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Receita de Ano Novo

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 10:01
 Terça-feira, 31 de dezembro



Quando os ponteiros do relógio se encontram, na noite de 31 de dezembro, seja no Norte ou no Sul, no Leste ou no Oeste, no Oriente ou no Ocidente, algo mágico acontece. Há em todos os corações uma explosão de alegria e felicidade indescritíveis. Quem dera que as únicas bombas que explodissem em nosso mundo fossem as da paz, da amizade, da concórdia, da boa união... Aí sim, teríamos, de verdade, um ano realmente novo. “Isso é utopia”, diria você. “Alimentar essa esperança é uma utopia, eu sei, mas o que seria do mundo sem as utopias?”, pergunto eu. Elas, no decorrer da história, podem não ter mudado o mundo, mas que mexeram com a estrutura dele, ah, isso mexeram.

Quando as luzes de fogos multicoloridos explodem nos céus, pelo mundo afora, anunciando a chegada de um novo ano, muitas são as esperanças de realizar os sonhos que não conseguimos realizar ano passado... São abraços, apertos de mãos. Às vezes nem ao menos conhecemos a pessoa que está ao nosso lado, mas fazemos questão de exibir o melhor de nossos sorrisos e dizer, em alto e bom som: FELIZ ANO NOVO!  Com aqueles que conhecemos e que nos são queridos, então, a emoção é dobrada.

Quando uma garrafa de champagne estoura na passagem de um ano para outro, ela deixa de ser apenas uma garrafa do milenar liquido borbulhante e passa a se revestir de um significado maior. O liquido que estoura e sai da garrafa com toda força, como se aquela prisão do vidro não fosse digna de contê-lo, é como os sonhos que cochilam dentro de nós, esperando apenas o momento em que abramos a garrafa de nossa esperança para que eles possam sair com força, vigor e vitalidade. O champagne, ao ser estourado na virada do ano, é um divisor de águas entre um ano que já faz parte de nosso passado e outro no qual depositamos todas as nossas expectativas. Talvez seja isso que anime todos os povos a comemorar com alegria contagiante esse momento singular: o fato de que o nosso combustível, aquilo que nos anima a caminhar e atravessar todo o ano, é a esperança no bem viver. Quem, em sã consciência, colocará o pé no ano vindouro, pensando o pior de si mesmo? A unanimidade quer alegria, paz, sucesso, prosperidade. É um instinto natural querer o bem para nós mesmos e para os que nos rodeiam.

E qual a receita para isso? Pular sete ondas? Comer caroços de romã em cima de uma cadeira? Vestir peças de roupas brancas na passagem do ano? São tantas as superstições que poderia passar todo esse texto enumerando-as. Você, certamente, tem as suas. É bom que as tenha, faz parte do show. Se isso lhe traz energias positivas, que as faça então. Mas não esqueça, porém, que a melhor receita de ano novo é deixar acordar o Ano Novo que cochila dentro de você desde sempre. Esse é o ingrediente especial que fará com que cresça aquele bolo da felicidade que você está preparando faz tempo.

Mas quem pode falar com mais propriedade que eu a respeito dessa eficiente receita não sou eu, é um mestre das palavras, o grande escritor brasileiro, poeta, contista e cronista, Carlos Drummond de Andrade. Drummond nasceu em Itabira do Mato Dentro, no Estado de Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902 e morreu no Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1987. Começou a carreira como colaborador do Diário de Minas, jornal que reunia em seus quadros, adeptos do iniciante movimento modernista mineiro. Drummond foi, seguramente, o poeta brasileiro mais influente de sua época ao abordar temas universais, como a vida, o homem e o mundo sob uma perspectiva filosófica. O escritor tem suas obras traduzidas para diversos idiomas.  

É com a Receita de Ano Novo, de Drummond, que estouro, agora, os fogos multicoloridos e o champagne com vocês e, de coração, lhes desejo um ano realmente novo. FELIZ ANO NOVO!

Que 2014 seja um ano pleno de realizações para todos nós!

Um grande abraço e até o ano que vem.


Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
Cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
Para você ganhar um ano
Não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
Mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
Novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
Novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
Mas com ele se come, se passeia,
Se ama, se compreende, se trabalha,
Você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
Não precisa expedir nem receber mensagens
(Planta recebe mensagens?
Passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
Para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
Pelas besteiras consumadas
Nem parvamente acreditar
Que por decreto da esperança
A partir de janeiro as coisas mudem
E seja tudo claridade, recompensa,
Justiça entre os homens e as nações,
Liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
Direitos respeitados, começando
Pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
Que mereça este nome,
Você, meu caro, tem de merecê-lo,
Tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
Mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
Cochila e espera desde sempre.


(Carlos Drummond de Andrade)

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