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Apogeu, glórias e dramas: história dos teatros de Campinas - I parte

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 03:00
Segunda-feira, 28 de outubro  

Especial: História dos Teatros de Campinas

Teatro São Carlos

Imagem: http://teatraio.wordpress.com/2013/01/page/5/


Sua Excelência, O Teatro


Senhoras e senhores, antes de começarmos a conversar, permitam que eu me apresente e fale um pouco sobre mim. A humanidade acostumou-se a chamar-me de Teatro, um nome curto, porém bastante significativo. Estive presente na história do homem desde épocas primevas, quando a espécie humana realizava suas danças rituais e suas celebrações ainda no tempo das cavernas. O que eram elas senão o desejo de expressar emoções e sentimentos?

Os historiadores resolveram fixar o meu berço na antiga Grécia, por volta do século VI a.C. Segundo eles,  nasci em meio às festas em homenagem a Dionísio, deus do vinho e da fertilidade. Essas festas eram promovidas uma vez por ano pelos gregos, em plena primavera, e duravam dias seguidos. Eram um misto de rituais sagrados, procissões e recitais. Dizem que em uma dessas festas, um homem chamado Thespis teve a ideia de confeccionar uma máscara enfeitada com cachos de uva e resolveu colocá-la no próprio rosto. E em plena praça pública, adornado com o adereço, gritou bem alto: “Eu sou Dionísio”. A atuação dele foi perfeita, tornando-se moda a arte de emprestar o próprio corpo para que nele habite outros personagens, outras vidas, em forma de atuação.

Por que o fascínio que a humanidade sente por mim? Talvez se explique pelo fato de conseguir imitar a realidade e, ao mesmo tempo, criar mundos completamente diferentes dessa mesma realidade. Ou seria pelo fato conseguir exteriorizar, de forma lúdica, suas loucuras mais escondidas?


Campinas: Terra da arte


Por ser abrangente e atuante em muitas eras e lugares, ganhei espaço especial entre letrados e gente do povo como forma artística de expressão de tradições e sentimentos. Para não alongar demais a conversa, situarei os relatos aqui descritos entre os anos 1830 e 1965, na cidade de Campinas, interior do Estado de São Paulo, no Brasil.

Campinas, sempre foi desde o início, uma terra com vocação artística. “A natureza festiva do lugar, a doçura do clima e céu sempre azul cobrindo a terra prodigiosa na multiplicação das sementeiras, incitaram os poucos habitantes das Campinas de Mato Grosso aos cânticos naturais que provém da alegria e felicidade...

Corria o tempo, prosperando cada vez mais a nova comunidade. Mãos piedosas secam as taipas da capela rústica e, ao acender da primeira lâmpada votiva, consagrada a Padroeira, todos juntos, com fé ardente, entoavam um coro magnifico de louvor e graça, que vai para o alto entre nuvens perfumadas de incenso.

Tombam as matas, levantam-se os engenhos e os negros escravos, pelas noites de luar, animavam as senzalas com seus batuques e lundus.

Na casa-grande, mãe preta embala a rede onde sinhá-moça cochila, ouvindo suas cantigas nostálgicas de ritmos estranhos.

Forma-se o ambiente. E a música, pouco a pouco, vai se expandindo em diferentes manifestações”, afirma José De Castro Mendes, no livro Monografia Histórica do Município de Campinas.

Nos idos de 1830, os campineiros não possuíam um espaço físico digno de receber o nome de teatro, entretanto, nem por isso se privavam de entretenimento. O que havia era realizado em uma pequena sala à rua, hoje chamada, Barão de Jaguara. Depois essas apresentações passaram a acontecer num espaçoso prédio à Rua Bom Jesus, atualmente, Avenida Campos Sales, centro da cidade.

Em 1835, surgiu na população de Campinas o desejo de construir um teatro de verdade, mas, infelizmente, essa iniciativa não deu certo. Em 1.846, quando já florescia a cultura do café, surgiu na cidade uma associação formada por pessoas dispostas a lutar pela arte e cultura - Associação Campineira de Theatro São Carlos. Esse grupo foi a luta, arrecadou dinheiro e construiu a casa de espetáculos que recebeu o nome de Teatro São Carlos, em homenagem a vila que foi elevada a categoria de cidade em 1842.  O prédio ficou pronto em 1847, porém, somente foi inaugurado, com pompa e circunstância, em agosto de 1850.

Teatro São Carlos / Foto cedida pelo MIS (Museu da Imagem e do Som de Campinas)

Teatro São Carlos: Uma luz que brilha sobre a cultura campineira


Finalmente, os campineiros podiam bater no peito e dizer: “Nós temos um teatro!” E realmente estavam merecendo mesmo um espaço onde pudessem dar vazão ao seu anseio pela arte, pelo belo. Àquela época, Campinas já possuía uma posição de destaque em relação às demais cidades da região. As fazendas de café e de cana-de-açúcar lhe conferiam o status de grande centro agrícola e cultural, chegando mesmo a ser conhecida em todo o Brasil, como “Terra da Arte”. É bom que se diga, que era na Corte, situada no Rio de Janeiro, que o luxo e o esplendor brilhavam com intensidade. Por aquelas paragens desfilavam reis e rainhas, condes e condessas, duques e duquesas. Era compreensível que recebesse as melhores companhias e os melhores espetáculos do mundo. Campinas era tão bem conceituada em matéria de arte e cultura que, depois da Corte, era a terra mais procurada pelas melhores companhias do mundo. Primeiro eles se apresentavam em Campinas... Depois iam à São Paulo.

Como vocês podem perceber, nasci por essas bandas em berço de ouro. Era eu, Teatro, o centro da atividade cultural da cidade. Sentia-me todo orgulhoso em ser o foco das atenções. Pelas luzes da minha ribalta passou muita gente de fama internacional, muitos artistas talentosos. Vivi muitos dias de glórias com as temporadas líricas, operetas, dramas, comédias e zarzuelas – um gênero lírico-dramático que mistura cenas faladas, com cenas cantadas e dança. Apesar de todo o glamour que me dominava a alma, meu corpo físico, digo, minhas instalações, eram muito precárias. Para vocês terem uma ideia, até 1.875, não havia cadeiras no pavimento superior, onde ficavam os camarotes. Quem quisesse assistir as peças, confortavelmente sentado, tinha que trazer cadeiras de casa. A iluminação era também precária, obrigava trazer-se um “bico de luz” (lampião a gás) de casa.

Era comum ver empregados passando com cadeiras empilhadas na cabeça, outros levando o lampião de querosene, tudo isso para um melhor conforto dos patrões. Havia ainda o hábito de se levar comida às minhas dependências. Os ricos levavam empadas, pasteis, um saboroso cuscuz, ou até virado de frango. Os menos abastados... Bem, esses levavam paçoca com banana e já estava de bom tamanho.

Os bancos que ficavam na plateia eram de madeira e bastante desconfortáveis. Não causavam boa impressão. Em 1875, finalmente, recebi iluminação a gás e, com isso, fiquei mais gracioso. Nesse mesmo ano, foi inaugurada a Companhia Férrea Mogiana, fato que possibilitou aumento no transporte de pessoas e de cargas. Além da iluminação a gás, passei por reformas internas e externas. Recebi nova fachada, inspirada em linhas clássicas, ficando ainda mais charmoso. Foram feitas também reformas nos mobiliários e nas dependências da ribalta. E foi assim... Mais de vinte anos depois de ser construído me sentia renovado. Entretanto, muito em breve sentiria necessidade de novas reformas.

Em fins do século XIX, o ciclo do café vivia seu apogeu e, com o crescimento econômico, veio o crescimento populacional. Minhas dependências ficaram pequenas para a quantidade de pessoas que acorriam aos espetáculos. Era necessário que se construísse uma casa de espetáculos maior e mais confortável. Apresentaram então, um projeto para a construção de um novo teatro. Um engenheiro experiente, Francisco de Paula Ramos de Azevedo, popularmente conhecido por Ramos de Azevedo, ficou encarregado do projeto. No fim, a Câmara Municipal não aprovou minha demolição. A solução encontrada foi fazer mais uma restauração. E assim, na penúltima década de 1.800, recebia novas reformas. Apesar de todas as dificuldades pelas quais passei, não posso reclamar de nada. Recebi muita gente famosa em meu palco. Até a célebre atriz dramática francesa, Sarah Bernadht, atuou sob as luzes da minha ribalta, interpretando um de seus papéis mais marcantes na peça A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas. Apesar do elevado preço dos ingressos, um público numeroso assistiu ao magnífico espetáculo.

Teatro São Carlos / Foto cedida pelo MIS (Museu da Imagem e do Som de Campinas)


Tempos difícieis e ato final do São Carlos



Em fins de 1800 e início de 1900, uma grave epidemia de febre amarela se abateu sobre a cidade. A situação se mostrava tão grave que, apenas entre os meses de março e abril, do ano de 1889, a epidemia levou a óbito 1200 cidadãos.  Muita gente morreu vítima da grave doença. Com medo da doença, milhares de pessoas deixaram a cidade em direção a São Paulo, inclusive, muitos médicos. Devo citar em relação a esse episódio, o nome do Dr. Adriano Júlio de Barros, que permaneceu na cidade cuidando dos doentes, cumprindo fielmente o seu juramento emitido na ocasião do recebimento do diploma, ao termino do curso de Medicina. Diante desse quadro, a economia decaiu. Sofri muito vendo sofrer pessoas que me amavam e a quem eu também amava demais. Tive baixas nas bilheterias e, consequentemente, prejuízos financeiros. Somente por volta de 1891 é que consegui por as contas em ordem.

Em meio a tudo isso, surgiu uma novidade que foi capaz de ofuscar o meu brilho: a industria cinematográfica. A invenção dos irmãos Lumière em 1895 chegou a Campinas no inicio de 1900. E chegou com força irresistível e altamente sedutora, desviando a atenção das luzes da ribalta para as telas do cinema. Diz o ditado popular que “Se não pode com o inimigo, junte-se a ele”.  Foi exatamente o que fiz. Durante alguns anos servi como casa cinematográfica. Para não ficar no prejuízo, também abri minhas portas para bailes, festas de formatura, carnavais, banquetes e outras atividades.

Apesar de todo esse cenário que se apresentava ante meus olhos e aos olhos de toda a sociedade campineira, aquele espírito ávido por cultura não havia desaparecido. Campinas ainda acalentava o sonho de demolir o Teatro São Carlos e construir outro mais moderno e mais elegante. A cidade havia crescido bastante e, eu mesmo, já me considerava obsoleto e fora de moda. Não me sentia mais a altura das tradições artísticas da cidade. O cinema bem que tentara, mas não conseguira apagar o meu brilho: apesar do advento da sétima arte, eu continuava a receber bons artistas e grandes companhias.


E assim funcionei, Teatro São Carlos, de 1850 a 1922. Nesse ano, finalmente, um prefeito atendeu o clamor de Campinas por um teatro mais moderno. Em 1922, o prefeito Rafael de Andrade Duarte, homem amante das letras e das artes, autorizou minha demolição. Lagrimas escorriam pelos meus olhos, doía-me o coração a cada viga e parede derrubada, apesar disso não havia tristeza em minha alma: via, através dos véus do futuro, surgir em minha frente um teatro magnífico e cheio de esplendor. Sabia que, dos escombros, renasceria, glorioso... O sacrifício valia a pena...

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Caldeirão de sons: Uma questão de identidade nacional

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:42
Sexta-feira, 25 de outubro de 2013


Coisa mais bonita é você, assim, justinho você, eu juro. Eu não sei por que você é mais bonita que é a flor. Quem dera que a primavera da flor tivesse todo esse aroma de beleza...” Assim começam os versos da maravilhosa canção, Coisa Mais Linda, da autoria de Vinícius de Moraes e Carlos Lyra. Coisa mais bonita, digo eu, em se tratando de música genuinamente brasileira. Uma música rica de sons, de melodias e harmonias. Uma mistura tão grande de ritmos e sons, que deixa inebriado, que faz sonhar, viajar pela terra dos sentidos e da emoção aquele que a ouve. Quem não sente o corpo vibrar com a batida contagiante do samba? Quem não se enternece com as melodias suaves da bossa nova? O texto a seguir é uma homenagem às três raças: branca, negra e índia, que ajudaram a formar esse caldeirão de sons que é a nossa música brasileira.
Sentado na plataforma dos sons, livro de Jorge Amado no colo, mochila de lado, espero... Espero o trem musical. Diante de mim desfilam bandolins... Cavaquinhos... Berimbaus... Violões... Violas... Sanfonas... E uma infinidade de outros instrumentos. Fecho os olhos e deixo a sonoridade me envolver. Atravessando campos e cidades, montanhas e planícies, alegre, barulhento, festivo, apitando dós, rés, mis, fás e demais notas, surge o trem. Repleto de música com cara e jeito de Brasil. País amado, pátria minha, berço dos meus sonhos. Embarco nessa viagem alucinante e me extasio com a diversidade de ritmos que formam a nossa música. Painel de sons que convergem para uma profunda identidade nacional. Sempre foi assim? Essa integração harmoniosa? Não. Nem sempre. Esse tecido artístico foi sendo construído aos poucos.
Nos tempos do Brasil colônia existia, por força das circunstâncias, o que hoje chamamos de “panelinha”. Havia uma música dos índios, uma música dos negros e uma música dos portugueses. Não era, ainda, música com alma brasileira. “Coisas nossas, muito nossas”, como cantava Noel Rosa, o Poeta da Vila. Cada qual fabricava sua própria cultura. Essa gostosa mistura que hoje saboreamos, principiou a ocorrer em fins do século XIX.


Imagem: http://www.elitemusical.com.br/blog/instrumentos-indigenas/302/


A música indígena possuía um forte caráter religioso. Habitantes nativos, integrados a natureza, os índios cantavam e invocavam suas entidades sobrenaturais. Faziam cantos e danças os mais variados: da caça, da pesca, da chuva. Possuía a música entre as tribos indígenas um alto valor. “Dado esse valor ritual da música, as tribos basílicas cercavam de grande consideração os cantores de ambos os sexos. Locomoviam-se entre eles sem cuidado, mesmo por entre os inimigos e, se aprisionados na guerra, os vencedores não os sacrificavam nas cerimônias de antropofagia, gozando os seus filhos da mesma imunidade”, conta Oneyda Alvarenga, no livro Música Popular Brasileira. Desse valor dado a música pelos indígenas se valeram amplamente os padres Jesuítas no processo de catequese.
Os portugueses, quando aqui desembarcaram na condição de dominadores, impondo suas tradições e costumes trouxeram em suas bagagens belos textos literários, verdadeiras pérolas da língua portuguesa. Trouxeram igualmente seus instrumentos de corda e de sopro. Tais como; violões, flautas, violinos, pianos, dentre outros.


Imagem: http://www.ruadireita.com/instrumentos-musicais/info/instrumentos-musicais-de-membrana-na-africa/#axzz2ilIk3nxV


À matriz africana deve a nossa música grande contribuição. Cada povo africano que aqui aportou, transportado como mercadoria nos porões dos navios negreiros, trouxe sua parcela de contribuição. Vieram com seus atabaques, tambores, chocalhos e uma diversidade fabulosa de instrumentos de percussão. Com sua criatividade fizeram o que um “chef” faz na cozinha: misturaram tudo. Fizeram combinações de voz e percussão, usaram, no fazer música, a diversidade de ritmos que tinham a disposição, pondo em cada experiência um pouco desse, um bocado daquele. Tudo isso sem perder a harmonia, o tempo, a graça, o encanto.
A musicalidade dos negros era coisa tão intrínseca a raça que eles cantavam mesmo em meio a penosa e extenuante jornada de trabalho nos canaviais. Cantavam nas casas dos senhores enquanto realizavam tarefas domésticas. O canto, na verdade, acabava imprimindo certo ritmo de trabalho para suas muitas tarefas. Vê-se que o dito popular “quem canta seus males espanta” vem de muito longe. Imagino como o canto e a batucada desse povo trouxe vida e alegria a “terra Brasilis”. Era nas festas públicas, geralmente festas ligadas ao catolicismo, que os negros tinham melhor oportunidade de expressar sua música, seu batuque, sua dança. Divertiam-se a valer. Esses momentos eram praticamente seus únicos momentos de lazer. Da invocação aos Orixás o povo africano deixou legados que ainda hoje se fazem sentir nos afro-sambas que tão fartamente se fazem presentes em nossa cultura musical e nas religiões afros.

Voltando dessa viajem musical, sossegado no banco do meu trem, que bem poderia ser um trenzinho caipira guiado por Villa-Lobos, penso em como a música brasileira, de uma forma geral, é tão falada, comentada e admirada também no exterior. Pode-se dizer que a nossa música tornou-se um produto de exportação. Vários de nossos ritmos já ganharam o mundo, tais como: o samba, bossa-nova, o axé, o batuque do Olodum e tantos outros. Esse fascínio dos gringos pela nossa música talvez seja por ela agregar vários elementos, basicamente, das três etnias que formam a nação brasileira. Nós brasileiros então, nem se fala. Amamos o som de boa qualidade que se produz nesse pedaço de chão verde, amarelo, azul e branco. Enquanto em pensamento faço essas considerações uma certeza me vem à mente: foi dessa mistura de raças, cada qual colocando nesse caldeirão um pouco de seu tempero peculiar, que surgiu essa farta variedade de ritmos e sons que enriquecem e torna tão bela e atrativa a nossa música brasileira.

(Texto de minha autoria, publicado originalmente no blog www.rec2010.blogspot.com, em 26 de junho de 2010)


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Uma aula de cidadania

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:17
Quarta-feira, 23 de outubro

Imagem: G:\Eleições Cidadania\Blog Junior Mattos Eleitora de 102 anos dá exemplo de cidadania comparecendo ao recadastramento em Natal.mht


102 anos! Para quem consegue chegar a essa idade, é hora de sentar em uma cadeira de balanço, na varanda de casa, e ficar vendo a vida passar... Relembrando os momentos vividos ao longo da vida... Alegrando-se por uns e lamentando-se por outros. Funciona assim para a maioria das pessoas nessa idade. Mas não para norte-rio-grandense, Maria Francisca da Conceição. Logo que soube que em Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte, estava sendo realizado o recadastramento biométrico, pediu aos dois filhos que a acompanhassem até lá, para que também pudesse cumprir seus deveres de cidadã brasileira. Ao adentrar no ambiente, causou uma grande surpresa aos eleitores que por lá estavam, com a mesma finalidade, e aos próprios servidores do TRE (Tribunal Regional Eleitoral).

_ A senhora não precisa mais fazer esse recadastramento. A partir de 70 anos o eleitor não é mais obrigado a votar. Explicou Karla Ferreira, uma das funcionárias do TRE.

Quem disse que conseguiram fazer a anciã desistir da ideia. Como todos os outros eleitores, e com muita lucidez, ela realizou o cadastramento biométrico com sucesso. Nascida em 1911, Maria Francisca da Conceição, deu um belo exemplo de cidadania. Mostrando que ainda está em plenas condições de exercer os direitos civis, políticos e sociais. Para esta aula ficar ainda mais completa e bela, resta aos candidatos, nos quais a anciã irá votar, a contrapartida de que os direitos que ela tem, também sejam postos em prática. Parabéns a dona Maria Francisca, e um abraço a todos os potiguares.


Apesar do grande número de eleitores brasileiros, em torno de 141 milhões de pessoas, as eleições no Brasil são uma referência mundial pela rapidez e eficiência com que são realizadas. Isso se deve ao sistema de votação eletrônico implantada gradativamente no país desde o ano de 1986, quando a Justiça Eleitoral fez o recadastramento de, aproximadamente, 70 milhões de eleitores. Nas eleições de 1996, começou a votação através de urnas eletrônicas, inicialmente, em 57 cidades do país. No ano 2.000 a votação eletrônica foi implantada na totalidade do território brasileiro. Todo esse processo de informatização na Justiça Eleitoral é fruto de sérios estudos e ações que objetivam a segurança e a transparência de todo o processo eleitoral. Isso fortaleceu a democracia do país, a prova é que, desde que esse sistema foi implantado no país, não houve notícias de fraudes em eleições. Atualmente, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) promove também, de modo gradativo, o recadastramento biométrico. – sistema no qual o processo de identificação dos eleitores ocorre pelo modo digital.

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Tesouros no fundo do Atlântico

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 03:07
Segunda-feira, 21 de outubro


Imagem: http://netmarinha.uol.com.br/page/4/

Uma nuvem de preocupação, causada pelo leilão do Campo de Libra, pairava sobre o mundo dos negócios no Brasil. Depois de quarenta minutos após aberto o pregão, enfim, o alívio: A Petrobrás, liderando um consórcio, juntamente com mais quatro empresas, venceu o leilão. O consórcio é formado, além da brasileira Petrobrás, pelas empresas estatais chinesas CNPC e CNOOC, a anglo-holandesa Shell e a francesa Total e foi realizado sob o regime de Partilha, no qual parte do Petróleo extraído fica com a União. O prazo para apresentação das propostas era de 3 minutos, entretanto, só um envelope foi apresentado. O vencedor era quem, a partir do início da produção, oferecesse a maior quantidade de petróleo para o governo. Em não havendo concorrência, a oferta saiu pelo lance mínimo. Apesar de ser um leilão sem concorrência, o governo considerou o leilão um sucesso, afinal de contas, é uma excelente oportunidade de negócios, além do mais, as demais empresas participantes do consórcio são empresas experientes na área e podem dar uma grande contribuição à exploração do pré-sal. Outro motivo para o governo comemorar é referente ao bônus que o Consórcio vencedor terá que pagar ao governo brasileiro  mais ou menos, dentro de um mês: 15 bilhões de reais. É a primeira vez que um bônus desse tamanho foi pago em uma rodada de licitações realizadas pela Agência Nacional de Petróleo. 


Segundo afirmou a Presidente, Dilma Roussef, em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão: "Nos próximos 35 anos, Libra, pagará os seguintes valores ao Estado Brasileiro: Primeiro; R$ 270 bilhões em royalties, segundo; R$ 736 bilhões a título de excedente em óleo, sob o regime de partilha, terceiro; R$ 15 bilhões pagos como bônus pagos pela assinatura do contrato. Isso alcança um fabuloso montante de mais de 1 trilhão de reais. Por força da lei que aprovamos no Congresso Nacional, grande parte desses recursos será aplicada em educação e saúde... Começamos a transformar uma riqueza finita, que é o petróleo, em um tesouro indestrutível, que é a educação de alta qualidade. Estamos transformando o pré-sal no nosso passaporte para uma sociedade futura, mais justa e com melhor distribuição de renda". Digníssima, Senhora Presidente, nós brasileiros, não esqueceremos essas promessas e cobraremos transparência no uso desses recursos.

A fatia do bolo da exploração ficou assim dividida: CNPC (10%), CNOOC (10%), Shell (20%), Total (20%). A estatal brasileira ficou com 40% de participação no negócio. Onze empresas de nove países participaram da licitação, porém, somente um consórcio apresentou proposta.  A validade do contrato de exploração é de 35 anos, sendo que 4 anos são voltadas à exploração dos recursos naturais e os outros restantes, ao desenvolvimento e à produção. Além do Petróleo, o consórcio vencedor também terá direito a explorar o gás natural existente na camada do pré-sal da região, nada mais, nada menos, que 120 bilhões de metros cúbicos do produto.


Para garantir a segurança do evento, tropas do exército foram deslocadas para as proximidades do Hotel Windsor Barra, no Posto 4 da Avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro.  Cerca de mil soldados do exército rodeavam o hotel. Apesar da presença das tropas do exército, o leilão não se deu forma tranquila, ao contrário, pela manhã, do lado de fora, ocorreram violentos protestos. O carro de reportagem de uma equipe de jornalismo foi incendiado e dois jornalistas sofreram agressões físicas.  – Um fato lamentável que caracteriza um atentado a liberdade de imprensa - Os bombeiros agiram rápido e conseguiram controlar o  princípio de incêndio.  Eram cerca de 300 manifestantes, a maioria deles, funcionários do setor petrolífero e militantes de partidos de esquerda e, como em outros protestos, a polícia precisou usar seu arsenal de balas de borracha, spray de pimenta e gás lacrimogênio para dispersar os manifestantes.  Antes disso, os movimentos sociais já haviam tentado paralisar o leilão através de ações judiciais. Foram ajuizadas vinte e seis ações, sendo que 18 foram rejeitas e oito ainda aguardam decisão, sendo bastante improvável que venha a ser aceitas.

O pré-sal, área de reserva petrolífera, fica debaixo de profunda camada de sal e forma uma das várias camadas rochosas do solo submarino.  Está localizada acerca de 7 mil metros de profundidade e abrange uma área de cerca de 800 quilômetros ao longo de boa parte do litoral brasileiro. A área mais cobiçada dessas descobertas estende-se do norte da Bacia de Campos – situada na costa norte do estado do Rio de Janeiro, ao sul da Bacia de Santos – localizada no litoral sul do litoral fluminense - e do Espírito Santo até Santa Catarina. O petróleo contido nesses campos está debaixo de dois quilômetros de água, mais dois quilômetros de rocha e outros dois quilômetros da camada de pré-sal. É uma das maiores reservas de petróleo descobertas no século XXI.  Estima-se que contenham cerca de 12 a 14 bilhões de barris. Antes da descoberta do pré-sal as reservas brasileiras eram de 14, 2 bilhões de barris, o que nos garantia uns 15 anos de autossuficiência. Juntando o que já tínhamos com as descobertas do pré-sal, as reservas brasileiras saltaram de 14,2 bilhões de barris, para 74, 2 bilhões, o que nos garante uma autossuficiência de, pelo menos, 60 anos, se a exploração não se der de forma acelerada.

A descoberta de campos petrolíferos tão ricos é uma grande oportunidade de desenvolvimento da indústria brasileira em seus mais diversos setores e pode ocasionar um revigoramento tecnológico do processo industrial.


O Campo de Libra, leiloado hoje, a 180 km da Bacia de Santos, é apenas uma pequena parte de todo esse tesouro. Ainda tem muito ouro negro para vir à tona. 

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O centenário de um poeta

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 15:00
Sábado, 19 de outubro


Imagem: http://www.revistabula.com/369-a-ultima-entrevista-de-vinicius-de-moraes/


Se vivo estivesse, Marcus Vinicius de Moraes, ou simplesmente, Vinicius de Moraes, faria 100 anos.  Vinicius nasceu no dia 19 de outubro de 1913, na “Cidade  de céu sempre azulado , teu sol é namorado da noite de luar. Cidade padrão de beleza foi a natureza que te protegeu. Cidade de amores sem pecado, foi juntinho ao Corcovado que Jesus Cristo nasceu”, isso é Rio de Janeiro, como diria outro grande poeta, Noel Rosa. Vinicius de Moraes, foi um grande poeta e compositor. É autor, junto com Tom Jobim, de Garota de Ipanema, uma das músicas mais famosas em todo o mundo. Além de brilhar no campo da literatura e da música, o poeta, também foi diplomata, dramaturgo e jornalista.

Em 27 de fevereiro de 1973, a Bahia recebia o show Poeta, Moça e Violão, com Vinicius de Moraes, Clara Nunes e Toquinho. No belíssimo show, Vinicius declama suas poesias e relembra fatos marcantes de sua vida. Nas faixas sonoras, Toquinho mostra todo o seu talento ao violão. As canções são entoadas, ora por ele, ora pela adorável e doce voz de Clara Nunes, ora os dois se juntam em dueto, enchendo o show ainda mais de graça e beleza.

Em Maio de 1991, a Collector’s Editora Ltda reuniu esse material e lançou um album/fascículo triplo, em vinil, sob o título: A História dos Shows Inesquecíveis – Poeta, Moça e Violão (Vinicius, Calra Nunes e Toquinho). O texto a seguir é esse extraído desse material. É meu jeito de fazer uma homenagem a esse grande poeta e compositor, Vinicius de Moraes. Ah, perdão por começar o texto de modo convencional, “Se vivo estivesse...”, Vinicius não morreu, está presente em suas obras e em suas composições, no coração dos brasileiros e de milhões de pessoas mundo afora.

Ao fundo, ouvem-se as palmas da platéia. Toquinho dedilha o violão e começa a cantar o poema O Poeta Aprendiz, da autoria de Vinicius de Moreas e musicado pelo próprio Toquinho.


O Poeta Aprendiz


Ele era um menino
Valente e caprino
Um pequeno infante
Sadio e grimpante
Anos tinha dez
E asas nos pés
Com chumbo e bodoque
Era plic e ploc
O olhar verde gaio
Parecia um raio
Para tangerina
Pião ou menina
Seu corpo moreno
Vivia correndo
Pulava no escuro
Não importa que muro
Saltava de anjo
Melhor que marmanjo
E dava o mergulho
Sem fazer barulho
Em bola de meia
Jogando de meia-direita ou de ponta
Passava da conta
De tanto driblar

Amava era amar
Amava Leonor
Menina de cor
Amava as criadas
Varrendo as escadas
Amava as gurias
Da rua, vadias
Amava suas primas
Com beijos e rimas
Amava suas tias
De peles macias
Amava as artistas
Das cine-revistas
Amava a mulher
A mais não poder
Por isso fazia
Seu grão de poesia
E achava bonita
A palavra escrita
Por isso sofria
De melancolia
Sonhando o poeta
Que quem sabe um dia
Poderia ser.


VINICIUS:  Esse menino fui eu, na Ilha do Governador, numa ocasião em que, por revezes financeiro, meu pai que era homem bastante abastado, teve que mudar de uma casa grande, uma casa rica, para uma pequena casa, na Praia de Bogotá, onde esse menino que fui eu, descobriu, praticamente, tudo o que sabe hoje. Um menino livre, que corria, que nadava um mundo de água, que pescava, que brigava, que fez os primeiros amigos entre os filhos dos pescadores e suas primeiras namoradinhas entre as filhas dos pescadores. Que conheceu o amor e o sexo no mar. E para quem, até hoje, a liberdade é o único clima compatível com a dignidade humana. Esse Poeta Aprendiz, esse poema meu que Toquinho musicou, e que vocês acabaram de ouvir, nasceu esse homem que um dia, em Los Angeles, depois de cinco anos de ausência de sua pátria, teve essa tremenda necessidade de revê-la e que, ao desembarcar nas docas de Santos...

Clara Nunes começa a cantar os versos... Saudade, torrente de paixão... de  Canção do Amor. Vinicius continua a falar, enquanto Clara, ao fundo,  canta suavemente a melodia.

... Recebeu o primeiro impacto, através dessa canção, esse samba cantado por Elizeth Cardoso e, que os autofalantes de uma casa ali perto, traziam. Então aquele sentimento que tive da minha volta ao Brasil, ficou até hoje, indissoluvelmente, ligado a esse samba que minha querida amiga, Elizeth Cardoso, cantava na época e foi seu primeiro grande sucesso... Então eu pensei naquele americano que pouco antes de minha partida, um americano muito rico, que estava transando umas coisas com o Brasil e que eu tentei ajudá-lo em meu Consulado, numa festa em que ele deu, ele dizia: Não entendo como é que você, podendo usufruir dos previlégios da civilização do dolar, de tudo que você tem por aqui, você quer voltar para um país, não dizia propriamente um país subdesnvolvido, mas estava subentendido o que ele queria me dizer... Ele não entendia isso... Como é que eu podia querer sair de Los Angeles e querer voltar para o Brasil, para o Rio de Janeiro... E então, eu fiz para esse homem, esse Mr. Buster, um poema que diz o seguinte:


Olhe Aqui, Mr. Buster

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia.

Está muito certo que em ambas as residências
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra daCoréia. 

Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.

Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas "estações" do ano.

Está tudo muito certo, Mr. Buster - o Sr. ainda acabará governador do seu estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo





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Educação em Chamas

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:05
Quinta-feira, 17 de outubro


“Mais uma vez os homens, desafiados pela dramaticidade da hora atual, se propõem a si mesmos como problema. Descobrem que pouco sabem de si, de seu “posto no cosmos”, e se inquietam por saber mais. Estará, aliás, no reconhecimento de seu pouco saber de si uma das razões desta procura. Ao se instalarem na quase, senão trágica descoberta do seu pouco saber de si, se fazem problemas a eles mesmos. Indagam. Respondem, e suas respostas os levam a novas perguntas”.
(Paulo Freire – Pedagogia do Oprimido)


Imagem: - http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2013-10-15/manifestantes-e-black-blocs-convocam-para-protesto-do-dia-dos-professores.html


É noite. Pessoas correm desesperadas por todos os lados. A confusão é geral. Bombas de gás lacrimogêneo caem na Cinelândia, centro do Rio, e a irritante fumaça que delas emana é muito forte e se espalha por toda praça.  O bando de mascarados parte feroz para cima da polícia. Fogos de artifício e pedras são jogados em direção aos policiais. Estes se defendem como podem: escudos protetores, balas de borracha e gás lacrimogêneo. Um dos policiais é atingido na testa por uma dessas pedras atiradas pelos vândalos, que utilizam placas de metal como escudos. Um grupo quebra orelhões e banheiros químicos e joga-os na rua e, em seguida, põe fogo nos entulhos. As chamas formam uma espécie de barricada. Em outro ponto da praça um ônibus e um carro da polícia são incendiados. Perto do Teatro Municipal, os grupos se enfrentam de maneira mais contundente. Os policiais recuam e dão tiros para o alto tentando dispersar o bando furioso. O grupo de baderneiros se mostra incansável e agressivo. Em sua insanidade, destilam seu ódio pichando o prédio da Câmara Municipal.

Esse relato parece ficção saída das mais violentas páginas de guerra. Infelizmente, é real e aconteceu na terça-feira, 15 de outubro, quando no Brasil comemora-se o Dia do Professor. A baderna e a quebradeira foram promovidas pelos inimigos dos atos democráticos e de direito. Eles formam um grupo de indivíduos mascarados que se autodenomina Black Blocks e se infiltram em meio aos protestos pacíficos com uma única finalidade: promover a destruição do patrimônio público. Ao final do confronto, os policiais conseguiram prender 64 pessoas.

Antes da batalha insana, havia ocorrido uma manifestação pacífica dos professores das redes municipal e estadual de educação que terminou uns quarenta minutos antes de toda essa confusão. Os professores fizeram questão de deixar bem claro o horário em que o protesto promovido por eles terminou, para que ninguém os confundisse com os vândalos. Os professores da capital fluminense estão em greve desde o dia 08 de agosto e reivindicavam aumento de salário, melhores condições de trabalho e autonomia pedagógica. Estão em luta por uma escola pública de qualidade. Uma nobre batalha, há que se ressaltar.


Imagem;http://noticias.r7.com/rio-de-janeiro/fotos/professores-municipais-do-rio-ameacam-retomar-greve-e-lotam-cinelandia-em-protesto-17092013#!/foto/1


Em setembro, a Justiça determinou a suspensão da greve, porém os profissionais da educação foram irredutíveis: após reunirem-se em Assembleia, decidiram pela manutenção do movimento grevista. Os professores agem como bravos guerreiros e são se deixam intimidar. Já fizeram seus protestos em frente à Secretaria de Educação, já ocuparam o plenário da Câmara de Vereadores, de onde foram expulsos pela polícia à base de violência. A polícia agiu em relação a eles como se fossem vândalos, com cassetetes, balas de borracha e gás lacrimogêneo. Em relação a esse último, era tão forte a intensidade e a quantidade que alguns grevistas, jornalistas que cobriam o fato e, até mesmo policiais, passaram mal. Prefeitura e governo já ameaçaram cortar o ponto dos grevistas. As negociações continuam e as partes ainda não chegaram a um acordo.

Essa nobre batalha, com a finalidade de melhorar o sistema educacional não deve ser entendida como um caso regional: é uma luta em nível nacional, uma vez que as reivindicações daquela classe profissional são sentidas, por demais, em todo o sistema educacional brasileiro, de norte a sul, de leste a oeste. Nem muito menos deve ser entendida apenas como uma luta apenas dos professores: essa luta é uma luta de cada um de nós.

Enquanto nação, poderíamos ser uma potencia no cenário mundial. Vejamos: a situação climática nos privilegia: não estamos sujeitos, pelo menos até agora, a furacões, tufões e maremotos. A nossa terra é fértil e a lavoura é abundante, para nascer, basta plantar. Temos ricos campos de petróleo. Porque então as coisas não funcionam? Porque estamos ainda engatinhando em direção ao posto de nação desenvolvida?

Simplesmente, devido a dois fatores básicos: a enorme desigualdade social que reina absoluta me nosso país e as gritantes deficiências em nosso sistema educacional. São a esses dois fatores básicos, que se acham interligados, uma das causas, talvez a causa principal, de estarmos patinando no campo do desenvolvimento econômico e social.

Falo aqui do segundo fator. As nossas deficiências em matéria de educação atingem todos os níveis: do ensino básico ao ensino superior, da escola pública à escola privada, uma vez que, uma maça estragada, estraga todas as outras maçãs do cesto. É fato que, no Brasil, se esquecem de que para se ter um engenheiros, médicos, empresários, pesquisadores e tantos outros profissionais eficientes, é preciso que, antes eles passem pelos bancos das escolas e pela orientação dos professores.

O conhecimento não acontece como em Aladim e a Lâmpada Maravilhosa: esfregou as mãos e o gênio aparece.  O conhecimento precisa ser buscado, transmitido, provocado.
O que vemos então? Vemos esses profissionais da educação, tão imprescindíveis para se tenha uma nação desenvolvida em suas bases econômicas e sociais, não serem valorizados como deveriam. Os bravos professores “se viram nos trinta”, como diz o quadro do programa dominical, Domingão do Faustão, exibido pela Rede Globo de Televisão. Por causa dos baixos salários, muitos deles têm que dar aulas em duas ou três escolas diferentes a fim de complementar o orçamento. Com uma correria dessas, não há guerreiro valente que não se canse. Uma forma de expressar esse cansaço, e os aborrecimentos que dele advém, é fazer greve.

Passam tarefas de casa para os alunos, mas quem acaba tendo mais trabalho em casa são eles, os mestres. Fora do horário na escola, tem que corrigir provas, fazer planejamento e outras atividades afins. Muitas vezes, o bônus dessas tarefas não vem junto com o salário no fim do mês.

Imagem: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/fotos/2013/10/fotos-protesto-reune-milhares-no-rio-de-janeiro.html


Não sendo suficiente todo esse quadro, acresça-se a ele, o fator da violência nas escolas.  Fico pasmo quando vejo na TV ou leio nos jornais, reportagens mostrando professores sendo agredidos verbalmente ou fisicamente pelos alunos. Estes, muitas vezes, se comportando de modo bruto, sem que os educadores consigam fazer coisa alguma. Isso provoca preocupação a mim, que apenas recebo a informação, imaginem em quem exerce atividades profissionais nesses ambientes todos os dias. Deve ser uma situação de grande estresse. Esse fato da violência nas escolas é uma coisa que acontece em nível mundial. Uma pergunta a se fazer nesses casos é: O que está acontecendo com nossos jovens e crianças.

Há em tramitação no Congresso Nacional, um Projeto de Lei propondo que sejam destinados a educação, recursos provenientes dos royalties do petróleo. É uma boa iniciativa. Qualquer dinheiro que entre em caixa é bem vindo. Mas não criemos ilusões e expectativas em relação a ele. Pois quando esses rendimentos poderiam chegar aos cofres do setor educacional? Daqui há cinco, dez anos? Sabemos que o preço do petróleo é tão inconstante quando as ondas do mar. E se o preço do barril de petróleo cai? Não seria hora de se pensar para a educação uma política e recursos mais sólidos e duradouros?
Para terminar trago aos caros leitores, trecho do artigo assinado por Otaviano Helene e Ildo Luís Sauer, intitulado, Educação e Petróleo, publicado na edição especial da revista Caros Amigos, ano XVII, nº 64, de setembro de 2013.

“Há dois parâmetros financeiros que resumem a capacidade de um país oferecer educação para sua população. Um deles é a fração do PIB (Produto Interno Bruto) destinada ao setor. Países que têm um sistema educacional público, adequado às suas necessidades, sem problemas crônicos a superar e sem grandes contingentes de crianças e jovens investem cerca de 7% a 8% de seus PIBs na educação pública. Países que superaram ou estão superando atrasos educacionais grandes, como são os nossos, investiram ou investem valores da ordem de 10% do PIB na educação pública. Atualmente, o Brasil investe cerca de 5% de seu PIB na educação pública, um subinvestimento cujo resultado evidente é o que vemos: enormes evasões escolares, professores e demais trabalhadores sub-remunerados, carência de profissionais em diversas áreas, etc.


Um segundo parâmetro é o investimento por estudante e por ano em comparação com a renda per capita do país. Países ricos ou pobres, mas quem mantém um bom sistema educacional, investem cerca de 25% a 30% da renda per capita na educação básica. No caso brasileiro, esse percentual está, em média, próximo dos 15%, sendo que em muitos estados e municípios e etapas e modalidades de ensino, os investimentos por aluno e por ano estão abaixo mesmo de 10% da renda per capita. Esse padrão de investimento é suficiente para explicar classes superlotadas, professores sobrecarregados, baixo desempenho dos estudantes, etc...”

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Aos mestres com carinho

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:39
Terça-feira, 15 de outubro

Hoje é o Dia do Professor. Gostaria de deixar a carrega como profissão a missão de ensinar. Profissão/Missão que poderia ser bem mais valorizada em nosso país. A Severina dos Anjos, minha primeira mestra, e a todos aqueles aperfeiçoaram em mim o saber e a educação. Meu muito obrigado, de coração. Deixo aqui minha singela homenagem. Dedico a vocês a letra da bela canção de Ataulfo Alves, Meus Tempos de Criança, e um texto do Pe. Fábio de Melo.




Aos domingos, missa na matriz

“Eu daria tudo que eu tivesse
Pra voltar aos dias de criança
Eu não sei pra que que a gente cresce
Se não sai da gente essa lembrança
Da cidadezinha onde eu nasci
Ai, meu Deus, eu era tão feliz
No meu pequenino Miraí
Que saudade da professorinha
Que me ensinou o beabá
Onde andará Mariazinha
Meu primeiro amor, onde andará?
Eu igual a toda meninada
Quanta travessura que eu fazia
Jogo de botões sobre a calçada
Eu era feliz e não sabia”
(Meus Tempos de Criança - Ataulfo Alves)





O que da vida não se descreve...

“Eu me recordo daquele dia. O professor de redação me desafiou a descrever o sabor da laranja. Era dia de prova e o desafio valeria como avaliação final. Eu fiquei paralisado por um bom tempo, sem que nada fosse registrado no papel. Tudo o que eu sabia sobre o gosto da laranja não podia ser traduzido para o universo das palavras. Era um sabor sem saber, como se o aprimorado do gosto não pertencesse ao tortuoso discurso da epistemologia e suas definições tão exatas. Diante da página em branco eu visitava minhas lembranças felizes, quando na mais tenra infância eu via meu pai chegar em sua bicicleta Monark, trazendo na garupa um imenso saco de laranjas. A cena era tão concreta dentro de mim, que eu podia sentir a felicidade em seu odor cítrico e nuanças alaranjadas. A vida feliz, parte miúda de um tempo imenso; alegrias alojadas em gomos caudalosos, abraçados como se fossem grandes amigos, filhos gerados em movimento único de nascer. Tudo era meu; tudo já era sabido, porque já sentido. Mas como transpor esta distância entre o que sei, porque senti, para o que ainda não sei dizer do que já senti? Como falar do sabor da laranja, mas sem com ele ser injusto, tornando-o menor, esmagando-o, reduzindo-o ao bagaço de minha parca literatura?

Não hesitei. Na imensa folha em branco registrei uma única frase. "Sobre o sabor eu não sei dizer. Eu só sei sentir”

Eu nunca mais pude esquecer aquele dia. A experiência foi reveladora. Eu gosto de laranja, mas até hoje ainda me sinto inapto para descrever o seu gosto. O que dele experimento pertence à ordem das coisas inatingíveis. Metafísica dos sabores? Pode ser...

O interessante é que a laranja se desdobra em inúmeras realidades. Vez em quando, eu me pego diante da vida sofrendo a mesma angústia daquele dia. O que posso falar sobre o que sinto? Qual é a palavra que pode alcançar, de maneira eficaz, a natureza metafísica dos meus afetos? O que posso responder ao terapeuta, no momento em que me pede para descrever o que estou sentindo? Há palavras que possam alcançar as raízes de nossas angústias?

Não sei. Prefiro permanecer no silêncio da contemplação. É sacral o que sinto, assim como também está revestido de sacralidade o sabor que experimento. Sabores e saberes são rimas preciosas, mas não são realidades que sobrevivem à superfície.

Querer a profundidade das coisas é um jeito sábio de resolver os conflitos. Muitos sofrimentos nascem e são alimentados a partir de perguntas idiotas.

Quero aprender a perguntar menos. Eu espero ansioso por este dia. Quero descobrir a graça de sorrir diante de tudo o que ainda não sei. Quero que a matriz de minhas alegrias seja o que da vida não se descreve...”

Pe. Fábio de Melo



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