0

Ciberespaço vigiado – Parte I

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:52
Sexta-feira, 23 de agosto

Os filmes americanos de espionagem internacional sempre me fascinaram. Os enredos cheios de intriga e mistério que envolve esse gênero de filmes prende a atenção e cativa o telespectador. Neles, os personagens lidam com equipamentos eletrônicos que me parecem coisa de outro planeta. Os agentes da CIA e do FBI armam planos geniais para desvendar tramas complicadíssimas. Não tirava os olhos da TV até que o filme acabasse por completo. Fiquei bastante surpreso quando, há cerca de dois meses, vieram à tona as denúncias de espionagem internacional praticadas pelo governo norte-americano. Cheio de personagens fortes, tramas complicadas envolvendo espionagem em diversos países, o caso me pareceu qual um filme que salta das telas e ganha dimensão de realidade. No texto abaixo, trato do que ficou conhecido como Caso Snowden, começando pela detenção para interrogatório em Londres, do brasileiro David Miranda, companheiro do Jornalista americano Gleen Greenwald. Abordo o tema de forma romanceada, sendo que personagens, fatos, pensamentos e opiniões nele contidos, são reais. O único nome fictício é o de Albert Ashton, agente de segurança do aeroporto de Heathrow, em Londres. O nome pode ser fictício, porém o telefonema do agente de segurança do aeroporto ao jornalista, existiu de fato. Dividi o texto em duas partes. A primeira será publicada agora, e a segunda na postagem seguinte.
Boa leitura.

                                                                                     Especial Caso Snowden

Imagem: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/mundo/2013/08/20/interna_mundo,457216/brasileiro-detido-em-londres-leva-o-caso-a-justica.shtml


Brasil.
Segunda-feira, 19 de agosto.
Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro.  04h15min da manhã.

A espera no aeroporto

Green Greenwald, jornalista americano, residente no Rio de Janeiro, caminha nervosamente pelo saguão do aeroporto. Não consegue ficar parado um instante sequer. Há alguns minutos havia se dirigido à lanchonete. Pediu um cafezinho bem quente. Apesar do café está uma delícia, não conseguiu sorver mais que dois goles da bebida. Sentara-se nas cadeiras na tentativa de ler um livro que trazia nas mãos, porém a única leitura que sua mente conseguia fazer era dos fatos sucedidos no dia anterior.

***
O dia anterior, domingo 18 de agosto

Era manhã de domingo e ele dormia tranquilamente quando foi acordado pelo toque insistente do celular. Ainda sonolento, estendeu a mão e pegou o aparelho que ficava em cima do criado-mudo.

_ Alô!

_ Sr. Gleen Greenwald?

_ Sim, ele mesmo.

_ Sr. Greenwald, sou Albert Ashton. Agente de segurança do aeroporto de Heathrow, em Londres.

Ao ouvir o nome do aeroporto e da cidade sua respiração tornou-se mais acelerada. Uma nota de preocupação soou em sua voz.

_ Do Aeroporto de Londres? Que foi que aconteceu? Há algo de errado? Falava apressadamente.

_ Calma, senhor Greenwald. Estou ligando apenas para informar que o seu companheiro, o brasileiro David Miranda, foi detido pela Scotland Yard, a Polícia Metropolitana de Londres. Neste momento, ele está em uma de nossas salas sendo interrogado com base na Lei do Ato Terrorista, de 2000. Essa lei permite a interceptação de indivíduos, pesquisa e aplicação de interrogatório em aeroportos, portos e áreas de fronteira...

_ David Miranda?! Detido para interrogatório com base na lei de terror? Deve estar havendo algum engano, Sr. Ashton. Preciso falar com ele imediatamente.

_ Impossível senhor. A ordem é para que não sejam incomodados em hipótese alguma.  Ao dizer isso, o agente de segurança desligou o celular, pondo fim à ligação.

Os pensamentos na cabeça do jornalista fervilhavam tal qual uma panela de água fervendo. Ele, correspondente do jornal britânico The Guardian, havia enviado o namorado brasileiro, David Miranda, a cidade de Berlim, na Alemanha com uma missão: encontrar-se na cidade alemã com a documentarista e cineasta americana Laura Poitras. O objetivo do encontro era levar informações e receber documentos eletrônicos referentes ao trabalho que Gleen Greenwald e Laura realizam sobre os documentos secretos entregues a eles por Eduard Snowden, ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional Americana (NSA), exilado atualmente na Rússia. Os documentos, entregues à dupla por Snowden, revelavam um plano de espionagem eletrônica do governo americano em todo o mundo. Um caso muito sério: o governo americano estava monitorando registros telefônicos e atividades de e-mails de cidadãos comuns nos Estados Unidos e em vários países. Desde que as primeiras reportagens começaram a ser publicadas, em 06 de junho, Greenwald e Laura Poitras estavam tendo muito trabalho e também muita dor de cabeça. Afinal estavam lidando com espionagem em nível mundial.

Era impossível que David tivesse sido detido em Londres por acaso. Ele devia estar tendo seus passos vigiados desde que saiu do Brasil em direção à Alemanha. Era isso, David estava sendo mesmo vigiado. O jornalista teve essa certeza quando se lembrou de uma conversa que mantivera com o brasileiro, na sexta-feira (16). Na ocasião, David queixara-se:

_ Gostaria de mudar o horário do meu voo para que possa chegar à Londres um pouco mais tarde, porém não estou conseguindo. A companhia área não quer mudar o voo, nem me dá explicações do motivo pelo qual não pode fazer isso.

***

A chegada de David Miranda ao Brasil

Enfim, por volta das cinco da manhã, os autofalantes do aeroporto do Rio, anunciavam a chegada do voo procedente de Londres, no qual estava David Miranda. Passaram-se longos minutos até que David apareceu na área de embarque.

O longo e afetuoso abraço trocado entre os dois traduzia toda a ternura que um sentia pelo outro e o alívio de estarem se reencontrando. Não conseguiram trocar muitas palavras além de boas vindas, pois o local onde estavam foi invadido por uma multidão de jornalistas e centenas de flashes explodiram em suas faces. David, apesar de estar bastante cansado e constrangido com a situação pela qual acabara de passar, não fugiu das perguntas dos jornalistas.

_ O que exatamente aconteceu com o Sr. no aeroporto de de Heathrow, em Londres?
_ Eu fiquei numa sala na qual havia seis agentes da Scotland Yard. Eles me fizeram perguntas sobre minha vida inteira. Queriam saber de tudo. E também fizeram muitas perguntas a respeito de minha ida a Alemanha. Levaram tudo o que eu trazia: meu computador, vídeo-game, celular, meus memory card. Tudo.

_ Quanto tempo durou esse interrogatório?

_  Durou cerca de nove horas
.
_ A polícia londrina lhe permitiu fazer algum contato com um advogado?

_ Não. Eles só me permitiram falar com um advogado quando o interrogatório estava quase no fim. Fiquei muito chateado pois estava apenas trabalhando.

_ Sr. Greenwald, o que o Sr. pretende fazer?

_ Estou muito irritado, mas temos cópias do todos os documentos que nos foram tirados. A partir de agora, vou fazer reportagens mais agressivas que antes, vou publicar mais documentos que antes. Vou publicar coisas sobre a Inglaterra também.

Mais tarde, em casa e já um pouco menos tensos, ouviram pela TV uma nota divulgada pelo governo brasileiro:

_  O Governo brasileiro manifesta grave preocupação com o episódio ocorrido no dia de hoje em Londres, onde cidadão brasileiro foi retido e mantido incomunicável no aeroporto de Heathrow por período de 9 horas, em ação baseada na legislação britânica de combate ao terrorismo. Trata-se de medida injustificável por envolver indivíduo contra quem não pesam quaisquer acusações que possam legitimar o uso de referida legislação. O Governo brasileiro espera que incidentes como o registrado hoje com o cidadão brasileiro não se repitam.

Enquanto a reportagem prosseguia mostrando mais detalhes do caso, Gleen Grenwald virou-se para o companheiro e comentou:

_ Essa sua detenção, foi uma maneira de me intimidar, de intimidar a imprensa. Porém eu não vou me intimidar com isso não. Esse fato é, na verdade, um atentado contra a liberdade de imprensa, contra as liberdades individuais e, com esse tipo de atitude, eu não quero compactar.

_ Para mim, ficou bem claro que a questão vai além do combate ao terrorismo. Eu não sou terrorista, não tenho perfil de terrorista. E, no entanto, eles aplicaram a mim o tempo máximo de interrogatório perimido pela lei antiterror.

_ Você tem razão. O terrorismo é uma desculpa, uma justificativa. Foram coletadas informações demais sobre governos e cidadãos comuns. Em minha opinião, trata-se de uma questão de poder: o governo americano quer aumentar o poder que tem. Uma boa forma de fazer isso é coletar informações sobre pesquisas que os países estão desenvolvendo, que políticas econômicas estão sendo adotadas, o que os cidadãos estão pensando.

_ Belo raciocínio. Tem outra coisa que também precisa ser discutida: a questão do medo. Quando se fala sempre de perigos, ameaças, controle do terrorismo, na verdade, o objetivo é instaurar o medo. E o medo é um sentimento muito forte para o ser humano. Por exemplo, se eu, por alguma razão, te deixar com medo, posso invadir sua privacidade e você ainda vai me agradecer por isso. O medo é um mecanismo de controle muito eficiente.

_ Greenwald ficou pensativo por alguns segundos, depois continuou:

_ Se nós estamos sofrendo tanta pressão pelo fato de apenas divulgarmos as informações. Imagine como deve estar a vida do personagem central dessa trama: Eduard Snowden...

0 Comments

Postar um comentário

Copyright © 2009 Cottidianos All rights reserved. Theme by Laptop Geek. | Bloggerized by FalconHive. Distribuído por Templates