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Flagrantes do bem

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 03:20
Quarta-feira, 27 de novembro

Imagem: http://www.portaisgoverno.pe.gov.br/web/sds/exibir_noticia?groupId=124015&articleId=763107&templateId=176917


Solidariedade: O que significa essa palavra que tem sido alvo de tantos debates, de tantas discussões?  Será que ela que tem sido pratica na mesma proporção em que é discutida? Há espaço para ela no mundo consumista e capitalista, no qual não se pode perder um segundo de tempo? Vamos começar nossa conversa visitando o Aurélio, Novo Dicionário da Língua Portuguesa. O que nos diz ele?  “Sentido moral que vincula o indivíduo à vida, aos interesses e às responsabilidades dum grupo social, duma nação, ou da própria humanidade/ Relação de responsabilidade entre pessoas unidas por interesses comuns, de maneira que cada elemento do grupo se sinta na obrigação moral de apoiar o (os) outro (os)”.  O dicionário nos dá outros significados, entretanto, no momento, só nos interessa esses dois.

Definições bonitas essas que o Aurélio nos apresenta, não? Muito lindas mesmo! Porém, como essas palavras se traduzem na prática, no dia-a-dia? Olhamos o dicionário e definimos a teoria. Vamos olhar agora as câmeras instaladas pela Secretaria de Defesa Social, da cidade de Recife, Estado de Pernambuco, no Nordeste brasileiro. Talvez elas nos deem uma definição mais prática.

Segundo definição do próprio site da secretaria, o órgão tem como missão institucional “Promover a defesa dos direitos do cidadão e da normalidade social, através dos órgãos de segurança pública, integrando ações do governo”. Dentre as medidas adotadas pela SDS (Secretaria de Defesa Social), está a instalação de câmeras no centro do Recife, com o objetivo de flagrar a ação de delinquentes. Os profissionais da secretaria tiveram uma grande surpresa. As câmeras, realmente, flagraram a ação de bandidos, mas também surpreenderam ao mostra o flagrante do bem.  As imagens foram mostradas numa TV local, sendo a repórter, Beatriz Castro, a autora da matéria.

Uma das cenas acontece em dia de chuva, quando um pedestre é atropelado e permanece caído na avenida. Alguns pedestres logo se juntam e forma uma barreira humana, todos com guarda-chuva, protegendo-o da chuva e, ao mesmo tempo, de sofrer outro acidente.

Em outra, o deficiente visual caminha pela calçada quando se depara com faixas e cavaletes no meio do caminho. A calçada estava interditada devido a obras que estavam sendo realizadas no local. Um transeunte que passava por ali na ocasião oferece ajuda e o deficiente visual consegue prosseguir seu caminho sem maiores impecilhos.  Outros indivíduos com a mesma dificuldade surgem pelas ruas do centro e a atitude dos passantes é a mesma: prestarem ajuda.  Está difícil subir à calçada quando se está em uma cadeira de rodas? Não é preciso se desesperar, logo aparecem uma, duas, três pessoas prontas a ajudar. Um homem, aparentemente embriagado, está deitado na escadaria de uma igreja.  Uma mulher que por ali passava se dirige até ele. Tenta acordá-lo por várias vezes, o homem não acorda. A carteira que ele segurava nas mãos era um alvo fácil para os ladrões. Ela retira a carteira das mãos dele e a esconde debaixo das costas do homem. Assim ficaria mais difícil para um passante mal intencionado pegar a carteira.   Sport Clube do Recife e Santa Cruz Futebol Clube do Recife são dois times rivais da cidade. Pois bem, durante um passeio de bicicleta, um torcedor vestido com camisa do Sport leva um tombo.  Ia passando na ocasião outro torcedor vestindo a camisa do time adversário que, sem pensar duas vezes o homem corre para ajudar àquele que precisava ser ajudado. Está certo ele: adversários em campo, quando a bola está rolando. Na rua dois seres humanos, sujeitos às mesmas intempéries da vida.  Esses casos são apenas uma gota d’água em meio ao oceano de solidariedade mostrada pelo povo do Recife.

Os aparelhos de segurança que serviriam para capturar imagens de furtos, roubos e acidentes acabaram mostrando uma faceta que não era esperada por quem cuida da segurança pública e que está  acostumado a presenciar a violência dos grandes centros.  Em apenas dois meses, as equipes de observação, registraram cerca de 600 flagrantes do bem.  
Se fosse matemática, a solidariedade social seria uma conta de multiplicar. Ela cria uma reação em cadeia. Quando recebemos ajuda de alguém nos sentimos estimulados a devolver a boa ação. Sejamos, portanto, cada um de nós, um agente multiplicador da solidariedade nos pequenos gestos, nas pequenas ações, pois se não conseguirmos mudar o mundo, pelo conseguiremos modificar uma parte da realidade que nos cerca. E cada um fazendo um pouco, todos juntos terão feito muito. É como um feixe de varas. Junta não se pode quebra-las, enquanto que separadas qualquer um, e com pouco esforço, as quebra facilmente.

Para terminar, deixo para vossa reflexão uma fábula de Jean De La Fontaine:

***

O Velho e seus três filhos

A união faz a força. Quem diz não sou, mas sim o escravo frígio, que outrora escreveu o que abaixo transcrevo, e se alguma inserção acrescentei, não foi por querer tornar meu o que é dele somente. Essa vã pretensão teve Fedro, não eu, que só quis adaptar nossos costumes de hoje ao texto original. Vejamos o que fez um pai quis mostrar, aos filhos, que a união é um bem mesmo essencial.

Sentindo, a morte próxima, um velho chamou seus filhos: ­_ “Meus queridos meninos” _ Falou _ “vede o feixe de varas que tenho na mão? Tentai quebra-lo e haveis de ver que é esforço vão.”

O mais velho o tomou, tentou e desistiu.

_ “Outro mais forte que o tente.” _ O segundo sorriu, tomou do feixe, fez muita força, mas nada.

O caçula, por fim, também vê fracassada a sua tentativa. O feixe resistiu e nenhuma das varas rachou ou partiu.

_ “Vou mostra-vos, agora” _ diz o velho pai _ “como é fácil rachar estas varas. Olhai.”
Seria troça? Não, pois o pai os encara, depois põe-se a rachar o feixe, vara a vara, enquanto diz: _ “Se fordes juntos como um feixe, resistireis a tudo, depois que eu vos deixe.”

Enquanto o mal durou, ele nada disse; mas faltando bem pouco para que partisse, chamou-os e falou: _ “Chegou, enfim, o meu dia. Meu pedido atendei: vivei em harmonia. Dai-me a vossa palavra, é só que que me interessa.”

A chorar, os três filhos fazem-lhe a promessa. O pai os abençoa e morre nos seus braços. A herança que lhes deixa é cheia de embaraços: um credor os penhora, aparece um processo; tudo isso os três irmãos enfrentam com sucesso. Pena que durou pouco essa união tão rara. O que o sangue juntou, o interesse separa. Muita inveja e ambição os desunem de vez. Recorre-se a partilha e, contra todos três, se levantam protestos e contestações; sucedem-se querelas e condenações; as terras são perdidas para os confrontantes, os bens para os credores, e a riqueza de antes aos poucos se desfaz, até nada sobrar. Unidos pelo infortúnio, os três a lembrar da palavra que ao velho pai haviam dado outrora e de um feixe de varas que jogaram fora...
***
À quem interessar assistir a reportagem completa, tratada neste artigo, segue link para o site do Youtube:




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