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Sonhos, águias e bandeiras

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:33
Sábado, 28 de agosto

A cidade de Campinas, no Estado de São Paulo, dedica o mês de setembro a Carlos Gomes, o maior compositor de ópera brasileiro. Um gênio da música. O texto abaixo é uma homenagem a esse ilustre campineiro. Escrevi esse texto há exatos três anos e ele foi publicado originalmente no blog http://www.rec2010.blogspot.com.br/, reescrevi a segunda parte do texto onde falo de Carlos Gomes. Na primeira parte do texto expresso algumas impressões da cidade de Campinas, onde moro, e na qual nasceu Carlos Gomes.

                                                                  Catedral de Campinas
Imagem: http://www.rac.com.br/_conteudo/2013/06/especiais/campinas/74117-arquitetura-que-deslumbra-e-favorece-a-fe.html

          Ando pelas ruas do centro de Campinas, cidade do interior paulista, distante cerca de 90 km de São Paulo, capital. Faz uma bela tarde de sol.

O centro da cidade está nervoso e agitado, como são agitados e nervosos todos os centros de todas as grandes cidades.

Apressadas, milhares de pessoas circulam pelas ruas. É o ritmo frenético da vida moderna. Que me desculpem os que criticam o progresso, mas há certo charme em tudo isso. Os motoristas mais nervosos buzinam ao volante. Contagiados por tamanha correria, não há mais paciência de esperar o sinal abrir. Ainda bem que existem os sinais de trânsito para colocar um pouco de ordem em toda essa desordem.

Fala-se muito da violência e das desigualdades que, iguais a ervas - daninhas, foram, discretamente, invadindo o jardim florido. Ganharam espaço e tornaram-se calo nas mãos de quem administra e de quem usufrui desse jardim. Por causa dessas ervas - daninhas, os grandes centros perderam um pouco da poesia.

Deixemos de lado as ervas - daninhas. Não desejo tratar delas nessa crônica.

Trato dos sinais de vida que despontam em meio a toda a agitação envolvente do centro da cidade. Há um sabor de intensidade em tudo isto. E, quando penso nisso, não pretendo me referir aos planos mirabolantes, à adrenalina que pulsa nas veias daqueles que se entregam aos esportes radicais, fazendo bem ao corpo e à mente. Nem falo da intensidade da emoção de entrar na jaula de um leão sem ser domador. Isso nem seria emoção intensa, seria estupidez mesmo.

Falo de gestos simples captados pelos meus olhos; em meio à multidão que sobe a Avenida Francisco Glicério, um casal de mãos dadas a sorrir: a evidente inocência da criança que, alheia ao movimento, saboreia um delicioso sorvete, enquanto alguns pingos do creme escorrem pela sua camiseta: a centenária Catedral de Campinas, rodeada pelas casas de comércio, me lembra que nem só de pão vive o homem.

Sinto vida nas pessoas caminhando ao meu lado. Da mesma forma que eu, elas têm sonhos e a esperança de realizá-los.
                                                           
                                                                      Centro de Campinas
Imagem: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=924590

Olho para o alto de um edifício, e meus olhos divisam a imagem de uma flâmula verde, amarela, azul e branca que baila altiva ao sabor do vento. A simbologia manifestada naquela bandeira do Brasil, dançando ao sabor do vento, traduz bem o que penso. Quatro cores que retratam os anseios de paz, esperança e prosperidade, não apenas da gente de Campinas, mas de todo o povo brasileiro. Lindo pendão de esperança que se ergue soberano acima de nossas cabeças, como uma mãe gentil estendendo seu manto por sobre os filhos amados.

Olhando a bandeira que se eleva sobre a multidão apressada, lembro-me dos filhos desta pátria que se sublimaram ao cotidiano e alçaram vôo em direção aos céus da fama. Como grandes águias, voaram alto, muitas vezes pairando em terras estrangeiras, erguendo o nome do nosso Brasil. Brasileiros tão grandes quanto a saudade de sua pátria que os consume e devora dia e noite.

Uma emoção me invade o peito ao lembrar que, nessas ruas por onde, caminho no momento, abarrotadas de gente e de automóveis andou, em passado distante, um adolescente assobiando melodias e marcando compassos. Campinas era conhecida, então, como Vila de São Carlos. O jovem a que me refiro era Antonio Carlos Gomes, ou simplesmente, Carlos Gomes. O jovem talento bebia nas fontes dos grandes mestres. Pensava em tornar-se um excelente músico e conseguiu. Tonico, como era carinhosamente chamado pelos amigos e familiares, não nasceu em berço de ouro; ao contrário, veio ao mundo em um lar simples e humilde, em 18 de Julho de 1836.

O mistério da música envolveu Tonico desde cedo. Os primeiros acordes musicais foram ouvidos por ele ainda no berço, quando seu pai tocava as peças musicais que apresentaria em concertos, missas e saraus pela cidade. A aptidão para a música manifestou-se desde menino quando fazia partituras de missas, modinhas e marchas para ajudar o pai.
Quando moço, vez em quando, ia a, àquela época tranqüila, cidade de São de Paulo, na companhia do irmão Santana Gomes. Naquele tempo não existiam as facilidades das rodovias bem asfaltadas e os viajantes tinha que enfrentar uma dura jornada. Quem quisesse chegar a São Paulo, tinha que percorrer estradas de terra no meio da mata, montado em lombo de cavalo.

Os encantos da Província de São Paulo faziam os dois irmãos esquecerem rapidamente a dureza da viagem. Já na Província, realizavam concertos de violino e piano. Eram noites nas quais a lua prateada se derramava por sobre a cidade. Noites de folguedos e de poesia e de muita alegria produzidas pelos moços e moças no frescor da juventude.
Carlos Gomes era muito amado pela mocidade que não hesitava em lhe demonstrar afeto e simpatia. Para essa juventude cheia de sonhos, Carlos Gomes escreveu o Hino à Mocidade Acadêmica. Os companheiros sentiam seu enorme dom para a música e aconselhavam: “Vai para a Corte e, depois, para Europa. Teu destino é ser um grande músico”. Carlos Gomes ouviu o conselho e partiu em direção ao seu destino.

Foi para o Rio de Janeiro. Lá encontrou uma calorosa acolhida por parte do Imperador, D. Pedro II. Entrou para o Conservatório de Música do Rio de Janeiro e teve a sorte de ter como professor, o conceituadíssimo Francisco Manoel, autor do Hino Nacional. Durante seus estudos no Conservatório, escreveu as óperas nacionais A Noite do Castelo (1861) e Joana de Flandres (1863).

As óperas eram de uma qualidade tão refinada que o jovem compositor conquistou definitivamente a simpatia de D. Pedro. O imperado tratou de providenciar a sua ida para Itália, a fim de aperfeiçoar o seu dom para a música, com tudo pago pela Corte. Na Itália, o músico trilhou um caminho glorioso. A consagração definitiva deu-se quando, na noite de 19 de março de 1870, no magnífico Teatro Scala de Milão, foi apresentada, em quatro atos, a ópera O Guarani , baseada na obra homônima do escritor brasileiro, José de Alencar.

O famoso compositor Giuseppe Verdi, autor de obras consagradas, estava na platéia que lotava o Scala de Milão naquela noite. Ao fim do terceiro ato, Verdi não conseguiu conter a emoção: subiu ao palco e deu forte abraço em Carlos Gomes. "Questo giovane comincia da dove finisco io" (Este jovem começa onde eu termino), disse ele ao público que assistia a bela ópera.
Houve outros grandes sucessos também: Fosca (1873) Salvator Rosa (1874) e Maria Tudor (1879), Lo Schiavo (1889) e Condor(1891). Em 1892 compôs sua última obra: o belo poema vocal sinfônico Colombo.

No fim de sua vida não teve o reconhecimento que merecia em sua própria pátria. De volta ao Brasil foi meio que deixado de lado. Por que? Coisas de política... Carlos Gomes tinha afeição e amizade para com o imperador D. Pedro II e a recíproca era verdadeira. Agora D. Pedro fora deposto e os republicanos estavam no poder. “Esse cara é amigo do imperador. Melhor deixar ele de lado”. Que pena! Deixaram de lado um gênio da música clássica. Um regente de primeira linha. Não encontrando apoio em Campinas, sua terra natal, foi acolhido em Belém do Pará aonde veio a falecer em 16 de setembro de 1886. Após a morte seu corpo foi trazido para Campinas, sua cidade natal, onde se encontra sepultado em um monumento-túmulo na Praça Bento Quirino, no centro da cidade.

                                            Monumento-túmulo de Carlos Gomes
Imagem: http://www.campinas.sp.gov.br/noticias-integra.php?id=20303

Poder-se-ia dizer que a vida de Carlos Gomes foi um drama tendo como pano de fundo a Monarquia. Foi entre escravos e senhores, nobres e plebeus que Carlos Gomes deu vazão a seu talento para composições.


Hoje, em algum lugar deste país, deste solo verde-amarelo, sob este céu azul e branco, devem estar nascendo outras águias. Que elas ajudem a difundir, com tinta de ouro e prata, a cultura, esse elo que contribui para unir povos e nações num só objetivo: a busca do belo e o respeito às diferenças.

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O dia no qual os corruptos triunfaram

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:49
Quinta-feira, 26 de setembro

                                                        Sessão de julgamento do mensalão
Imagem: http://www.valor.com.br/mensalao/2861220/julgamento-do-mensalao-tem-importancia-historica-diz-eduardo-campos

A novela “Julgamento do Mensalão” caminha no sentido de bater o recorde de Redenção. Novela exibida pela extinta TV Excelsior, entre  maio de 1966 e 2 de maio de 1968. Até hoje, Redenção ainda mantém o recorde da telenovela no ar por mais tempo. Foram vinte e quatro meses e dez dias no ar. No total foram 596 capítulos.

As sessões de julgamento, no Supremo Tribunal Federal, da ação 470, mais conhecida por mensalão, já somam 53 sessões, sendo 53 sessões entre agosto e dezembro de 2012 e 11 sessões entre agosto de 2013.

Quando em 11 de abril de 2006, o procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, ofereceu denuncia ao STF contra os 40 envolvidos no escândalo do mensalão e o ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo e relator do caso, determinou a notificação dos acusados para que oferecessem reposta à denuncia e revogou o pedido de segredo de Justiça feito por advogados dos réus, confesso que vi uma luz se acender lá no fim do túnel.

Quando teve início o julgamento em 02 de agosto de 2012, foram sendo listados os graves crimes cometidos pela quadrilha dos magnatas do poder; lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, corrupção ativa, corrupção passiva, peculato, evasão de divisas e gestão fraudulenta.

Líamos nos jornais e víamos na televisão as notícias de que 25 réus haviam sido condenados pelos crimes cometidos contra os cofres públicos. Isso enchia a nós, brasileiros, de orgulho. A Justiça estava finalmente ocupando o lugar que lhe é de direito. A luz no fim do túnel ficava cada vez mais forte. Será que a Justiça, aprisionada nos porões do poder sob, a guarda incansável dos poderosos, ganharia a liberdade de fazer valer os seus princípios mais elementares: ao ofendido, a reparação e ao criminoso, a punição? Acreditávamos que sim! Que acordaríamos do pesadelo no qual a justiça possui duas balanças: uma para os mais pobres e sem recursos financeiros, aos quais pune com rigor e outra para os ricos e poderosos, aos quais pune com brandura e, na maioria das vezes, nem chega a punir.
O céu de nossas esperanças tornava-se cada vez mais claro e límpido. Tudo ia bem até o dia em que apareceu no Supremo o fantasma dos embargos infringentes que possibilitava uma revisão de penas para doze, dos vinte e cinco condenados e ainda possibilita a alguns deles cumprir pena em regime semiaberto.

Quanto a esses tais embargos infringentes pode-se dizer que é, literalmente, coisa de português. Esse recurso era previsto no direito português e representava um modo de pedir ao juiz que reconsiderasse sua decisão. O recurso proporcionava ao vencido a possibilidade de um novo julgamento. Os nossos irmãos portugueses foram bem perspicazes que nós. Perceberam logo que os embargos infringentes procrastinavam em muito as ações. Popularmente falando, tais embargos tinha a finalidade apenas de “encher linguiça”. Não vendo, portanto, motivos para mantê-los, o legislador português decidiu retirá-lo do texto lá em 1939. Nos dias de hoje, esses recursos tem previsão legal apenas no Brasil e em mais nenhum outro lugar. Os legisladores brasileiros não foram tão perspicazes quanto os legisladores portugueses e o resultado é esse adiamento na ação que julga um dos mais criminosos esquemas de desvio de dinheiro público. O clima de espetáculo já prenunciava que algo não ia bem. Não cabe a esfera jurídica o espetáculo. Nessa esfera deve prevalecer a sobriedade do julgamento e a serenidade da decisão.

No julgamento referente à aceitação dos embargos infringentes o clima se assemelhava ao das partidas de futebol. Torcidas contra e a favor. Votos eram comemorados como se fossem gols. Os ministros votavam, fundamentavam seus votos. Ao final da sessão, os votos estavam empatados em 5 x 5. O voto de Minerva cabia ao ministro Celso de Melo e ficou para ser decidido na próxima sessão. Foi uma semana de intensos debates, muitas discussões e angústias. A grande maioria dos brasileiros achava que Celso de Melo não acataria os embargos infringentes.

No dia 18 de setembro, à medida que o ministro ia expondo os argumentos que culminaria no voto decisivo a luz no fim do túnel ia se apagando. Com argumentos como “O dever de proteger das liberdades fundamentais dos réus, de qualquer réu, representa encargo constitucional de que este Supremo Tribunal Federal não pode demitir-se, mesmo que o clamor popular, se manifeste contrariamente, sob pena de frustração de conquistas históricas que culminaram, após séculos de lutas e reivindicações do próprio povo na consagração de que o processo penal traduz instrumento garantidor de que a retenção que a reação do Estado à prática criminosa jamais poderá constituir reação instintiva, arbitrária, injusta e irracional”.
A essa altura do campeonato já sabíamos em que corrente se enredaria o voto de Celso de Melo e ele foi enfático “Concluo meu voto, Senhor Presidente. E ao fazê-lo peço vênia para dar provimento ao presente “agravo regimental”, admitindo, em consequência, a possibilidade de utilização, no caso, dos embargos infringentes...”.

Segundo o próprio Celso de Melo, o processo penal é garantidor de que a reação do Estado à prática criminosa não deve ser irracional. Como leigo que sou, arrisco dizer que o voto do ministro foi garantidor de impunidade. O ministro baseou seu voto na garantia do Direito e esqueceu-se do bom senso que se deve ter ao se fazer Justiça. Em qualquer sociedade que tenha por base sólidos princípios éticos quem rouba mais de 173 milhões dos cofres públicos vai para a cadeia.

É bom lembrar que as penas não foram extintas, serão apenas revisadas. Nessa revisão é que mora o perigo. Ela pode livrar da cadeia os principais operadores do mensalão. O problema é que, com a lentidão de nossa justiça, ficamos a nos perguntar: haverá, de fato, alguma punição? Agora estou em dúvida. Ao votar pela aceitação dos embargos infringentes, o ministro Celso de Melo, jogou no lixo um excelente trabalho que o Supremo vinha fazendo. Claro, por todas as artimanhas que vimos no decorrer do processo, por exemplo - o ministro Ricardo Lewandowisk levou seis meses para analisar os autos já sendo sabedor, há algum tempo, da matéria que eles tratavam – sabemos que há uma articulação para que tudo isso acabe em pizza. Espero sinceramente que não. Só sei que ao ver, na TV, o sorriso cínico de Marcos Valério ao sair do STF, tive certeza de que os corruptos haviam alcançado uma grande vitória.

E a luz no fim do túnel? Deixaremos ela se apagar? Não, de forma alguma. Enquanto houver homens e mulheres, brasileiros e brasileiras, ordeiros e honestos a luta por Justiça não será inglória.


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Rock in Rio, o maior festival de música do planeta: Uma história de superação – Parte II

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:46
Terça-feira, 24 de setembro

Todos numa só direção, uma só voz, uma canção
Todos num só coração, um céu de estrelas
Se a vida começasse agora, e o mundo fosse nosso outra vez,
E a gente não parasse mais de cantar, de sonhar
Que a vida começasse agora e o mundo fosse nosso de vez
E a gente não parasse mais de se amar, de se dar, de viver
Uou uou uou uou uou
Rock in Rio
(Música tema do Rock in Rio)


                                                         Cidade do Rock, 2013/Rio de Janeiro

Era noite de 21 de junho de 1990. Um Roberto Medina debilitado apareceu na porta de sua mansão na Barra da Tijuca, Zona Sul do Rio. Acenou aos vizinhos e jornalistas que por ali estavam e, em seguida, recolheu-se a intimidade de seu lar. Ali, em segurança, tomou uma deliciosa sopa, conversou com os amigos e, por volta da meia noite, foi dormir em paz. Era o fim de quinze dias de um sequestro violento, no qual ficara sob tortura e ameaça de perigosos bandidos. Na noite de 06 de junho de 1990, por volta das oito e vinte, Roberto Medina terminava mais uma jornada de trabalho na Artplan, no bairro da Lagoa. De repente, a confusão: sob intenso tiroteio Medina foi cercado e rendido por vinte bandidos armados que anunciaram o sequestro.

No cativeiro, os bandidos pediram 5 milhões de dólares como resgate. O empresário disse que a família só conseguiria 1 milhão. Inconformados, os bandidos deram-lhe um soco na face e amarraram suas mãos com arame farpado. Não contentes com isso, um dos bandidos ainda ameaçou esquartejá-lo com um machado. Medina não conseguia ver nada, pois, além do pequeno quarto ser muito escuro, os bandidos haviam-no obrigado a usar um óculos com a parte interna das lentes cobertas com esparadrapo. A única alimentação era sanduiches e refrigerantes. Algumas vezes, os marginais o dopavam com tranquilizantes.

A polícia começou a fazer blitz nas favelas do Rio em busca dos sequestradores. Os bandidos não gostaram disso e, como ameaça, deixaram uma fita de vídeo na Igreja do Cristo Redentor, no bairro de Laranjeiras. Nessa fita, segundo foi comentado pela polícia, o empresário aparecia apenas de bermuda e com dois revolveres apontados para sua cabeça. Diante dessa forte ameaça a polícia cessou as blitz.

Após dezesseis dias de sequestro, a família Medina, finalmente conseguiu pagar o resgate de 2,5 milhões de dólares. Na época, alguns veículos de comunicação anunciaram que o valor teria sido de 4 milhões. A respeito desse caso, assim se expressou Medina, em entrevista a revista Quem: “Sonho é como se fosse comida. Aprendi no sequestro que você vive sem comida, mas não vive sem sonho. Fiquei quase dezesseis dias sem comer. É incrível como o corpo humano é capar de produzir energia. Você supera”.

“Ali onde eu chorei qualquer um chorava. Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava... Um homem de moral não fica no chão... Levanta sacode a poeira e dá a volta por cima”. Assim diz o grande compositor Paulo Vanzolini, na música Volta por Cima. A filosofia de vida contida nesses versos foi seguida à risca por Roberto Medina.

Passado o susto, era hora de retomar a produção do Rock in Rio II, a ser realizado no ano seguinte. O empresário viajou novamente aos Estados Unidos para fechar contrato com grandes nomes do show bizz. Dessa vez, as portas já estavam abertas e os negócios foram mais fáceis.

Em 1991, não foi possível construir a cidade do rock em Jacarepaguá. A solução encontrada foi realizar o evento no famoso Estádio do Maracanã. Uma iluminação cara e luxuosa transformou o templo sagrado do futebol em uma bela nave espacial.

Tudo corria bem e as obras para tornar o evento mais seguro e adequado ao estádio, avançavam rapidamente. No dia 8 janeiro, faltando apenas 3 dias para o início do festival, uma notícia caiu como uma bomba no colo dos organizadores do evento: uma liminar suspendia a realização do Rock in Rio. A liminar era consequência de uma ação popular ajuizada em novembro contra a SUDERJ (Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro) e a Artplan. A ação responsabilizava as duas por ato lesivo ao patrimônio artístico, estético, histórico ou turístico. Os advogados trabalharam rápido e conseguiram reverter a decisão na Justiça.

Dois dias antes do início da festa vieram mais problemas. O Sindicato dos Músicos e o Sindicato dos Artistas Técnicos do Rio, em união com o Escritório de Arrecadação de Direitos (ECAD), entraram com uma ação judicial na qual exigiam que os artistas estrangeiros pagassem 10% do valor de seus contratos à Ordem dos Músicos do Brasil. Era uma tentativa de ganhar um dinheiro fácil das bilheterias do Rock in Rio. Mais uma vez os advogados trabalharam rápido e mais uma liminar foi revogada.

Vencidas as tempestades, no dia 18 de janeiro de 1990, o Maracanã, templo do futebol, estendia tapete vermelho aos reis da música.

***

Rock in Rio III – ano de 2001

Era o dia 12 de janeiro de 2001, noite de abertura do Rock In Rio III. O público lotava a Cidade do Rock, em Jacarepaguá. De repente, silencio total. Nos telões apareciam imagens do Planeta Terra. Ao fundo, ouvia-se o som das batidas do coração. Em seguida surgia na tela, em letras pretas e fundo branco, a mensagem

A partir de agora você tem 3 minutos para pensar um mundo melhor. Isso não quer dizer que você, nesses poucos minutos, vai descobrir a pólvora e resolver todos os problemas do planeta.

Era uma peça publicitária que o público silênciar por 3 minutos. A mensagem foi vista por quem estava presente à Cidade do Rock e também pelos telespectadores das 528 emissoras de televisão e pelos ouvintes das 2.232 emissoras de rádio que transmitiram a peça publicitária. Estima-se que a mensagem tenha alcançado 90 milhões de pessoas.

***

                                                                 Show em homenagem a Cazuza
Imagem: http://www.radiojovemhits.com.br/noticia/1619/homenagem-a-cazuza-abriu-oficialmente-o-rock-in-rio-2013


Rock in Rio V – ano de 2013

A quinta edição do Rock in Rio realizou-se dentre os dias 13 a 22 de setembro. Na abertura do festival, uma chuva de fogos multicoloridos prenunciava o show em homenagem Cazuza, um dos maiores poetas da geração 80. Cazuza morreu em 7 de julho de 1990,  aos 32 anos, vítima de complicações devidas ao vírus da AIDS. Grandes nomes da música brasileira cantaram as músicas do poeta e a emoção foi geral. Outro momento bonito do show foi a apresentação do americano Bruce Springseteen. Aos 64 anos, Bruce esbanjava o talento e a vitalidade de um garoto. No palco, o cantor fez o que sabe fazer com maestria: cantar e tocar sua guitarra. Além disso, ainda dançou, pulou, correu e distribuiu simpatia para a plateia. O metal pesado do Iron Maden fechou o festival que, mais uma vez, foi coroado de êxito.

***

Considerações finais

O nome, Rock in Rio, deixou de ser apenas um nome e tornou-se uma marca comercial. Desde sua origem, em 1985, já foram realizadas 13 edições do festival, incluindo a que aconteceu na última semana. Foram cinco edições no Brasil (1985, 1991, 2001, 2011 e 2013), cinco em Portugal (2004, 2006, 2008, 2010 e 2012) e três na Espanha (2008, 2010 e 2012). O festival faz tanto sucesso porque não vende apenas ingresso para o show das bandas, vende, junto com isso, toda uma infraestrutura.  O festival trouxe grande contribuição à música nacional. Em 1985, os técnicos de som nacionais tiveram bastante dificuldade em operar os modernos e sofisticados equipamentos de som e, com isso o som dos cantores brasileiros ficou bastante prejudicado. Após o evento, os técnicos da área tiveram que buscar especialização e aperfeiçoamento. As bandas de rock nacional também descobriram que era possível viver da arte da música e buscaram um melhoramento no seu repertório.


Roberto Medina, ao criar o Rock in Rio, deu vida a um projeto de grande magnitude, uma “maluquice” segundo ele mesmo fala, e com isso, nos mostrou que é possível transformar sonhos em realidade. Basta acreditar neles e trabalhar arduamente para que eles se tornem realidade. Um bom exemplo disso é o projeto que começou desacreditado em 1985 e, se transformou no maior festival do planeta... Ah, e o Rock in Rio ainda tem muito mundo para percorrer.

(No desenvolvimento desse texto consultei, como fonte principal, o livro  Rock in Rio, - A história do maior festival de música do mundo, do autor Luiz Felipe Carneiro. Editora Globo).

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Rock In Rio, o maior festival de música do planeta: Uma história de superação

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 17:38

Sábado, 21 de setembro
                                                                                      
Imagem: http://www.viajandopelorio.com.br/blog/destaques/rock-in-rio-2013-voce-nao-vai-querer-perder/

A banda inglesa, Queen, toucou os acordes iniciais da bela canção Love of My Life. Um coro de 250 mil vozes começou a cantar os primeiros versos: 

 Love o my life, you’ve hurt me
You’ve broken my heart,
And now you leave me.
Love of my life, can’t you see?
Bring it back, bring it back,
Don’t take it away from me,
Because you don’t now
What it means to me. 


A multidão presente à Cidade do Rock pegou os integrantes do Queen de surpresa. Emocionado, o vocalista Fred Mercury deixou que o mar de gente fizesse o show. O cantor apenas agitava os braços, como um maestro, e pedia para que a multidão cantasse. O vocalista entrou no terceiro verso da canção:

Love of my life don’t leave me,
You’ve stolen my love,
And now desert me,
Love of my life, can’t you see?

A partir daí, o que se viu e o que se ouviu foi o mais belo dueto jamais visto na história do rock e da música, de um modo geral. Um show memorável, escrito com tinta de ouro nas crônicas musicais. Era o oitavo dia da primeira edição do Rock In Rio, em 1985, na cidade do Rio de Janeiro. O Queen já havia se apresentado na abertura do festival também com igual sucesso.

O Rock In Rio era um sonho que se tornara realidade.
Foto divulgação



No início dos anos 80, o Brasil vivia sob o jugo da ditadura militar que havia começado em 1964. Era uma época de censura, tinha-se que viver sob a mordaça do silêncio. Os Atos Institucionais eram mais importantes que os Preceitos Constitucionais. No plano econômico a situação não era nada fácil: os brasileiros enfrentavam dias de recessão e desemprego. Em 1984, uma multidão saiu ás ruas do país exigindo eleições diretas. O movimento ficou conhecido com Diretas-Já. A ditadura agonizava e uma abertura democrática se anunciava no horizonte brasileiro. Sob o comando de guerreiros como o deputado Ulisses Guimarães, uma luta pela democracia era travada no cenário político. 
Em 1985, durante a realização do festival, Tancredo Neves foi eleito presidente do Brasil através de eleições indiretas. Era o primeiro presidente civil eleito, ainda que por eleição indireta, após vinte anos de ditadura. Os brasileiros viam em Tancredo Neves uma esperança de liberdade. O novo presidente veio a falecer poucos meses após a eleição mas a semente da democracia já havia sido plantada no país.
O céu sombrio que cobria o solo brasileiro no inicio daquela década foi amenizado pelo som das bandas de rock que surgiram no período. Era preciso fazer o povo dançar, cantar esquecer um pouco a dura realidade. Várias bandas surgiram nesse contexto: Barão Vermelho, Titãs, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Blitz, Kid abelha, RPM, só para citar algumas.
Vivendo nesse panorama desanimador estava Roberto Medina, um empresário sonhador. Medina andava descontente com a situação pela qual o país atravessava. Pensava até em se mudar para o exterior, mais precisamente a terra do Tio Sam: os Estados Unidos da América.  Conhecedora do amor que o marido nutria pelo Brasil, sua mulher, Maria Alice, era contrária a ideia de ir morar em outro país. “Meu querido, eu te amo e você sabe disso. Irei com você para qualquer lugar. Porém, te digo uma coisa: se você for embora do Brasil, você vai se arrepender. Pensa bem amor, com essa abertura democrática, talvez as coisas melhorem um pouco”, dizia ela.

Medina, pensou, pensou e resolveu ficar. Começou a surgir em sua mente um projeto que colocasse o Brasil em evidência... Passou noites em claro elaborando projetos. Numa dessas noites suas mãos rabiscaram um nome: Rock In Rio.  O coração de Medina se encheu de luz, seus olhos brilharam. O empresário pensou num megaevento que colocasse o Brasil na rota cultural dos grandes astros e estrelas da música internacional. Algo que fosse inédito no Brasil e no mundo. O projeto que surgia naquele papel era improvável, de uma loucura tamanha... Soava como um grande desafio. Isso o estimulava. A ideia era tão louca que, nos dias de hoje, equivaleria a dizer que se está vendendo ingressos para o pouso de uma nave espacial na Praia de Copacabana. Você compraria?  Naquela época, um grande evento no Brasil era o que reunia quarenta ou cinquenta mil pessoas no máximo. A expectativa do rock In Rio era reunir cerca de um milhão e meio de pessoas.

                                                                            Roberto Medina
Foto divulgação


Na Artplan, agência de publicidade que comandava, seus funcionários receberam a proposta do evento com descrédito. Foi preciso muita conversa para convencê-los de que o projeto era viável. Vencida essa primeira dificuldade, Medina partiu para a guerra. Viajou aos Estados Unidos para fechar contrato com bandas internacionais. Ou pelo menos tentar fazer isso. Não viajou sozinho, levou consigo dois amigos: o produtor Luiz Oscar Niemyer e o empresário Oscar Orestein.

O trio passou cerca de dois meses em solo americano sem conseguir nenhum contrato. Ninguém acreditava que houvesse público para um evento de tal grandiosidade num país que atravessava séria crise financeira. A ideia de desistir bateu mais uma vez na sua porta.

Os anjos sempre estiveram do lado do empresário. Primeiro foi sua mulher, Maria Alice, que o convenceu a ficar quando ele já arrumava as malas para se mudar para terras americanas. Em seguida, foram três jovens que Medina encontrou, por caso, na rua. Naquele dia, estava indo ao escritório para desistir de uma vez dessa ideia de Rock In Rio. Os rapazes o reconheceram e logo lhe saudaram de forma animada. Sabiam que ele estava organizando o festival e já faziam planos para que quando ele acontecesse. Elogiaram sua coragem de realizar tal empreendimento quando todos os fatores pareciam conspirar contra. Os jovens foram embora e Medina, ao chegar ao escritório, jogou no lixo a ideia de desistir do sonho. 

Nos Estados Unidos também havia de aparecer um anjo. E ele apareceu na figura de Lee Solters, empresário de Frank Sinatra.  Medina e sua equipe criaram coragem e foram falar com ele. Falou do projeto, das dificuldades que estavam encontrando e até da vontade de desistir.

_ O que fazemos nós? Perguntou o empresário brasileiro.

_ Não façam coisa alguma. Só peço a vocês que organizem um coquetel para cerca de cinquenta pessoas e podem deixar o resto comigo. 

O trio brasileiro que esperava que fossem aparecer uns dois ou três jornalistas, teve uma grande surpresa. Nesse concorrido coquetel estavam presentes os jornalistas mais influentes dos Estados Unidos. Roberto Medina falou do Rock In Rio, do sucesso que prometia ser o evento e contou detalhes do projeto a eles. A partir daí, os ventos começaram a soprara a favor. Muitos contratos começaram a ser fechados. No dia 11 de janeiro de 2005 o sonho de Roberto Medina definitivamente tornou-se realidade.  À uma hora da tarde os portões da Cidade do Rock foram abertos e uma multidão ávida por rock-in-roll invadiu o espaço esperando pelos shows que aconteceriam logo mais. Grandes astros da música internacional desfilaram pelo palco. Várias bandas de rock nacional ganharam visibilidade e consolidaram suas carreiras a partir daquele festival.

Vinte e cinco anos mais tarde, mais precisamente em janeiro de 2010, assim Roberto Medina recordava o início do festival, em entrevista ao G1, portal de notícias da Globo: “Foi uma maluquice. Não existia nada parecido, nem aqui nem lá fora, que pudesse servir de referência para o que gostaria de fazer. Foi pura intuição. Claro que não planejei nada sozinho. Tive uma equipe de outros malucos que me acompanharam. E, no momento em que topamos o desafio, fui aprendendo. Foram oito meses de trabalho lidando com dificuldades. Era uma época de transição entre o governo militar e a democracia, um momento em que a juventude queria ir para rua. Eu, como empresário de comunicação, achava que seria bom tentar ajudar nesse sentido, mostrar a cara do Brasil. O festival nasceu a partir disso”.



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Um discurso dentro de outro discurso

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:42
Quinta-feira, 19 de setembro

Minhas faces ardem como se tivesse levado um tapa na cara. Acho que milhões de brasileiros sentem a mesma coisa. Ontem, ocorreu a sessão do Supremo Tribunal Federal que julgou procedente a aceitação dos Embargos Infringentes para o caso do mensalão. A questão estava empatada e o voto de Minerva foi o do Ministro Celso de Melo. Com isso, abriu-se a possibilidade de rever as penas de doze condenados na ação 470. Uma decepção! Celso de Melo disse, em seu discurso, que aquela casa não deveria ouvir o clamor popular. Eu, na minha humildade, digo-lhe, senhor Ministro, que o clamor popular é que se faça Justiça. Isso seria pedir demais?! Não falo dessa sessão do julgamento no texto de hoje. Falo disso na semana que vem.

Hoje deixo para reflexão dos caros leitores, um texto que é um alento em meio a essa decepção. É um discurso proferido pelo Ministro Marco Aurélio de Melo, colega de colegiado de Celso de Melo. O texto foi proferido em sessão de julgamento do STF, em 22 de outubro de 2012. Ao dar seu voto na sessão que julgava os mensaleiros, Marco Aurélio trouxe ao plenário, um discurso que havia feito por ocasião de sua posse como Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, em 2006. O discurso é uma perola, cheio de reflexões fortes. Quem dera todos os ministros tivessem a mesma consciência acerca da Justiça e do Direito...


                                                                            Marco Aurélio de Mello
Imagem: http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=206035

(...)

Infelizmente, vivenciamos tempos muito estranhos em que se tornou lugar-comum falar dos descalabros que, envolvendo a vida pública, infiltraram na população brasileira - composta na maior parte de gente ordeira e honesta - um misto de revolta, desprezo e até mesmo repugnância. São tantas e deslavadas as mentiras, tão grosseiras as justificativas, tão grande a falta de escrúpulos, que já não se pode cogitar somente de uma crise de valores, senão de um fosso moral e ético que parece dividir o país em dois segmentos estanques - o da corrupção, seduzido pelo projeto de alcançar o poder de uma forma ilimitada e duradoura, e o da grande massa comandada que, apesar do mau exemplo, esforça-se para sobreviver e progredir.

 Não há, nessas afirmações - que lamento ter de lançar -, exagero algum de retórica. Não passa dia sem nos depararmos com manchete de escândalos. Tornou-se quase banal a notícia de indiciamento de autoridades dos diversos escalões não só por um crime, mas por vários, incluindo o de formação de quadrilha, como por último consignado em denúncia do Procurador Geral de República, Dr. Fernando Antônio Barros e Silva de Souza, (referia-me a denúncia desse processo, o processo do mensalão, a peça primeira dessa ação penal). A rotina de desfaçatez e indignidade parece não ter limites, levando os já conformados cidadãos brasileiros a uma apatia cada vez mais surpreendente, como se tudo fosse muito natural e devesse ser assim mesmo; como se todos os homens públicos, nas mais diferentes épocas, fossem e tivessem sido igualmente desonestos, numa mistura indistinta de escarnio e afronta, e o erro passado justificasse os erros presentes.

A repulsa dos que sabem o valor do trabalho árduo se transformou em indiferença e desdém, como acontece quando, por vergonha, alguém desiste de torcer pelo time do coração e resolve ignorar essa parte do cotidiano. É a tática da avestruz: enterrar a cabeça para deixar o vendaval passar. E seguimos como se nada estivesse acontecendo. Perplexos, percebemos, na simples comparação entre o discurso oficial e as notícias jornalísticas, que o Brasil se tornou um país do faz-de-conta. Faz de conta que não se produziu o maior dos escândalos nacionais, que os culpados não sabiam - o que lhes daria uma carta de alforria prévia para continuar agindo como se nada de mal houvessem feito. Faz de conta que não foram usadas as mais descaradas falcatruas para desviar milhões de reais, num prejuízo irreversível em país de tantos miseráveis. Faz de conta que tais tipos de abusos não continuam se reproduzindo à plena luz, num desafio cínico a supremacia da lei, cuja observação é tão necessária em momentos conturbados.

Se, por um lado, tal conduta preocupa, porquanto é de analfabetos políticos que se alimentam os autoritarismos, de outro surge insofismável a solidez das instituições nacionais. O Brasil, de forma definitiva e consistente, decidiu pelo Estado Democrático de Direito. Não paira dúvida sobre a permanência do regime democrático. Inexiste, em horizonte próximo ou remoto, a possibilidade de retrocesso ou desordem institucional. De maneira adulta, confrontamo-nos com uma crise ética sem precedentes e dela haveremos de sair melhores e mais fortes. Em Medicina, “crise” traduz o momento que define a evolução de doença para cura ou para morte. Que saíamos dessa com invencíveis anticorpos contra a corrupção, principalmente a dos valores morais, sem a qual nenhuma outra subsiste.

Nesse processo de convalescência e cicatrização, é inescusável apontar o papel do Judiciário que não pode se furtar a assumir a parcela de responsabilidade nessa avalancha de delitos que sacode o país. Quem ousará discordar que a crença na impunidade é que fermenta o ímpeto transgressor, a ostensiva arrogância na hora de burlar todos os ordenamentos, inclusive os legais? Quem negará que, a já lendária morosidade processual acentua a ganância daqueles que consideram não ter a lei braços para alcançar os autoproclamados donos do poder? Quem sobriamente apostará na punição exemplar dos responsáveis pela sordidez que enlameou gabinetes privados e administrativos, transformando-os em balcões de tenebrosas negociações?

Essa pecha de lentidão - que se trasmuda em ineficiência - recai sobre o Judiciário injustamente, já que não lhe cabe outro procedimento senão fazer cumprir a lei, essa mesma lei que por vezes o engessa e desmoraliza, recusando-lhe os meios de proclamar a Justiça com efetividade, com o poder de persuasão devido. Pois bem, se aqueles que deveriam buscar o aperfeiçoamento dos mecanismos preferem ocultar-se por trás de negociatas, que o façam sem a falsa proteção do mandato. A república não suporta mais tanto desvio de conduta.

Eis o poder revolucionário, (disse então como presidente do Tribunal Superior Eleitoral), eis o poder revolucionário do voto com o qual, eleição após eleição, estamos os brasileiros, a nos aperfeiçoar de tal forma que, muito em breve, os candidatos aprenderão a respeitá-lo, se não puderem honrá-lo de espontânea vontade. Que a importância do voto sirva de argumento àqueles que pregam, como vendita por tanta infâmia, a anulação do escrutínio, ao reverso do abatimento e da inércia é de conclamar o povo, principalmente, os mais jovens a se manifestar pela cura não pela doença, não pela podridão do vale tudo que corrói com a acidez do cinismo a perspectiva de um futuro embasado em valores como: retidão, dignidade, grandeza de caráter, amor a causa pública, firmeza de propósitos no empenho incondicional ao progresso efetivo e, não meramente marqueteiro do país. Ao usar a voz da urna, o povo brasileiro certamente ouvirá o eco vitorioso da cidadania, da verdade que, sendo o maior dos argumentos, mais dia, menos dia aparecerá, ao fim da indispensável liberdade viciados que estamos todos na autodeterminação viabilizada, sem retorno pela democracia.

Aqueles que continuam zombando diante de tão simples obviedades, é bom lembrar que não são poucos os homens públicos brasileiros sérios, cuja honra não se afasta com o tilintar de moedas, com promessas de poder ou mesmo retaliações, e que a imensa maioria dos servidores públicos abomina a falta de princípios dos inescrupulosos que pretendem vergar o Estado ao peso de ideologias espúrias, de mirabolantes projetos de poder. Aos que laboram em tamanhas tolices, nunca é demais frisar que se a ordem jurídica não aceita o desconhecimento da lei como escusa até do mais humilde dos cidadãos, muito menos há de admitir a desinformação dos fatos pelos agentes públicos, a brandirem a ignorância dos acontecimentos como tábua de salvação.

Já se antevê o significado do certame que se aproxima incumbindo a cada eleitor a perceber que o voto, embora individualizado, a, tantos outros se seguirá, formando o grande todo necessário a escolha daqueles que o representarão. Impõe-se nesse sagrado direito/dever a conscientização, a análise do perfil, da vida pregressa daqueles que se apresentem é de presumir, repito, para servir com honestidade de propósito e amor aos concidadãos, dispostos, acima de tudo, a honrar a coisa pública. Somente dessa forma o eleitor responderá às exigências do momento, ficando credenciado em passo seguinte, ele eleitor, a cobrança.


No que depender dessa (então Presidência, em 2006), desta Presidência, o Judiciário compromete-se com redobrado desvelo na aplicação da lei. Não haverá contemporizações a pretexto de eventuais lacunas da lei, até porque, se omissa a legislação, cumpre ao magistrado, interpretá-la à luz dos princípios do Direito, dos institutos de hermenêutica, atendendo aos anseios dos cidadãos, aos anseios da coletividade. Que ninguém se engane: não ocorrerá tergiversação capaz de turvar o real objetivo da lei, nem artifício conducente a legitimar a aparente, e apenas aparente vontade das urnas, se o pleito se mostrar eivado de irregularidades. Esqueçam, por exemplo, a aprovação de contas com as famosas ressalvas. Passem ao largo das chicanas, dos jeitinhos, dos ardis possibilitados pelas entrelinhas dos diplomas legais. Repito: no que depender desta Cadeira (da Cadeira que ocupava no TST) não haverá condescendência de qualquer ordem. Nenhum fim legitimará o meio condenável. A lei será aplicada com a maior austeridade possível - como de resto é o que deve ser. Bem se vê que os anticorpos de que já falei começam a produzir os efeitos almejados. Esta é a vontade esmagadora dos brasileiros. No mais, é aguçar os sentidos, a coragem e, diria, a coragem como síntese de todas as virtudes, é aumentar a dedicação, acurar a inteligência e desdobrar as horas e as forças, no intuito único de servir a inspiração geral por um pleito limpo, civilizado e justo. É o que o Brasil merece e espera. É o que, solenemente, prometo ao assumir esta presidência.

A partir desse ponto, o Ministro prossegue expondo os argumentos para seu voto, no qual condena os envolvidos no mensalão.

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Túnel do tempo: Mensalão, há oito anos

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:35
Terça-feira, 17 de setembro de 2013

Imagem: http://calango74.blogspot.com.br/2012/08/mensalao-uma-historia-em-charges.html


Maurício Marinho – A gente procura agora ter muito cuidado com telefone, falar o mínimo possível (...). Uns tem escritório, a gente vai direto no escritório. Para evitar conversar, evitar problemas.

Interlocutor 1  - É que achei que era o contrário. Eu achei que ia ser problema entregar aqui o dinheiro.

Maurício Marinho – Aqui é mais seguro que lá fora, aqui não tem problema.

(Nisso, um dos interlocutores saca o dinheiro e estende o maço a Maurício Marinho, enquanto o outro interlocutor explica o significado desse pagamento).

Interlocutor 2 – Eu queria trazer para você o valor inteiro...

Maurício Marinho – Entendi, entendi.

Interlocutor – É só para assegurar aquela conversa que a gente tá tendo...

Maurício Marinho – Tá joia!

Interlocutor 2 – É uma questão até de estratégia, você vai entender isso (..). Agora fica mais simples a gente fazer o resto. Entenda isso como um sinal, um agradecimento à boa vontade.

Maurício Marinho – Não tem erro.

Com esse dialogo – transcrito de um vídeo que mostra o chefe de departamento nos Correios, Maurício Marinho, recebendo uma propina de 3.000 reais – a revista Veja acendeu o pavio de uma bomba que explodiu no Palácio do Planalto com tamanha força, que derrubou os principais assessores do então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva e, por pouco, não derruba também o próprio presidente. A reportagem exclusiva foi apresentada na Veja de 18 de maio de 2005, sob o título:

EXCLUIVO: o vídeo da corrupção em Brasília – A incrível sequencia do dinheiro saindo das mãos do corruptor para o bolso do corrupto. Mais: diálogos inesquecíveis.

Em meados daquele ano, o Brasil assistiu estupefato, a uma sucessão de escândalos envolvendo desvio de dinheiro dos cofres públicos e que ficou conhecido como “escândalo do mensalão”.

Os dois empresários identificados na conversa como interlocutores 1 e 2, haviam ido ao prédio central dos correios com a finalidade de obter informações de como integrar o rol de empresas que forneciam equipamentos de informática aos Correios. Marinho foi claro e objetivo: “É preciso pagar propina”. Pagar dinheiro por fora, na linguagem informal. Com uma câmera escondida, os empresários fizeram o vídeo ao qual a Veja teve acesso. Ainda nessa, conversa que tratava de negócios de caráter duvidoso, Marinho cita um dos personagens principais dessa novela: o deputado Roberto Jeferson, presidente do PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Segundo ele, as ordens para a execução dos serviços vinham do deputado e tudo era feito com o consentimento do governo. Sem saber que estava sendo filmado, Marinho fala ainda de licitações fraudulentas e do que acontecia nas reuniões nas quais se falava abertamente da realização de negócios escusos, chegando-se mesmo a estabelecer metas para tais transações.

A denúncia publicada pela Veja deixou o pessoal do Palácio do Planalto em polvorosa. O medo era de que viesse a se descobrir, como se descobriu mais tarde, que os tentáculos da corrupção se estendiam, não apenas aos correios, mas a diversos outros partidos, empresas estatais e privadas. Quando o Congresso tomou a iniciativa de fazer uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquerito), o governo fez a máquina funcionar para que tal não ocorresse. Fez de tudo para tentar impedir a instauração da CPI: fez uso de ameaças, acenou com a possibilidade de mais dinheiro para quem votasse contra, prometeu cargos de confiança. Apesar de todos esses esforços do governo, a CPI foi instaurada: 236 deputados e 52 senadores assinaram a realização da Comissão Parlamentar de Inquerito.

                                                                                    Roberto Jefferson
Imagem: http://www.blogdomauro.com.br/politica/advogado-de-roberto-jefferson-diz-que-lula-mandou-criar-o-esquema/910


A casa começou a cair para valer quando o deputado Roberto Jeferson resolveu falar o que sabia. Dessa vez, Jeferson falou ao jornal Folha de São Paulo e abriu o jogo. Disse que Delúbio Soares, tesoureiro do PT, pagava uma mensalidade de 30.000 reais aos deputados do PP (Partido Progressista) e do PL (Partido Liberal). como essa revelação, jogou o PT (Partido dos Trabalhadores), o partido do governo, no centro do furacão.

No princípio, os integrantes da cúpula petista e do governo usaram a linguagem do “ninguém sabe, ninguém viu”. Aos poucos, porém, as máscaras foram caindo uma a uma. Fontes diversas começaram a falar e a revelar que o mensalão realmente existia. Segundo essas fontes a distribuição do dinheiro era feita pelo tesoureiro do Partido dos Trabalhadores, Delúbio Soares, em Brasília, na residência dos líderes dos partidos envolvidos no esquema criminoso.

As acusações não demorariam a chegar ao cérebro pensante da operação: o ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu. Dirceu era o “homem de ferro” do presidente. A situação do Ministro se tornou insustentável e, em junho daquele ano, ele deixava a Casa Civil.

Outro dirigente petista que também não escapou foi Silvio Pereira, o Silvinho. Silvio era secretário geral do partido e desempenhava papel fundamental na distribuição de cargos e funções. É interessante observar que, apesar de possuírem todo esse poder, tanto Delúbio quanto Silvio, não exerciam cargos públicos no governo, os dois eram apenas dirigentes partidários.

                                                                         Marcos Valério
Imagem: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Valerio122815.jpg


Falar de mensalão e não falar do publicitário Marcos Valério é contar a história pela metade. Valério era sócio de duas agências de propaganda: a DNA e SMP&B. As agências de Valério serviam como fachadas pra a distribuição do dinheiro aos parlamentares. A negociação ainda envolvia os bancos BMG (Banco de Minas Gerais) e Rural. Através desses bancos, Valério conseguia empréstimos fraudulentos que serviam para abastecer os cofres do PT.

Em 11 de abril de 2006, o Ministério Público Federal apresentou denuncia ao Supremo Tribunal Federal (STF), contra as 40 pessoas envolvidas no escândalo. No fim de agosto de 1987, o STF acolheu a denuncia contra a quadrilha dos mensaleiros e abriu processo contra eles.


Porque houve mensalão? A pergunta é simples de ser respondida: o sistema político brasileiro, da forma como está estabelecido, favorece a prática da corrupção. O gevreno loteia cargos de confiança. Esses cargos de confiança são necessários? Claro que sim, eles são peça-chave para que se tenha uma boa governabilidade. Mas sendo distribuídos aos milhares, como acontece no Brasil é prejudicial à democracia. Há três tipos de políticos que almejam estes cargos: os que querem realmente trabalhar, desenvolver um projeto; os que apenas querem visibilidade para as próximas eleições; e os últimos, a quem poderíamos chamar de ervas daninhas, que são aqueles que se aproveitam das atribuições que lhe foram confiadas para fazer negócios escusos. São esses últimos que envergonham a classe política e atrasam todo o desenvolvimento de uma nação.

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