atingido os demais ambientes. Enquanto a maioria se dirigia a porta de saída, eu e Aline fomos em direção a sala vip, onde estava o restante de nosso pequeno grupo. Era difícil chegar até lá, pois, éramos empurrados a todo o momento pela multidão que já se dirigia para a saída. Os meus olhos ardiam muito e eu começava a ter dificuldades para enxergar. Respirar já estava se tornando uma tarefa complicada. Em meio a todo aquele tumulto, ouvi alguém gritar:

_ Os seguranças não estão deixando ninguém sair. Eles acham que ocorreu um briga e que algumas pessoas querem se aproveitar da situação e sair sem pagar a conta.

_ Alguém avisa pra eles que o caso é sério e que a boate está pegando fogo, replicou outro.

Enquanto isso, eu e Aline chegamos ao ambiente onde estava o restante dos nossos amigos. Eles ainda não tinham consciência de quão grave era a situação. Confesso que fiquei aliviado quando os vi são e salvos.

_ Precisamos achar um jeito de sair daqui o mais rápido possível, pessoal. A boate está incendiando! Disse eu em tom desesperado.

A espessa fumaça começou, nesse momento, a chegar ao local onde estávamos. O desespero tomou conta de todos nós. Soube depois que, aquela fumaça que nos envolvia, trazia em sua essência, Cianeto: o veneno da morte.

***

A dois quilômetros dali, o Corpo de Bombeiros da cidade, recebia uma ligação informando que estava acontecendo um incêndio na boate Kiss. A equipe saiu preparada, porém sem grandes preocupações. “Deve ser apenas um superaquecimento de fios”, pensavam eles.
***
A espessa nuvem de fumaça invadiu completamente o lugar em que estávamos. Tentamos sair dali tateando às cegas, indo em direção ao que achávamos ser a saída.  Era difícil manter os olhos abertos. Tirei a camisa e tentei usá-la como máscara para filtrar o ar. A sensação que sentia era a de que mãos invisíveis estavam apertando minha garganta. Não conseguia respirar direito. Começava a sentir também fortes dores no peito. Sentia como se estivesse sangrando internamente. Em meio a intensos gritos de desespero, tentava sair o mais depressa que pudesse. O problema era que centenas de pessoas também tentavam fazer a mesma coisa e, como conseqüência, quase não saíamos do lugar. Os amigos que tinham vindo comigo haviam se perdido em meio à multidão. Eu queria gritar por eles, mas não tinha mais voz. Pisei em alguns corpos de pessoas que estavam desmaiadas, o mais provável é de que já estivessem mortas. Dezenas de outras caiam ao meu redor. Foi quando senti meu corpo, aos poucos, ir perdendo as forças. Meus sentidos me abandonaram e eu desfaleci.

Imagem: http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/tag/boate-kiss/


Comecei a sentir uma sensação estranha. Era como se estivesse fora de meu corpo, flutuando no espaço. Não entendi porque meu corpo ficava ali parado, sem reação alguma. Tentei reanimá-lo, mas não obtive nenhum sucesso nessa tentativa. O jeito foi correr para fora da boate e tentar conseguir alguma ajuda por lá. Quando cheguei fora da boate, a cena que vi foi de uma terrível confusão. Muitas pessoas desmaiadas, outras chorando desesperadas. As luzes das viaturas policiais e dos carros de bombeiros davam um ar sinistro ao momento. O barulho das sirenes era ensurdecedor.  Aproximei-me de um policial que fazia anotações no que parecia ser um livro de ocorrências.

_ Por favor, policial, o Sr. Precisa me ajudar. Há muitas pessoas em apuros dentro da boate. É preciso tirá-las de lá imediatamente.

Por mais que gritasse, o policial não me ouvia, não me notava. Não me dava a menor atenção. Corri, então, para onde estavam os bombeiros. Implorei ajuda para eles, mas eles também nem me notaram. Pensei que talvez eles estivessem bastante ocupados para me ouvir.
Fui procurar ajuda entre as demais pessoas em frente à boate. Gritava. Implorava para que elas me ajudassem. Tudo em vão. Elas também não conseguiam me ouvir.
Desanimado, fui sentar-me do outro lado da rua. Para minha surpresa, Fabrício, Matheus, Carlos, Aline e Fernanda vieram sentar-se ao meu lado. Todos se queixavam da mesma coisa: ninguém conseguia nos ouvir.

O estranho era que também conseguíamos ver o que acontecia dentro da boate. Lá dentro, vimos uma jovem colocar a cabeça dentro do freezer onde se colocavam as bebidas e sorver a maior quantidade de ar que conseguisse. Depois ela saiu tateando pelas paredes em direção à saída. Alguns minutos mais tarde nós a vimos fora da boate sendo levada para o hospital. Alguns rapazes desafiavam a fumaça e, com picaretas, quebravam as paredes na tentativa de salvar algumas pessoas.

Vimos quando um jovem militar que, junto com a esposa, havia conseguido sair com vida da boate, voltou para ajudar a salvar vidas. Conseguiu salvar algumas pessoas, mas ao voltar pela sexta vez para dentro da boate, não conseguiu mais sair de lá com vida.

A todo o momento chegavam familiares e amigos de jovens que estavam na boate. Centenas de curiosos se reuniam em volta tentando ajudar de alguma forma. Também nós, estávamos esperando os nossos familiares, mas antes deles chegarem, aproximou-se de nos um grupo de homens com roupas brilhantes. De seus olhos emanavam fortes ondas de amor. Eles estenderam as mãos em nossa direção e, com voz doce e suave, disseram:

_ Viemos para levá-los de volta para casa.

Nós nos entreolhamos com surpresa e admiração. Pelo menos, eles conseguiam nos ouvir. Demos as mãos a eles e partimos. Naquele momento, a dor e angústia que sentíamos, desapareceu. Fomos envoltos por uma luz que irradiava grande paz.

***

Imagem: http://www.tatliaskim.org/resimler-guzel-resimler/183048-dogadan-secmeler.html


Ao voltar, após um ano daquela noite de terror, encontrei um processo de onze mil páginas correndo na justiça. Os sócios da boate Kiss; Elissandro Callegaro e Mauro Londero Hofmann e os músicos da banda Gurizada Fandangueira; Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão são acusados, nessa ação, de homicídio tentado e consumado. Eles tiveram prisão temporária decretada em 31 d janeiro de 2013. Em 1 de março foi decretada prisão preventiva. Entretanto, em 29 de maio, a Câmara Criminal do Tribunal de Justiça gaúcho revogou a prisão dos quatro acusados e, hoje, eles respondem ao processo em liberdade. O inquérito criminal indiciou 16 pessoas e responsabilizou outras 12. Bombeiros funcionários da prefeitura também foram citados nas investigações.

Sofro ao ver o sofrimento dos meus irmãos gaúchos. Muitos dos que perderam entes queridos ainda hoje, inconscientemente, esperam que eles voltem. Isso fica demonstrado através de pequenos e significativos gestos: uma porta que fica aberta, como se esperasse que o filho ou filha estivesse viajando e fosse chegar a qualquer hora, um quarto arrumado do mesmo jeito que estava na noite da tragédia, são apenas alguns exemplos. Quanto aos sobreviventes, esses sofrem de três maneiras diferentes: a primeira, pelas terríveis lembranças daquela madrugada. A segunda, pela dor da perda dos amigos. A terceira, na pele marcada pelas queimaduras e nas graves sequelas provocadas pela intoxicação devida a inalação da fumaça e que afeta grandemente os pulmões. Mais de seiscentas pessoas ainda recebem atendimento hospitalar e psicológico. Muitas outras fazem uso de antidepressivos. A cidade de Santa Maria nunca mais será a mesma cidade universitária alegre de antes. Haverá sempre essa nota triste nas canções que serão cantadas, futuramente, pelas esquinas da cidade ou embaixo das árvores do Campus Universitário. Um desejo está sempre presente nos corações e mentes dos habitantes daquela cidade: o de que se faça justiça, e que os responsáveis por tantas mortes, não fiquem impunes. Reza-se também para que coisas como essas nunca mais se repitam em nenhuma parte do mundo.

Por fim, gostaria de vos dizer que, do plano espiritual, onde nos encontramos, estamos a todo o momento enviando vibrações de paz carinho, conforto e amor para todos os nossos familiares e amigos, e para todos os sobreviventes daquela tragédia. Quero vos dizer também que quando uma lágrima cair de teu rosto lembra-te dos momentos felizes que passamos juntos. Quando a tristeza te invadir o coração, lembra-te de que, acima de um céu nublado brilha intensamente a luz do sol. Quando te sentires sozinho lembra-te de que há um Deus poderoso que é só amor e que te acolhe de braços abertos. Quando sentires a minha falta, lembra-te de que és filho do universo, irmão das estrelas e que teremos uma eternidade para nos reencontrar. E quando ouvires as notas das canções lembra-te de que estarei vivendo nas boas lembranças que construímos, na chuva fina que cai enriquecendo a terra para novo plantio e no sol que nasce a cada novo dia, iluminando e renovando a vida na terra.


Um grande abraço cheio de carinho e saudade à todos.

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Tragédia em Santa Maria - Parte 1

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 19:22

No dia 28 de janeiro de 2013, o Brasil acordava sob o choque de uma grande tragédia ocorrida na cidade de Santa Maria, no Estado do Rio Grande do Sul. Uma festa universitária era realizada na boate Kiss. Dentro da casa noturna havia muito mais gente do que o previsto para o local. Depois ficou provado que, diversas irregularidades além dessa, foram responsáveis pela grande tragédia. Os alvarás de funcionamento da boate não estavam em ordem, a esponja de revestimento do teto da boate não era adequada para o local, os fogos de artifício usados pela banda Gurizada Fandangueira eram propícios para serem utilizados em lugares abertos e não em lugares fechados. Enfim, muitas vidas poderiam ter sido poupadas se normas básicas de prevenção e combate à incêndios tivessem sido observadas.

O incêndio ocorrido na madrugada de domingo, 27 de janeiro de 2013, exatamente há um ano, deixou um número de 242 mortos, em sua maioria, jovens entre 18 e 24 anos. As vítimas não morreram queimadas, morreram em conseqüência de terem respirado a fumaça altamente tóxica liberada pelas espumas do teto. Pessoas que saíram com vida da boate e, aparentemente bem, chegaram ao hospital mortas, tal era o grau de toxicidade da fumaça. Foi uma comoção nacional e não houve quem não se emocionasse com fato.  Depois da tragédia começou uma onda de fiscalização de casas noturnas em todo o país. Pensou-se que a nação viveria uma nova era quanto à segurança desses estabelecimentos. Um ano depois, toda essa pressa em encontrar soluções que impeçam que novas tragédias como a de Santa Maria aconteçam ficaram apenas no papel. Mudanças legislativas, propostas nos meses que seguiram, não entraram em vigor.  Um projeto de lei federal que propõe regras mais rígidas ainda está para ser votado no Congresso Nacional. As investigações sobre o incidente caminham a passos lentos. Em resumo, nada mudou. As únicas coisas que mudaram, verdadeiramente, foram a vida dos familiares que perderam jovens na tragédia e a vida dos sobreviventes daquele fatídico evento.

O texto a seguir foi construído com base em documentários, reportagens de jornais e telejornais e é baseado no depoimento de quem estava dentro da boate Kiss naquela noite e viveu todo o horror que aconteceu no local. Criei um personagem fictício para narrar os fatos verdadeiros em relação ao que aconteceu dentro da casa noturna, das homenagens na cidade e de como está a situação atualmente. Ao final do texto, o personagem deixa uma mensagem de conforto àqueles que perderam seus entes queridos. Por ter ficado extenso, dividi o texto em duas partes. A primeira, apresento a vocês agora e amanhã publico a parte final.



Imagem: http://valsoaressilva.blogspot.com.br/2011/10/crenca.html


É dia 27 de janeiro de 2014. Um belo e esplendido sol se derrama sobre a cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, trazendo vida e luz aos habitantes do lugar, e revigorando o verde da que circunda a região. Tem sido assim desde a fundação desta terra, há 156 anos. Caminho pela cidade, sem destino certo. Passo em frente à Universidade Federal – uma das maiores instituições de ensino público do Brasil. “Poderia estar estudando aqui, se meus planos não tivessem sido barbaramente interrompidos”, penso com certa melancolia. Esse pensamento logo se dissipa ao pensar que frequento agora uma Universidade onde tenho aprendido muito mais do que se estivesse na Federal de Santa Maria.




Imagem: http://en.wikipedia.org/wiki/Universidade_Federal_de_Santa_Maria

Santa Maria era uma alegre cidade universitária.  À sombra das arvores por onde caminho agora, os jovens cheios de planos e com toda uma vida pela frente, sentavam-se e cantavam e tocavam violão e saboreavam um gostoso chimarrão. Essa alegria foi embora, transformou-se em fumaça, no fatídico dia 27 de janeiro de 2013. Hoje, após um ano, as pessoas ainda tentam retomar a normalidade da vida. Mas isso ainda é uma coisa difícil. Nunca mais as lembranças daquela madrugada serão apagadas. Elas ficarão para sempre marcadas na história da cidade.

Vou ao centro da cidade – a propósito, uma coisa boa nesse meu novo estilo de vida é o fato não ter minha locomoção limitada. Posso ir aonde quiser e à hora em que desejar.  No centro da cidade, flores e rosas brancas estão espalhadas por todas as ruas, praças, janelas e avenidas. Há uma infinidade de velas acesas. Aqui e acolá, pessoas rezam fervorosamente, sozinhas ou em grupos. Vejo tristeza em todos os rostos. Melancolia em todas as faces. Lágrimas em todos os olhos. Faixas brancas foram estendidas na fachada das lojas, dos comércios, nas escolas, na Prefeitura Municipal. Enfim, de algum modo, as pessoas querem expressar o luto e a saudade que sentem de seus entes queridos. Santa Maria, no dia hoje, confunde-se com uma cidade mística.

Sentada em um banco de uma pequena e florida praça, está sentada uma jovem de belos cabelos cacheados. Ela parece ter o olhar perdido no tempo. Uma lágrima escorre-lhe pelas faces. Passo as mãos pelo seu rosto tentando enxugar essa lágrima teimosa que insiste em cair dos olhos da jovem. Apesar de meu esforço, ela não consegue notar a minha presença.  Sopro no ouvido da bela jovem gaúcha, umas palavras de conforto e de esperança.  Pelo menos nessa tarefa, acho que tive êxito... O esboço de um sorriso achegou-se aos seus lábios e a lágrima foi substituída por um leve brilho no olhar.


Imagem: http://oglobo.globo.com/pais/veja-imagens-da-boate-kiss-apos-incendio-7440062


Caminho mais algumas quadras pelo centro da cidade e chego à Rua dos Andradas, número 1925. Meus sentidos se turvam e minha percepção extra-sensorial fica um pouco confusa.  Apodera-se de mim um sentimento de angústia, é como se, de repente, uma grande tribulação me envolvesse. Meu espírito enfraquece e tento me segurar em alguma coisa, mas é como se tudo ao meu redor tivessem sido envolto por uma densa nuvem de fumaça. Sinto-me sendo sugado para dentro de um abismo de tristeza, angústia e depressão. Preciso reagir, pois, apesar de já aprendido bastantes coisas, ainda não aprendi tudo. Mas já sei que esse redemoinho que me envolve é uma armadilha que me levará ao caminho das trevas interiores, onde tudo é choro e ranger de dentes. Preciso ser forte, reagir, não me deixar tragar por esse turbilhão. Após alguns minutos de luta, minhas vestes ficam novamente resplandecentes, recobro a lucidez e chego mais próximos das pessoas que ali estão reunidas. Em plena rua está sendo celebrado um culto ecumênico. A beleza, a suavidade e o perfume dos belos arranjos de flores quebram o ambiente de tristeza e o transformam em lugar de divina inspiração.  As flores não são apenas ornamentos, elas são carregadas de simbolismo e significados. Os lírios, tulipas, violetas e rosas brancas colocadas ali simbolizam a paz, a pureza, a lealdade.  As rosas e os crisântemos; o amor e a fidelidade. A morte não é capaz de matar o amor, apenas o transforma. Aliás, nada é capaz de fazer morrer um verdadeiro amor.  Quando uma alma se vai e a outra segue seu caminho terreno, o amor é a linha invisível que as une. Há também o azul das violetas representando as moradas celestes. Dos amores-perfeitos, nem é preciso explicar coisa alguma: o nome já diz tudo. A folhagem verde que dá o toque especial aos arranjos expressa a esperança que embala o coração dos seres viventes. As velas queimando também têm seu significado: a brevidade da vida. Fiquei ali parado, inebriando-me do vinho delicioso advindo daquelas fervorosas orações. Quão bem fazem as orações às almas que delas tanto necessitam...

Perdão, falei tanto que até esqueci-me de vos dizer quem sou e qual é o imóvel ao qual parei em frente. Meu nome é Ângelo Farias Giacomelli, tinha 19 anos quando morri asfixiado, há um ano, no incêndio que vitimou 242 pessoas, em sua maioria jovens como eu, na boate Kiss, no centro de Santa Maria. Na Rua Andrada, 1925, funcionava a boate Kiss.

***


Imagem: http://noticias.uol.com.br/album/2013/01/27/incendio-em-boate-deixa-varios-mortos-e-feridos-em-santa-maria-rs.htm

Era sábado, dia 26 de janeiro e eu tinha dois bons motivos para ir à boate Kiss: primeiro, havia acabado de ser aprovado para o curso de Pedagogia, na Universidade Federal de Santa Maria e queria comemorar essa conquista junto com os amigos em uma festa na Kiss. Sempre fui um idealista e achava como acho até hoje, que a educação e uma ferramenta capaz de transformar, em primeiro lugar as pessoas, e por conseqüência, a sociedade a qual ela pertence. Os países ditos desenvolvidos são aqueles em que a educação é peça fundamental na construção de seus projetos. “Mais uma vez os homens, desafiados pela dramaticidade da hora atual se propõe a si mesmos como problemas. Descobrem que pouco sabem de seu “posto nos cosmos”, e se inquietam por saber mais...”, diz o grande educador brasileiro, Paulo Freire, em sua clássica obra, Pedagogia do Oprimido. Era a essa vontade de saber mais a qual eu queria me dedicar.

O outro motivo que tinha para ir a boate era o convite que havia recebido para participar de em evento na Kiss, promovido pela juventude universitária de Santa Maria. Na verdade, era uma festa promovida pelos alunos dos cursos de Zootecnia, Engenharia de Alimentos, Agronegócios, Medicina Veterinária, Agronomia e Pedagogia. O objetivo era arrecadar fundos para a festa de formatura dos alunos desses seis cursos. Vários universitários de outros cursos também aderiram à causa, de modo, que a juventude universitária da cidade estava bem representada naquela festa. A maioria dos jovens presentes tinha entre 18 e 24 anos.

Cheguei à boate por volta das 23h40 da noite de sábado, dia 26 de janeiro de 2013. A casa noturna havia acabado de abrir as portas. Eu não estava sozinho. Fui acompanhado por três amigos; Fabrício, Matheus e Carlos e duas amigas; Fernanda e Aline.  Estávamos todos alegres e entusiasmados era a primeira vez que eu participava de festas na Kiss. Meus amigos já haviam ido a várias delas. Quando chegamos havia pouca gente na boate. Nos primeiros minutos do dia 27, os jovens começaram a chegar em grande quantidade, enchendo  o espaço. Era tanta gente que, até o simples ato de pegar uma bebida no bar, era tarefa difícil. Quase não havia espaço para caminhar pelo ambiente. Lembro-me de ter perguntado para Aline:


Imagem: http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2013/01/estudio-de-fotografia-que-cobria-festa-na-boate-kiss-entrega-fotos-a-policia


_ Soube que a capacidade de lotação dessa casa é de 690 pessoas. Pelo que vejo já há por aqui mais de 1.500 participantes. Isso não poderá causar algum tipo de problema?
_ Qual nada! Já aconteceram várias festas aqui com a casa cheia e tudo correu normalmente. Fica sossegado. Disse ela despreocupadamente.


Mas eu não estava sossegado. Meu sexto sentido me dizia que algo terrível estava para acontecer naquela madrugada de domingo.

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Saudades

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 12:59
Sábado, 25 de janeiro

Este fim de semana, em todo o Brasil e, especialmente, na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, ocorrem homenagens e orações às vítimas que morreram no incêndio, durante uma festa na Boate Kiss, no dia 27 de janeiro de 2013. Foram mais de 200 jovens. Uma tragédia que comoveu o Brasil e o mundo. Na época, em reportagens exibidas pelos telejornais, repórteres e apresentadores, ficavam visivelmente emocionados enquanto narravam os fatos. As famílias dos jovens entravam em desespero. O país inteiro chorava.
O poema que posto agora, de autoria do genial Charles Chaplin, é uma mensagem de conforto e esperança para quem perdeu seus entes queridos naquela tragédia, ou em situações semelhantes. Na segunda-feira, posto um texto especial sobre essa grande tragédia ocorrida no Rio Grande do Sul.



Tua caminhada ainda não terminou....
A realidade te acolhe
dizendo que pela frente
o horizonte da vida necessita
de tuas palavras
e do teu silêncio.

Se amanhã sentires saudades,
lembra-te da fantasia e
sonha com tua próxima vitória.
Vitória que todas as armas do mundo
jamais conseguirão obter,
porque é uma vitória que surge da paz
e não do ressentimento.

É certo que irás encontrar situações
tempestuosas novamente,
mas haverá de ver sempre
o lado bom da chuva que cai
e não a faceta do raio que destrói.

Tu és jovem.
Atender a quem te chama é belo,
Lutar por quem te rejeita
É quase chegar a perfeição.
A juventude precisa de sonhos
E se nutrir de lembranças,
Assim como o leito dos rios
Precisa da água que rola
e o coração necessita de afeto.

Não faças do amanhã
O sinônimo de nunca,
Nem o ontem te seja o mesmo
Que nunca mais.
Teus passos ficaram.
Olhes para trás...
Mas vá em frente
Pois há muitos que precisam
Que chegues para poderem seguir-te.

(Charles Chaplin)




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Passeando no tempo e na história com Barack Obama

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 12:19
Sexta-feira, 24 de janeiro

Os bons discursos são aqueles que mesmo tendo sido feitos em um passado recente ou remoto, conservam sempre uma grande parcela de atualidade, que nos faz refletir sobre a nossa história de vida, ou sobre a história de nossa coletividade enquanto nação. Foi pensando nessas questões que resolvi ir buscar, em passado recente, esse discurso de Barack Obama, feito durante uma visita ao Brasil, em 2011.

O presidente norte-americano esteve no país entre os dias 19 e 20 de março daquele ano. Ele veio acompanhado esposa, Michelli, das filhas: Mallia e Sasha, e da sogra Mirian Shields Robson.  Junto com a família Obama veio uma comitiva de cerca de 800 pessoas.

Obama foi recebido, primeiramente, em Brasília, pela presidente Dilma Roussef.  Cumprindo uma agenda de negócios, o presidente participou de um encontro com empresários dos dois países onde discutiu, dentre outros assuntos, as exportações americanas e investimentos em setores como infraestrutura e energia. Após cumprir a agenda em Brasília, Barck Obama foi ao Rio de janeiro.

No domingo, pela manhã, Obama visitou o Cristo Redentor, monumento pelo qual ficou maravilhado.  Após essa visita turística, o presidente foi à favela Cidade de Deus, onde conheceu projetos sociais desenvolvidos pelos moradores daquela comunidade e conheceu também uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).
Ainda no Rio, na tarde de domingo, 20 de março de 2011, Barack Obama discursou para mais de 2.000 pessoas no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, na Cinelândia.  Nesse discurso, ele faz um passeio pela história traçando analogias na formação das nações brasileira e americana.  Diz que o primeiro líder de um país a visitar os Estados Unidos foi um representante brasileiro. “O primeiro líder de um país a visitar os Estados Unidos foi Dom Pedro II (rei do Brasil)”.  O presidente americano também se refere à corrupção como fator que pode “apodrecer uma sociedade e roubar seres humanos de sua dignidade e oportunidades”. Fala também de avanço na democracia: “Onde que a luz da liberdade seja acesa, o mundo se torna mais luminoso”. Além disso, fala também da parceria Brasil - Estados Unidos.

É um discurso que vale a pena conhecer. 

Imagem: http://lucianobrito.blogspot.com.br/2011_03_01_archive.html


Alô, Rio de Janeiro.
Alô, Cidade Maravilhosa.
Boa tarde, todo o povo brasileiro.
Desde o momento em que chegamos o povo desta nação tem gentilmente mostrado à minha família o calor e a generosidade do espírito brasileiro, obrigado. Quero agradecer a todos por estarem aqui, pois me disseram que há um jogo do Vasco ou do Botafogo... Eu sei que os brasileiros não abrem mão de seu futebol tão facilmente.
Uma das primeiras impressões que tive do Brasil veio de um filme que vi com minha mãe quando eu era muito pequeno. Um filme chamado "Orfeu negro", que se passava nas favelas durante o carnaval. E minha mãe adorava aquele filme, tinha música e dança e como pano de fundo, os lindos morros verdes. Esse filme estreou primeiramente como uma peça bem aqui, no Theatro Municipal.
Minha mãe já faleceu, mas ela jamais imaginaria que a primeira viagem de seu filho ao Brasil seria como presidente dos EUA. Ela jamais imaginaria isso. E eu jamais imaginaria que este país seria ainda mais bonito do que no filme. Vocês são, como o cantor Jorge Benjor diz, “Um país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza”.
Vi essa beleza nas encostas dos morros, nas infindáveis milhas de areia e oceano e nas vibrantes e diversificadas multidões de brasileiros que vieram aqui hoje. E nós temos um grupo maravilhosamente misturado: cariocas, paulistas, baianos, mineiros. Temos homens e mulheres das cidades até o interior e tanta gente jovem aqui, que são o grande futuro desta grande nação.
Ontem tive um encontro com sua maravilhosa nova presidente, Dilma Rousseff, e conversamos sobre como fortalecer a parceria entre nossos governos. Mas hoje quero falar diretamente com o povo brasileiro sobre como podemos fortalecer a amizade entre nossos países. Vim aqui para compartilhar algumas idéias, pois quero falar sobre os valores que compartilhamos, as esperanças que temos em comum e a diferença que podemos fazer juntos.
Se você parar para pensar, as jornadas dos EUA e do Brasil começaram de formas parecidas. São duas terras com abundantes recursos naturais, terras natais de povos indígenas antiqüíssimos. As Américas foram descobertas por homens que vieram do outro lado do oceano como um “novo mundo” e colonizadas pelos pioneiros que ampliaram os territórios rumo ao Oeste atravessando imensas fronteiras. Nos tornamos colônias dominadas por coroas distantes, mas logo declaramos nossa independência e, em seguida, recebemos grandes quantidades de imigrantes em nossas costas e mais tarde, depois de muita luta, limpamos a mancha da escravidão de nossas terras.
Os EUA foram a primeira nação a reconhecer a independência do Brasil e a primeira a estabelecer um posto diplomático neste país. O primeiro líder de um país a visitar os EUA foi Dom Pedro II. Na Segunda Guerra Mundial nossos corajosos homens e mulheres lutaram lado a lado pela liberdade. E depois da guerra, nossas duas nações lutaram para conseguir as bênçãos plenas da liberdade.
Nas ruas dos EUA, homens e mulheres marcharam e sangraram e alguns até morreram para que todos os cidadãos pudessem usufruir das mesmas liberdades e oportunidades, não importa como fosse sua aparência, não importa de onde você viesse. No Brasil vocês lutaram contra duas décadas de ditadura, lutando pelo mesmo direito de ser ouvidos, o direito de ser livres: livres do medo, livres da necessidade. E, mesmo assim, durante anos, a democracia e o desenvolvimento demoraram a se estabelecer e milhões sofreram por causa disso.
Mas venho aqui hoje porque esses dias passaram. Hoje, o Brasil é uma democracia desabrochando, um lugar onde as pessoas são livres para falar o que pensam e escolher seus líderes e onde um garoto pobre de Pernambuco pode sair de uma fábrica de cobre e chegar ao gabinete mais elevado no país. Na última década, o progresso feito pelo povo brasileiro inspirou o mundo.
Pois, hoje, metade deste país é considerado classe média. Milhões foram retirados da pobreza. Pela primeira vez a esperança está voltando a lugares onde antes prevalecia o medo. Eu vi isso hoje, quando visitei a Cidade de Deus. Não se trata apenas dos novos esforços com segurança e programas sociais. E quero dar os parabéns ao prefeito e ao governador pelo excelente trabalho que estão fazendo. Mas também é uma mudança de atitude.
Como um jovem morador disse, as pessoas não devem olhar a favela com pena, mas como uma fonte de presidentes, advogados, médicos, artistas e pessoas com soluções. A cada dia que passa, o Brasil é um país com mais soluções. Na comunidade global, vocês passaram de contar com o ajuda de outros países a agora ajudar a lutar contra a pobreza e a doença onde quer que elas existam.
Vocês desempenham um papel importante nas instituições globais ao promover nossa segurança como um todo e nossa prosperidade como um todo. E vocês receberão o mundo em seu país quando a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos vierem ao Rio de Janeiro. Vocês sabem que esta cidade não foi minha primeira escolha para os Jogos Olímpicos, mas, se os jogos não pudessem ser realizados em Chicago, não tem lugar em que eu gostaria mais de vê-los do que aqui no Rio.
Por isso pretendo voltar em 2016 para ver o que acontece. O Brasil foi durante muito tempo um país cheio de potencial, mas atrasado pela política, tanto aqui quanto no exterior. Durante muito tempo o Brasil foi o “país do futuro” e disseram para que ele esperasse pelos dias melhores que viriam em breve. Meus amigos, este dia, finalmente, chegou. Este não é mais o “país do futuro”, as pessoas do Brasil devem saber que o futuro já chegou e está aqui agora. É hora de tomar posse dele.
Nossos países nem sempre concordaram em tudo. E assim como ocorre com muitas nações, teremos nossas diferenças de opinião ao avançar. Mas estou aqui para lhes dizer que o povo americano não apenas reconhece o sucesso do Brasil, nós torcemos pelo sucesso do Brasil enquanto vocês confrontam os muitos desafios que ainda enfrentam em casa e no exterior, vamos ficar juntos, não são como parceiros sênior e júnior, mas como parceiros iguais, unidos pelo espírito do interesse comum e do respeito mútuo, comprometidos para com o progresso que sei que podermos fazer juntos.
Tenho certeza de que podemos fazer isso. Juntos, podemos aumentar nossa prosperidade em comum. Sendo duas das maiores economias do mundo, trabalhamos lado a lado durante a crise financeira para restaurar o crescimento e confiança. E para manter nossas economias crescendo, sabemos do que é necessário em ambas as nações. Precisamos de uma força de trabalho capacitada e é por isso que empresas brasileiras e americanas assumiram um compromisso de aumentar o intercâmbio de estudantes entre nossas nações.
Precisamos de um compromisso com a inovação e a tecnologia, por isso concordamos em aumentar a cooperação entre nossos cientistas, pesquisadores e engenheiros. Precisamos de infra-estrutura da mais alta qualidade e por isso as empresas americanas também querem ajudá-los a construir e preparar a cidade para o sucesso olímpico. Numa economia globalizada, os EUA e o Brasil deveriam expandir o comércio, expandir investimentos, de modo a criar novos empregos e novas oportunidades em ambas nossas nações, por isso estamos trabalhando para derrubar barreiras para fazer negócios.
Por isso estamos criando relacionamentos mais próximos entre nossos trabalhadores e nossos empreendedores. Juntos também podemos trabalhar pela segurança da energia e proteger nosso lindo planeta.
Sendo dois países comprometidos com economias mais verdes, sabemos que a solução definitiva ao desafio da energia virá da criação de fontes de energias limpas e renováveis. Por isso a metade dos carros daqui pode circular com bicombustível e a maior parte de sua eletricidade vem de hidroelétricas. E por isso também demos início a uma nova indústria limpa de energia nos EUA. Por isso os EUA e o Brasil estão criando novas parcerias na área de energia, para compartilhar, criar novos empregos e deixar para nossos filhos um mundo mais limpo e mais seguro do que encontramos.
Juntas, nossas duas nações também podem ajudar a defender a segurança de nossos cidadãos. Estamos trabalhando juntos para deter o narcotráfico que destruiu vidas demais neste hemisfério. Buscamos o objetivo de um mundo sem armas nucleares. Estamos trabalhando juntos para aumentar nossa segurança ente hemisférios. Da África ao Haiti, estamos trabalhando lado a lado para combater a fome, doença e corrupção que podem apodrecer uma sociedade e roubar seres humanos de sua dignidade e oportunidades.
Sendo dois países que foram tão enriquecidos pela herança africana, é vital que trabalhemos juntos com o continente africano para ajudá-lo a se erguer. É algo que devemos nos comprometer a fazer, juntos. Hoje também estamos dando apoio e ajuda ao povo japonês em sua maior hora de necessidade. Os laços que unem nossa nação ao Japão são fortes. O Brasil é o lar da maior população japonesa fora do Japão. Nos EUA, solidificamos uma aliança com eles que já tem mais de 60 anos.
Os japoneses são alguns de nossos amigos mais próximos e ficaremos ao lado deles, rezaremos com eles e reconstruiremos com eles até que essa crise esteja terminada. Nestes e em outros esforços para promover paz e prosperidade no mundo todo, os EUA e o Brasil são parceiros não apenas porque compartilhamos história ou por estarmos no mesmo hemisfério, não apenas por compartilharmos laços de comércio e cultura, mas também porque compartilhamos de valores e ideais duradouros.
Ambos acreditamos no poder e na promessa da democracia, acreditamos que nenhuma forma de governo é mais eficaz na promoção de crescimento e prosperidade que alcança todo ser humano, não apenas alguns, mas todos. E aqueles que discordam dizendo que a democracia atrapalha o crescimento econômico devem argumentar com o exemplo do Brasil. Com os milhões que subiram da pobreza para a classe média não o fizeram numa economia fechada controlada pelo estado, mas o fizeram como um povo livre, com mercados livres e um governo que responde a seus cidadãos.
Vocês são a prova de que justiça social e inclusão social podem ser melhor conquistadas por meio da liberdade e que a democracia é a maior parceira do progresso humano. Também acreditamos que em países tão grandes e diversos quanto os nossos, moldados por gerações de imigrantes de todas as raças, fés e culturas, a democracia dá a maior esperança de que todos os cidadãos sejam tratados com dignidade e respeito. E que podemos resolver nossas diferenças pacificamente e encontrar força em nossa diversidade.
Nós sabemos, nos EUA, como é importante poder trabalhar juntos, mesmo quando discordamos. Entendo que a forma de governo que escolhemos pode ser lenta e confusa. Entendemos que a democracia precisa ser fortalecida e aperfeiçoada com o tempo. Sabemos que diferentes países escolhem caminhos diferentes para atingir a promessa da democracia. E entendemos que nenhum país deve impor sua vontade sobre outro.
Mas também sabemos que existem certas aspirações compartilhadas por todo ser humano. Todos nós queremos ser livres, queremos ser ouvidos, todos ansiamos por viver sem medo ou discriminação. Todos nós queremos escolher como seremos governados. Todos querem moldar seu próprio destino. Esses não são ideais americanos ou ideais brasileiros, não são ideais ocidentais, são direitos universais. E devemos apoiá-los em toda parte. Hoje estamos vendo a luta por esses direitos acontecendo no Oriente Médio e no Norte da África.
Vimos uma revolução nascer de um anseio por dignidade humana básica na Tunísia e vimos manifestantes pacíficas, homens e mulheres, jovens e velhos, cristão e muçulmanos, ocupando  praça Tahir e vimos o povo da Líbia se defendendo corajosamente contra um regime determinado a tratar com brutalidade seus próprios cidadãos. Em toda parte vimos jovens se erguendo. Uma nova geração exigindo o direito de determinar seu próprio futuro.
Desde o início deixamos claro que a mudança que buscam devem ser impulsionada pelo seu próprio povo. Mas para nossos dois países, para os EUA e para o Brasil – duas nações que passaram muitas gerações lutando para aperfeiçoar suas próprias democracias – os EUA e o Brasil sabem que o futuro de nosso mundo era determinado pelo seu povo. Ninguém pode dizer ao certo como essa mudança terminará. Mas eu sei que mudança não é algo que devemos temer.
Quando os jovens insistem que as correntes da História estão se movendo, a carga do passado pode ser apagada. Quando homens e mulheres exigem pacificamente seus direitos humanos, nossa humanidade em comum é acentuada. Onde quer que a luz da liberdade seja acesa, o mundo se torna um mais luminoso.
Esse é o exemplo do Brasil. Esse é o exemplo do Brasil. Brasil, um país que prova que uma ditadura pode se tornar uma próspera democracia. Brasil, um país que mostra que a democracia entrega liberdade e oportunidade a seu povo. Brasil, um país que mostra que um grito por mudanças vindo das ruas pode mudar uma cidade, mudar um país, mudar o mundo. Há décadas, foi aqui fora, na Praça da Cinelândia, o grito por mudança foi ouvido aqui, estudantes e artistas e políticos de todas as correntes ergueram faixas que diziam “abaixo a ditadura”, as pessoas no poder.
Suas aspirações democráticas não seriam realizadas ainda por muito tempo. Mas um dos jovens brasileiros envolvidos naquele movimento iria mudar para sempre a história deste país. A filha de um imigrante. Sua participação no movimento fez com que fosse presa e torturada por seu próprio governo. Ela sabe o que é viver sem seus direitos mais básicos pelos quais tantos lutam hoje. Mas ela também sabe o que é perseverar. Ela sabe o que é triunfar. Porque hoje é ela é a presidente de seu país, Dilma Rousseff.
Nossos dois países enfrentam muitos desafios. Na estrada à nossa frente, com certeza encontraremos muitos obstáculos. Mas no fim, é nossa história que nos dá esperança para um amanhã melhor. É o conhecimento de que os homens e mulheres que vieram antes de nós superaram desafios maiores que estes e que vivemos em lugares em que pessoas comuns fizeram coisas extraordinárias.
Esse senso de possibilidade e de otimismo que primeiro atraiu pioneiros a este mundo. E isso une nossas nações como parceiros nesse novo século. por isso acreditamos nas palavras de Paulo Coelho, um de seus mais famosos escritores, que "Com a força de nosso amor e nossa vontade podemos mudar nosso destino. E também o destino de muitos outros”.

Muito obrigado. E que Deus abençoe nossas duas nações.

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