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O som que vem do Mediterrâneo

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:54
Sexta-feira, 30 de agosto


Imagemhttp://sociaisculturaisetc.blogspot.com.br/2013/08/zubin-mehta-rege-orquestra-filarmonica.html



Na noite de domingo, 18 de agosto, ondas sonoras invadiram o ar da cidade de Campinas, no Estado de São Paulo, espalhando um som de qualidade superior, distribuindo, especialmente, ao público presente na Praça Arautos da Paz, os efeitos benéficos que a música dos grandes mestres pode proporcionar. Esse som veio de longe, de muito longe da pátria Brasil. De onde veio? Do mar mediterrâneo, de uma república parlamentar, conhecida em todo o mundo como Israel. Agora ficou fácil adivinhar! Isso mesmo! A Orquestra Filarmônica de Israel, uma das maiores orquestras do mundo, regida pelo conceituado maestro Zubin Metha, esteve em Campinas.

O concerto foi apresentado ao ar livre. Fazia frio àquela noite! Muito frio! E chuviscava também. Apesar disso, cerca de dez mil pessoas compareceram ao local para assistir a apresentação. – Tivesse feito calor aquela noite esse público teria sido, pelo menos, umas cinco vezes maior.

A expectativa era grande por parte de todos. Homens, mulheres, jovens, velhos, crianças aguardavam ansiosos pela entrada dos músicos no palco. Quando isso aconteceu, os músicos foram recebidos com aplausos, muitos aplausos. O concerto começou com a execução emocionante do Hino Nacional Brasileiro. Zubin Metha pediu que o público cantasse o Hino durante a execução e a beleza do momento foi sublime. Em seguida, a orquestra apresentou o Hino de Israel, o público ouviu respeitosamente. Em seguida, foram apresentadas as peças:

_ Sinfonia Nº 4 em Fá menor, op. 36, escrita pelo compositor Tchaikovsky.

_ Johann Strauss (filho), dito Johann StraussII – a abertura da operetaDie Fledermaus. (O Morcego). Ainda desse compositor foi executada as peças Tritsch-Tratsch Polka e Vozes da Primavera.

_ O final da segunda Suite da peça musical Dafnis y Cloe, de Maurice Ravel.

Zubin Metha surpreendeu a todos quando finalizou o concerto com a música Tico-Tico no Fubá, do compositor Zequinha de Abreu. Uma das canções brasileiras mais conhecidas. Uma canção alegre e envolvente que já foi gravada por grandes nomes da música, como Carmem Miranda e Ray Conniff. A canção, um sucesso nos anos 40,fez parte da trilha sonora de cinco flimes americanos; Alô Amigos (Saludo Amigos); A Filha do Comandante (Thousandscheer); Kansas City Kity; Copacabana e Escola de Sereias (Bathing Beauty).

Os acordes precisos, as execuções perfeitas, os tempos fortes e fracos da música e o brilhantismo e a eficiência dos músicos afastou o frio para bem longe. Ao final todos se sentiram satisfeitos.

A apresentação me fez pensar uma analogia. O corpo humano é uma máquina perfeita, desde que os seus órgãos, nervos, tecidos estejam em perfeita harmonia. Somos seiscentos e quarenta músculos, três bilhões de células nervosas. Tudo isso e muito mais sustentados por um esqueleto que possui a leveza do alumínio, entretanto mais forte que o concreto e resistente como o aço. No comando de toda essa complexa engenharia está o cérebro. São 100 bilhões de neurônios, pequenos operários, trabalhando a todo instante, em intensa atividade, formando conexões que levam e trazem sensações a todo o corpo através do sistema nervoso. O cérebro funciona como uma eficiente sala de controle. Através dele são controlados; os movimentos, o sono, a fome, a sede e muitas a outras atividades vitais à sobrevivência de nossa espécie. Além de toda essa complexidade, ele ainda é o responsável pelo controle de nossas emoções; raiva, medo, dor, tristeza, alegria, dentre tantas outras.

Um maestro está para uma orquestra, assim como o cérebro está para o corpo humano. É ele o líder, aquele que vai conduzir os seus músicos aos acordes perfeitos, a sonoridade expressiva. Conhece a função de cada instrumento, suas caraterísticas, seus timbres, alturas e intensidades. Antes de submeter uma música a sua orquestra o maestro já teve um contato solitário com o compositor através do estudo da partitura. A experiência o fez decorar acordes e melodias. O som que passa despercebido aos ouvidos da imensa maioria encontra eco na audição perfeita do regente. E o que dizer das suas mágicas mãos? Nelas e nos instrumentos se concentra a atenção dos músicos durante uma apresentação. Literalmente, em suas mãos está o andamento da peça musical. Como o cérebro, ele funciona como centro de controle do sistema musical. A mão ágil do maestro garante que os instrumentos de cordas, sopros, metais e percussão executem rigorosamente o tempo rítmico, a dinâmica e o andamento imaginado pelo compositor no momento de criação da peça musical.


Ao final o inconfundível som dos aplausos mostra que a eficiência do maestro, a qualidade da orquestra e a beleza do som agradaram aos ouvidos do público, tornando suas almas mais leves e seus espíritos mais elevados.

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Ciberespaço Vigiado - Parte II

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:17
Terça-feira, 27 de agosto

Domingo, 25 de agosto. 13h45min
Em algum de lugar de Moscou, Rússia.



Imagem: http://www.almanar.com.lb/english/adetails.php?eid=99469&cid=22&fromval=1


Um momento de lazer

Fazia quase dois meses que estava em solo russo, contando o tempo que passara no aeroporto. Moscou o surpreendera pela beleza de suas arquiteturas e pela organização da cidade. Admirava o charme dos velhos edifícios e palácios, as igrejas com suas torres em forma de cebola, isso sem falar do Kremlin e da Praça Vermelha. A cidade amanhecera, naquele domingo, com tempo frio e nublado. No início da tarde, começara a cair uma chuva fina e insistente baixando um pouco mais a temperatura e, ao que parecia, permaneceria assim o restante do dia. Eduard Snoweden ainda não se acostumara ao clima da cidade e resolveu permanecer em casa.

Almoçara tranquilamente e agora assistia, pela terceira vez, ao filme Missão Impossível (Mission: Impossible, título do original em inglês), com Tom Cruise, no papel principal. No filme, Cruise é Ethan Hunt, agente secreto norte-americano em missão na cidade de Praga, Tchecoslováquia.  Em Praga, a equipe de trabalho de Hunt é assassinada por outros agentes da mesma organização a qual ele pertence. Incriminado pela morte dos companheiros, a missão de Hunt torna-se fugir dos assassinos, invadir a impenetrável fortaleza da CIA, no Estado da Vírginia/USA, e roubar documentos eletrônicos secretos que o levariam aos autores do assassinato de sua equipe. Apesar de já ter visto o filme algumas vezes, Snowden não conseguia tirar os olhos da tela. Era realmente um filme excelente.

Ao final do filme, desligou o aparelho de DVD. O enredo do filme o fizera lembrar-se de Bradley Manning, soldado norte-americano, acusado de fornecer mais de 700 mil arquivos secretos; vídeos de confrontos e comunicações diplomáticas, ao site Wikileaks – um site de pró-transparência, em 2010. O soldado trabalhava como analista de dados no Iraque. Através da Internet, fez contato com o hacker Adrian Lamo, também americano. Bradley disse a Lamo que tinha em seu poder uma base de dados que mostravam o modo como o primeiro mundo explorava o terceiro mundo. Os dados foram entregues a Julian Assange – jornalista, escritor e ciberativista australiano. Assange encarregou-se de divulgar as informações no site Wikileaks. Depois de alguns dias, Bradley foi denunciado ao FBI por Lamo. Snoweden soube, através da imprensa, que Bradley havia sido condenado a trinta e cinco anos de prisão pelo vazamento das informações. Respirou aliviado por si mesmo. Havia conseguido fugir antes que a polícia o prendesse. Era isso que aconteceria se tivesse permanecido em solo americano.

Levantou-se, enfim, da poltrona na qual havia se sentado para assistir ao filme. Olhou em volta para o modesto apartamento que ocupava atualmente na capital russa. Caminhou até a janela e abriu-a. Uma rajada de vento gelado roçou-lhe as faces, mesmo assim, permaneceu na janela permitindo que sua vista passeasse pela cidade fria e chuvosa.

Imagem: http://tcheinverno.blogspot.com.br/2011/09/conheca-lendaria-moscou.html


Saudades de casa

Enquanto seus olhos vagavam por Moscou, seus pensamentos voaram até o Havaí. Levava uma vida confortável e tranqüila.  Ganhava um bom salário trabalhando na Booz Allen Hamilton, uma multinacional subcontratada pelo Pentagono, para assegurar serviços a National Security Agency (NSA). Trabalhava na empresa como analista de comunicações. Alem disso, tinha o afeto e carinho da bela dançarina Lindsay Mills, sua namorada, com quem dividia a casa e a vida. Lembrava-se nitidamente das lágrimas que rolaram pelas faces dela, quando se despediram no dia 20 de maio. A partir daí sua vida mudara “da água para o vinho”, (mudara completamente).

Perdera o carinho da namorada, o aconchego da família, o conforto, a tranquilidade.  Ás vezes se perguntava a si mesmo: Teria valido a pena tamanho sacrifício? Chegava sempre à conclusão de que sim.  Consciência tranquila e sensação de dever cumprido são tesouros valiosos.

Antes de se despedir de Lindsay fizera outra coisa importante. Uma jogada de mestre á qual lhe valera a liberdade.  Estivera na empresa onde trabalhava, no mesmo dia em que se despedira da namorada, e pedira baixa com a desculpa de que precisava se submeter a um tratamento contra epilepsia. Desse modo, conseguiu sair da empresa e do país sem levantar suspeitas. Sabia de antemão que, quando as informações entregues a Gleen Greenwald, – jornalista pelo qual tinha grande admiração - viesse à tona e ele, Eduard, estivesse ainda em solo americano, seria preso imediatamente.

Denunciar a teia de espionagem com que o governo americano envolve o mundo havia sido uma decisão corajosa e nada fácil. Saíra dos Estados Unidos em direção a Hong Kong no dia 20 de maio. Esperava encontrar asilo político ali. O governo chinês, porém, não havia lhe concedido asilo no país. De Hong Kong, partiu em voo comercial em direção a Moscou, onde no dia 24 de junho fez com que sua pista fosse perdida no Aeroporto Internacional de Moscou. Pediu asilo em dezenas de países e todos negaram.  Pediu asilo também na Rússia, onde estava. Vladimir Putin aceitou, com uma condição: a de que ele parasse de fazer denúncias contra os Estados Unidos. Havia retirado o pedido de asilo que fizera ao governo russo, pois não concordara com os termos impostos. Finalmente depois de conversas que ele preferia manter em segredo, o governo russo lhe concedeu asilo por um ano.  Enfim, era assim que estava sua vida depois que resolvera denunciar o programa PRISM – programa através do qual a NSA armazena informações digitais de toda a população do planeta; telefones, e-mails, sites de busca, dentre outros.

Imagem: http://abcnews.go.com/US/nsa-leaker-edward-snowden-whistle-blower/story?id=19374578

Reflexões


Ele, Eduard mudara radicalmente a própria vida e com isso proporcionara ao mundo a chance de uma reflexão em relação a atitudes quanto a exploração do ciberespaço e das tecnologias digitais. Está na hora de o mundo pensar uma legislação que proteja a privacidade dos cidadãos. A Internet é hoje uma ferramenta indispensável na vida de todos nós, não é o caso de se pensar numa autocensura. Isso não seria bom para ninguém.

Os governos precisam pensar em políticas que protejam a privacidade dos cidadãos. Tivera contato com integrantes de uma organização francesa, a Comissão Nacional de Informática e Liberdades que cuida de proteger dados pessoais. Essa organização amplia seus objetivos ao pensar a construção de uma ética digital, ao capacitar as pessoas para enfrentar os excessos dos grandes operadores de Internet e os excessos do próprio Estado. Outra questão que o incomodava era ver, através dos meios de comunicação, sua imagem tratada, ora como vilão, ora como herói. Ele, Eduard Joseph Snowden, não se considerava nenhuma coisa nem outra.  Era apenas um cidadão americano querendo viver em paz.


Durante o tempo em que fizera essas considerações a temperatura havia caído um pouco e ele nem se dera conta. Tratou de fechar rapidamente a janela. Pelo tempo que fazia lá fora, a promessa era de uma noite muito fria e solitária.

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Ciberespaço vigiado – Parte I

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:52
Sexta-feira, 23 de agosto

Os filmes americanos de espionagem internacional sempre me fascinaram. Os enredos cheios de intriga e mistério que envolve esse gênero de filmes prende a atenção e cativa o telespectador. Neles, os personagens lidam com equipamentos eletrônicos que me parecem coisa de outro planeta. Os agentes da CIA e do FBI armam planos geniais para desvendar tramas complicadíssimas. Não tirava os olhos da TV até que o filme acabasse por completo. Fiquei bastante surpreso quando, há cerca de dois meses, vieram à tona as denúncias de espionagem internacional praticadas pelo governo norte-americano. Cheio de personagens fortes, tramas complicadas envolvendo espionagem em diversos países, o caso me pareceu qual um filme que salta das telas e ganha dimensão de realidade. No texto abaixo, trato do que ficou conhecido como Caso Snowden, começando pela detenção para interrogatório em Londres, do brasileiro David Miranda, companheiro do Jornalista americano Gleen Greenwald. Abordo o tema de forma romanceada, sendo que personagens, fatos, pensamentos e opiniões nele contidos, são reais. O único nome fictício é o de Albert Ashton, agente de segurança do aeroporto de Heathrow, em Londres. O nome pode ser fictício, porém o telefonema do agente de segurança do aeroporto ao jornalista, existiu de fato. Dividi o texto em duas partes. A primeira será publicada agora, e a segunda na postagem seguinte.
Boa leitura.

                                                                                     Especial Caso Snowden

Imagem: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/mundo/2013/08/20/interna_mundo,457216/brasileiro-detido-em-londres-leva-o-caso-a-justica.shtml


Brasil.
Segunda-feira, 19 de agosto.
Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro.  04h15min da manhã.

A espera no aeroporto

Green Greenwald, jornalista americano, residente no Rio de Janeiro, caminha nervosamente pelo saguão do aeroporto. Não consegue ficar parado um instante sequer. Há alguns minutos havia se dirigido à lanchonete. Pediu um cafezinho bem quente. Apesar do café está uma delícia, não conseguiu sorver mais que dois goles da bebida. Sentara-se nas cadeiras na tentativa de ler um livro que trazia nas mãos, porém a única leitura que sua mente conseguia fazer era dos fatos sucedidos no dia anterior.

***
O dia anterior, domingo 18 de agosto

Era manhã de domingo e ele dormia tranquilamente quando foi acordado pelo toque insistente do celular. Ainda sonolento, estendeu a mão e pegou o aparelho que ficava em cima do criado-mudo.

_ Alô!

_ Sr. Gleen Greenwald?

_ Sim, ele mesmo.

_ Sr. Greenwald, sou Albert Ashton. Agente de segurança do aeroporto de Heathrow, em Londres.

Ao ouvir o nome do aeroporto e da cidade sua respiração tornou-se mais acelerada. Uma nota de preocupação soou em sua voz.

_ Do Aeroporto de Londres? Que foi que aconteceu? Há algo de errado? Falava apressadamente.

_ Calma, senhor Greenwald. Estou ligando apenas para informar que o seu companheiro, o brasileiro David Miranda, foi detido pela Scotland Yard, a Polícia Metropolitana de Londres. Neste momento, ele está em uma de nossas salas sendo interrogado com base na Lei do Ato Terrorista, de 2000. Essa lei permite a interceptação de indivíduos, pesquisa e aplicação de interrogatório em aeroportos, portos e áreas de fronteira...

_ David Miranda?! Detido para interrogatório com base na lei de terror? Deve estar havendo algum engano, Sr. Ashton. Preciso falar com ele imediatamente.

_ Impossível senhor. A ordem é para que não sejam incomodados em hipótese alguma.  Ao dizer isso, o agente de segurança desligou o celular, pondo fim à ligação.

Os pensamentos na cabeça do jornalista fervilhavam tal qual uma panela de água fervendo. Ele, correspondente do jornal britânico The Guardian, havia enviado o namorado brasileiro, David Miranda, a cidade de Berlim, na Alemanha com uma missão: encontrar-se na cidade alemã com a documentarista e cineasta americana Laura Poitras. O objetivo do encontro era levar informações e receber documentos eletrônicos referentes ao trabalho que Gleen Greenwald e Laura realizam sobre os documentos secretos entregues a eles por Eduard Snowden, ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional Americana (NSA), exilado atualmente na Rússia. Os documentos, entregues à dupla por Snowden, revelavam um plano de espionagem eletrônica do governo americano em todo o mundo. Um caso muito sério: o governo americano estava monitorando registros telefônicos e atividades de e-mails de cidadãos comuns nos Estados Unidos e em vários países. Desde que as primeiras reportagens começaram a ser publicadas, em 06 de junho, Greenwald e Laura Poitras estavam tendo muito trabalho e também muita dor de cabeça. Afinal estavam lidando com espionagem em nível mundial.

Era impossível que David tivesse sido detido em Londres por acaso. Ele devia estar tendo seus passos vigiados desde que saiu do Brasil em direção à Alemanha. Era isso, David estava sendo mesmo vigiado. O jornalista teve essa certeza quando se lembrou de uma conversa que mantivera com o brasileiro, na sexta-feira (16). Na ocasião, David queixara-se:

_ Gostaria de mudar o horário do meu voo para que possa chegar à Londres um pouco mais tarde, porém não estou conseguindo. A companhia área não quer mudar o voo, nem me dá explicações do motivo pelo qual não pode fazer isso.

***

A chegada de David Miranda ao Brasil

Enfim, por volta das cinco da manhã, os autofalantes do aeroporto do Rio, anunciavam a chegada do voo procedente de Londres, no qual estava David Miranda. Passaram-se longos minutos até que David apareceu na área de embarque.

O longo e afetuoso abraço trocado entre os dois traduzia toda a ternura que um sentia pelo outro e o alívio de estarem se reencontrando. Não conseguiram trocar muitas palavras além de boas vindas, pois o local onde estavam foi invadido por uma multidão de jornalistas e centenas de flashes explodiram em suas faces. David, apesar de estar bastante cansado e constrangido com a situação pela qual acabara de passar, não fugiu das perguntas dos jornalistas.

_ O que exatamente aconteceu com o Sr. no aeroporto de de Heathrow, em Londres?
_ Eu fiquei numa sala na qual havia seis agentes da Scotland Yard. Eles me fizeram perguntas sobre minha vida inteira. Queriam saber de tudo. E também fizeram muitas perguntas a respeito de minha ida a Alemanha. Levaram tudo o que eu trazia: meu computador, vídeo-game, celular, meus memory card. Tudo.

_ Quanto tempo durou esse interrogatório?

_  Durou cerca de nove horas
.
_ A polícia londrina lhe permitiu fazer algum contato com um advogado?

_ Não. Eles só me permitiram falar com um advogado quando o interrogatório estava quase no fim. Fiquei muito chateado pois estava apenas trabalhando.

_ Sr. Greenwald, o que o Sr. pretende fazer?

_ Estou muito irritado, mas temos cópias do todos os documentos que nos foram tirados. A partir de agora, vou fazer reportagens mais agressivas que antes, vou publicar mais documentos que antes. Vou publicar coisas sobre a Inglaterra também.

Mais tarde, em casa e já um pouco menos tensos, ouviram pela TV uma nota divulgada pelo governo brasileiro:

_  O Governo brasileiro manifesta grave preocupação com o episódio ocorrido no dia de hoje em Londres, onde cidadão brasileiro foi retido e mantido incomunicável no aeroporto de Heathrow por período de 9 horas, em ação baseada na legislação britânica de combate ao terrorismo. Trata-se de medida injustificável por envolver indivíduo contra quem não pesam quaisquer acusações que possam legitimar o uso de referida legislação. O Governo brasileiro espera que incidentes como o registrado hoje com o cidadão brasileiro não se repitam.

Enquanto a reportagem prosseguia mostrando mais detalhes do caso, Gleen Grenwald virou-se para o companheiro e comentou:

_ Essa sua detenção, foi uma maneira de me intimidar, de intimidar a imprensa. Porém eu não vou me intimidar com isso não. Esse fato é, na verdade, um atentado contra a liberdade de imprensa, contra as liberdades individuais e, com esse tipo de atitude, eu não quero compactar.

_ Para mim, ficou bem claro que a questão vai além do combate ao terrorismo. Eu não sou terrorista, não tenho perfil de terrorista. E, no entanto, eles aplicaram a mim o tempo máximo de interrogatório perimido pela lei antiterror.

_ Você tem razão. O terrorismo é uma desculpa, uma justificativa. Foram coletadas informações demais sobre governos e cidadãos comuns. Em minha opinião, trata-se de uma questão de poder: o governo americano quer aumentar o poder que tem. Uma boa forma de fazer isso é coletar informações sobre pesquisas que os países estão desenvolvendo, que políticas econômicas estão sendo adotadas, o que os cidadãos estão pensando.

_ Belo raciocínio. Tem outra coisa que também precisa ser discutida: a questão do medo. Quando se fala sempre de perigos, ameaças, controle do terrorismo, na verdade, o objetivo é instaurar o medo. E o medo é um sentimento muito forte para o ser humano. Por exemplo, se eu, por alguma razão, te deixar com medo, posso invadir sua privacidade e você ainda vai me agradecer por isso. O medo é um mecanismo de controle muito eficiente.

_ Greenwald ficou pensativo por alguns segundos, depois continuou:

_ Se nós estamos sofrendo tanta pressão pelo fato de apenas divulgarmos as informações. Imagine como deve estar a vida do personagem central dessa trama: Eduard Snowden...

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Os desafios do advogado

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:47
Quarta-feira, 21 de agosto

Entrevista Cícero Marcos Lima Lana


Não existe segredo: quem sabe muito se destaca

Dr. Cícero Lana
                                       
A carreira jurídica apresenta-se como um desafio nos dias atuais, principalmente, para quem está iniciando. O desafio começa nos bancos das faculdades e no esforço para obter o diploma. Vencida essa etapa, o candidato não consegue a vermelhinha (a carteira de advogado) sem passar pelo Exame de Ordem que, nos últimos anos tem alcançado altos índices de reprovação. Passado o sufoco do exame é preciso enfrentar a selva do mercado de trabalho no qual é preciso “matar um leão por dia”.  Apesar disso, o advogado Cícero Lana garante que vale a pena.  Nessa entrevista, feita por e-mail, o Dr. Cícero revela os motivos que o levaram a escolher a advocacia como profissão, da sua opinião sobre os altos índices de reprovações no Exame de Ordem, dentre outros assuntos. Aos 35 anos, Dr. Cícero é um homem simpático e um profissional dedicado a carreira que escolheu.

José Flávio - Em sua palestra Os Desafios do Advogado o Sr. afirma: O advogado é um contador de histórias. A maioria das pessoas ficaria surpresa com essa afirmação. Pelo fato de sempre pensarem a advocacia em seus aspectos técnicos: prazos, petições, contestações, recursos, audiências, dentre outros. O que o leva a pensar o profissional da advocacia como um contador de histórias?

Cícero Lana - A função essencial do advogado é repassar a historia do seu cliente, a fim de que seus interesses sejam atendidos; nesse sentido, o que fazemos é, em suma, contar uma história. Todos os aspectos técnicos da profissão passam, em sua essência, pelo contar de uma história; por exemplo, o conteúdo de uma petição nada mais é do que a versão dos fatos contada de maneira a convencer o Juiz de que o meu cliente tem razão.
José Flávio - Ainda nessa palestra, o Sr. diz que, se pudesse, retornaria aos bancos de faculdade. Para que alguém que já possui um currículo como o seu, isso é uma afirmação interessante. Por quais motivos o Sr. voltaria aos bancos de faculdade?
Cícero Lana - Todos os estudantes, no momento em que estão na faculdade, não percebem quanta informação podem obter de seus professores e companheiros; muitas coisas são mais interessantes do que a sala de aula: festas, bares, jogos de truco, etc.. Comigo não foi diferente: perdi muitas aulas (e, consequentemente, muita informação) simplesmente pela vontade de fazer alguma outra coisa que, naquele momento, me pareceu mais interessante. Hoje, sabendo de tudo que perdi, gostaria de fazer a faculdade novamente.
José Flávio - Todos os anos, o mercado de trabalho recebe centenas de novos advogados. Segundo dados recentes do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, existem atualmente no país, cerca de 850.000 advogados. Pode-se dizer que é um mercado saturado. Diante dessa realidade, o exercício da advocacia torna-se um desafio para o advogado recém-formado. Ele terá de competir com profissionais experientes na área. Isso, seguramente, deve provocar nele alguma insegurança e muitos questionamentos. O que fazer? Como deve agir esse novo guerreiro numa terra de gigantes?
Cícero Lana - Estudar! A única coisa que pode tornar o recém-formado alguém de destaque é o estudo. Não existe segredo: quem sabe muito, irá se destacar! Para isso, só há uma coisa a ser feita: estudar!
José Flávio - O 9º Exame de Ordem, realizado em março deste ano, constituiu um dos mais baixos índices de reprovação desde que o exame foi unificado, em 2010. Essa situação de baixos índices de aprovação tem sido uma constante nos últimos anos. Alguns atribuem esse fato a baixa qualidade do ensino nas Faculdades, outros, ao desempenho dos candidatos. Que análise o Sr. faz da situação?
Dr. Cícero Lana - Acho que todos tem sua parcela de culpa: as faculdades que são muito numerosas e querem lucro a todo custo, os estudantes que não se importam em ter uma educação de qualidade, o Governo que autoriza a abertura de tantas vagas na graduação, a OAB que não combate isso com fervor...
José Flávio - A Constituição Federal, em seu art. 133, diz que o advogado é indispensavel à administração da justiça. Em que medida e de que forma isso acontece?
Cícero Lana - Para esta pergunta, uma única frase; Sem advogado, não há como as pessoas terem acesso ao Poder Judiciário; somente através de um advogado é que se consegue postular em Juízo. Em outras palavras: somente através de nós é que as pessoas podem ser ouvidas, ter seus direitos reconhecidos.
José Flávio - O que o levou a escolher a advocacia como profissão?
Cícero Lana - A certeza de que nenhum dia seria igual ao outro; a possibilidade de escolher qual assunto quero tratar, com o que quero trabalhar. Não preciso fazer a mesma coisa todos os dias; posso variar, mudar.
José Flávio _ Quais os maiores desafios enfrentados pelo Sr. em sua vida acadêmica. E o que o Sr. diria aos que estão iniciando esse caminho que o Sr. já trilhou?
Cícero Lana - Na vida acadêmica, os maiores desafios são: passar as informações de maneira objetiva, profunda e que desperte o interesse dos alunos; também tenho que destacar a busca por melhores condições de trabalho e salários. Diria aos que pretendem iniciar a vida acadêmica que, dinheiro nenhum, paga um aula e que vocação sozinha não levam ninguém para dentro da sala de aula: é preciso gostar e receber para isso. Mas, não se iludam: o começo é difícil, com poucas aulas, horários horríveis, salários baixíssimos. 

DR. CÍCERO MARCOS LIMA LANA é Advogado. Professor de Direito Processual Penal e Pratica Jurídica Penal na Facamp (Faculdades de Campinas). Professor de Direito Penal e Processual Penal no Curso Proordem. Mestre e Doutorando em Direito Processual Penal pela PUC-SP. Especialista em Direito Penal pela Escola Superior do Ministério Público. Especialista em Direito Tributário pelo IBET. Autor de livros jurídicos, dentre eles “Crimes de apropriação indébita previdenciária: uma nova classificação e suas consequências” (Ed. Juruá) e “Crimes de sonegação fiscal e o princípio da intervenção mínima” (Ed. Impactus). Coordenador do Núcleo de Campinas da Escola Superior da Advocacia.

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ELVIS PRESLEY: Um astro de brilho incomum - II Parte

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 03:49
Domingo, 18 de agosto

Nessa segunda parte do texto, falo da vida e da carreira de Elvis nos 70 e da morte trágica em 1977.

Em meio à correria louca imposta por Hollywood, no vai e vem de gravações de cenas de filmes e trilhas sonoras, o ator e cantor conheceu um farmacêutico que passou a lhe receitar remédios para os mais diversos fins – um jeito fácil e rápido de resolver problemas de saúde que não tardaria em cobrar a conta.
Um fato que também chama atenção nessa fase da vida de Elvis foi o isolamento espontâneo a que se submeteu. Isolou-se em Memphis. Cercou-se de alguns poucos amigos, familiares e funcionários no que ficou conhecido como máfia de Memphis. Uma relação que era sustentada por presentes caríssimos, tais como; carros, jóias, motocicletas – dentre outros. E uma submissão de súditos em relação ao rei. Enquanto Elvis se fechava em Graceland, lá fora o fenômeno Beatles ia “de vento em popa”. Emplacavam sucesso após sucesso. Parecia que Elvis estava alheio a tudo de novo que acontecia no mundo da música do lado de fora dos portões. Entretanto, quem convivia com ele sentia que a depressão nele crescia dia após dia. Teria o rei um fim de carreira triste e melancólico? Haveria um retorno possível? Um renascer das cinzas?
Imagem: http://downtheroad.tunicatravel.com/2010/08/25-miles-to-graceland/

Houve! O grande, ansiado e esperado retorno aconteceu! Em 03 de Dezembro de 1968 a NBC-TV (National Broadcasting Company) exibia, em horário nobre, um especial de Elvis Presley. Antes do especial o cantor suava frio. Nervoso. Inseguro. E não era para menos. Contando os tempos de Exército, já era uma década longe dos palcos e do publico. A crítica já anunciava o seu declínio. Não diz o ditado que “quem é rei nunca perde a majestade”? Pois foi justamente o que aconteceu. Quando o astro subiu ao palco fez o que de melhor sabia fazer: cantar e fascinar as multidões. O show foi um verdadeiro sucesso. Um desempenho magistral. Aplaudido por crítica e público. Enfim, para delírio da multidão de fãs, o rei estava de volta.
O retorno aos palcos aconteceu na cidade dos grandes astros e estrelas: Las Vegas. Estava para ser inaugurado na cidade um hotel luxuoso: o Hotel Internacional. Quem convidar para o show de inauguração? Elvis Presley? Não! Disseram os diretores do hotel. Melhor Barbra Streisand, a estrela está em franca evidência. Vai lotar o showroom. Elvis se apresenta em seguida. A cantora, e também atriz, fez a inauguração conforme decidido pelos magnatas. Não lotou a casa uma noite sequer. Nem na tão esperada inauguração. A temporada de Elvis Presley no mesmo hotel lotou a casa todas as noites. Não sobrou um lugarzinho sequer. Nessa temporada e em todas as outras que faria no Hotel Internacional.

Imagem: http://www.baurupocket.com.br/conteudo/?idConteudo=1764

Em 1970 começava a temporada das turnês e mega turnês. Apresentações e mais apresentações ao vivo. Aquele que havia ficado afastado tanto tempo dos palcos voltava com força total. Os críticos não acreditavam no que viam e no que ouviam. Como era possível a um cara que havia ficado tanto tempo longe dos palcos, atuando em filme de baixa qualidade, voltar agora com uma voz melhor que antes? Mais encorpada, cheia de vigor e sensualidade? A partir daí, vieram uma coleção de sucessos. O documentário That’s The Way It Is é lançado ainda em 70. Em 72, outro documentário, Elvis on Tour. Em 14 de janeiro de 1973 ia ao ar, via satélite, com transmissão ao vivo para vários países o show Aloha from Havaí. Esse show marcou a primeira transmissão via satélite.
Tudo parecia ir bem na carreira do astro. Na vida pessoal a história era outra. Problemas pessoais e de saúde se avolumavam. Os últimos anos de vida de Elvis foram um verdadeiro calvário. A separação da esposa Priscilla, ocorrida em 1972, o deixara abalado. O coquetel de pílulas que tomava freqüentemente começou a bater à porta exigindo seu preço. Começou a ganhar peso, tanto pelo efeito dos remédios, quanto pelo fato de que, durante o decorrer da vida, adquirira péssimos hábitos alimentares. A depressão veio mais forte. Mais remédios. Para perder peso, para dormir, para estimular. O pai, Vernon Presley, e amigos próximos perceberam o perigo. Quiseram interná-lo numa clinica para solucionar o problema. Elvis não admitia que fosse dependente das pílulas. Os inofensivos comprimidos não representavam nenhum perigo, dizia ele. No palco, por diversas vezes, teve que parar o show devido a problemas de saúde. Esquecia as letras das músicas durante as apresentações. A aparência debilitada assustava a quem o conhecera no auge de sua vitalidade.
Na madrugada de 16 agosto de 1977, desfrutava suas últimas horas de vida. Jogou tênis, fez um pouco de bicicleta. Tocou piano. Foi dormir por volta das quatro ou cinco da manhã. A namorada Ginger Alden, exausta, foi dormir. Ele não. Tomou soníferos pelos menos umas três vezes em um curto período de tempo. Ainda assim, não conseguiu dormir. Por volta das nove ou dez da manhã, levantou-se para ler no banheiro. O que aconteceu daí até o início da tarde desse mesmo dia, quando a namorada o encontrou caído, sem vida, no chão do banheiro, permanece um mistério.
Em 16 de agosto de 1977, a imprensa noticiava o falecimento do superstar Elvis Presley. Foi encontrado morto em sua residência em Graceland, aos 42 anos. O motivo segundo os médicos: arritmia cardíaca profunda. Estava com mais uma turnê marcada para a noite seguinte: 17 de agosto, em Portland, no Maine.
Imagem: http://www.clickriomafra.com.br/rocknauta/a-historia-de-elvis-presley/elvis_grave

Para uma melhor compreensão do que acontecia com Elvis em seus últimos anos de vida, vejamos o depoimento de Joe Esposito, integrante da equipe e produtor de turnês de Elvis,  para o documentário Elvis Presley – Biografia não autorizada, narrado por Peter Graves:
“Em 1975, ficou mais complicado e não era fácil estar na estrada. Era dificíl levá-lo de um lugar para outro. Dizíamos:
_ Elvis, temos que estar prontos para irmos a outra cidade. Eles respondia:
_ Não estou pronto, não estou pronto ainda.
Não era Elvis que falava, e sim, as pílulas. Tentamos ajudá-lo, conversamos muito. Um cara disse:
_ Como proteger um homem de 42 anos dele mesmo? Você não pode. Ele tem que querer”.
Depois de conhecer melhor a vida e o trabalho de Elvis, fico a me perguntar: como um cara bonito, carismático, talentoso, milionário, que alcançou fama e reconhecimento mundial, enveredou por esse caminho de depressão e tristeza. Não encontro respostas. Então deixo com vocês, como reflexão, um trecho do livro Elvis, do autor Maurício Camargo Brito: “Como se não bastassem os transtornos físicos, o astro vivia sufocado por uma tremenda pressão psicológica desde que se tornara o personagem mais conhecido do mundo. O fato de ser ELVIS PRESLEY, não era uma carga fácil de sustentar. Elvis era o nome mais famoso do planeta (continua sendo segundo várias pesquisas). Desde que despontou na década de 50, encantou crianças, adultos e avôs, qualquer que fosse a faixa econômica ou social. A idolatria por Elvis Presley superou em muito a de Valentino, a de Sinatra ou dos Beatles. Sua imagem até então vinha sendo mantida como impecável junto ao público. Para os fãs, Elvis era o sonho de uma mãe pelo filho, de um irmão caçula pelo mais velho, de uma mulher pelo seu homem. Como teria se sentido Elvis quando descobriu que forjou os costumes e transformou a sociedade? E que tudo aconteceu de maneira inconsciente. Tornou-se dono de uma das maiores fortunas do mundo da noite para o dia. Vendeu mais discos que qualquer outro artista. Ganhou mais discos de ouro que todos também. Foi quem mais lucro deu aos estúdios de Hollywood. Foi o maior nome do show-biz em Las Vegas. Seu show no Hawaii via satélite, bateu todos os recordes de audiência da televisão, superando até a transmissão da descida do Homem à Lua. Qual ser humano teria condições de não sucumbir sob tamanho encargo?”.

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ELVIS PRESLEY: Um astro de brilho incomum - I parte

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 02:47
Sexta-feira, 16 de agosto 

A Lonely Life Ends on Elvis Presley Boulevard (Uma vida solitária chega ao fim na Elvis Presley Boulevard), dizia a Manchete de um jornal de Memphis – o Jornal Memphis Pess-Scimitar – em edição especial, no dia 17 de agosto de 1977. Naquele dia, a Elvis Presley Boulevard, avenida onde morava o cantor, estava em polvorosa.  Em frente a Graceland – residencial oficial de Elvis, circulavam centenas de fãs e curioso. Alguns aproveitavam a oportunidade para ganhar algum dinheiro vendendo balas e refrigerantes, dentre outros produtos.  Pessoas subiam em árvores tentando ver o que se passava para além dos muros de pedra que cercavam a mansão. No rosto de todos havia muita tristeza. Na verdade, desde à tarde do dia anterior, a cidade chorava a morte de seu morador ilustre: Elvis Presley. Um artista que marcou para sempre seu nome na história da música norte-americana. Naquele e nos dias subsequentes, a cidade de Memphis, no estado do Tennessee/USA, foi invadida por uma multidão de jornalistas. Meios de Comunicação do mundo inteiro noticiaram a morte do astro.
Escrevi o texto abaixo em agosto de 2010. Ele foi publicado originalmente no site http://www.rec2010.blogspot.com.br/. Para quem já leu, boa releitura.  Para quem ainda não o conhece, boa leitura. Sou fã do rei há cinco anos. Elvis chegou em minha vida em momento de mar agitado, daqueles com direito a vagalhões, raios e trovoadas. E suas canções agitadas me animaram. Suas baladas me acalmaram. Seu repertório gospel me ajudou a elevar o espírito. Por isso tudo, considero Elvis um amigo. Pois quem é amigo de verdade? Aquele que chega nos momentos mais difíceis e  ajuda a atravessar a tempestade, como uma ponte sobre águas turvas.

Vamos ao texto. 

06 de Julho de 1954. Noite quente e gostosa de verão em Memphis, Tennessee. Nos abafados estúdios da Sun Records estava Sam Philips na parte técnica. Sob seu comando, três jovens talentosos: Scoot Moore na guitarra, Bill Black no contrabaixo e Elvis Presley na voz e no violão. As sessões de gravação haviam começado na primeira noite de Julho. Já haviam passeado por diversos estilos indo do pop ao gospel, passando pelo country e pelo R&B. Elvis era afinado, cantava bem. Os rapazes davam show na guitarra e no contrabaixo. Mas o som que estavam produzindo era tudo muito igual ao que já existia. E Sam Phillips, dono da Sun Records, procurava um diferencial. Algo completamente novo. Seu maior sonho era encontrar um branco que cantasse como negro. Cansados de tantas tentativas pararam para um lanche.
Dizem que “Quando o gato sai os ratos fazem a festa”. Foi bem por aí. Aproveitando a ausência do chefe na sala, Elvis pegou o violão e de forma alegre e descontraída começou a cantar That’s All Rigth Mamma, um antigo sucesso de Arthur Crudup. Scoot e Bill deram prosseguimento à farra. Quando Sam retornou e viu aquela brincadeira, correu imediatamente para a técnica. Os rapazes ficaram com aquela cara de “Ih, o chefe chegou!” Quiseram parar. Sam incentivou: “Vamos, continuem!”. Ele havia finalmente encontrado o que procurava. Na mesma noite gravaram também Blue Moon of Kentuck, um country gravado anteriormente por Bill Monroe. Dessa loucura naquela noite de verão, nascia uma música que abalaria as estruturas da música norte-americana: o rock. E um cara que se tornaria uma lenda no cenário musical mundial: Elvis Presley.

Com as duas músicas gravadas Sam, imediatamente, procurou Dewey Philips, DJ local que apresentava o programa radiofônico Red Hot and Blue, e pediu-lhe para que tocasse as músicas. Dewey atendeu ao pedido. Choveram telefonemas à rádio pedindo que repetissem as músicas. O resultado vocês já conhecem.

Imagem: http://hq-pictures.ru/pt/preview.php?hd=13677


Esse primeiro disco de Elvis, gravado pela Sun Records, teve o efeito de uma bomba. Explosivo tanto quanto. Numa Memphis conservadora, quem ousaria misturar melodias brancas e negras numa mesma música? Impensável para os mais lúcidos! Sam Philips ousou. E muito! That’s All Right Mamma foi cantada nesse disco como country, enquanto na versão original era um blues. O inverso com Blue Moon of Kentuck, na gravação original um country, recebia com Elvis uma roupagem de blues. Ou seja, o cara já chegou subvertendo as regras da equação musical da época. Resultado muita gente torceu o nariz. Muitos DJs relutaram em tocar as músicas, entretanto o disco aconteceu. O nome Elvis Presley em poucos meses já era bastante popular. Um sucesso regional. Entretanto, aos poucos, Elvis foi se tornando grande demais para a pequena gravadora.

As raposas são animais espertos e enxergam longe. Em fins de 1954, a carreira de Elvis começava a decolar, mas ele era conhecido apenas no Sul do país. Uma raposa estava a sua espreita, cercando-o. Queria empresariar o menino. Seu nome Tom Paker, mais conhecido como Coronel, empresário esperto, ambicioso e bem sucedido do show-biz. Conseguiu tirar o cantor da Sun Records e levá-lo para uma grande gravadora: a RCA (Radio Corporation of America). Essa transação custou aos cofres da RCA, nada mais, nada menos que U$ 40 mil dólares. Sendo que U$ 5.000 mil foram para o bolso do cantor. Se U$ 40 mil dólares é uma grana boa hoje, imaginem em 1955... O contrato com a RCA foi assinado definitivamente em 21 de novembro de 1955. Representou uma grande virada na carreira do cantor.

A partir daí, a indústria fonográfica e, posteriormente, a cinematográfica, o transformou numa máquina de ganhar dinheiro. Muito dinheiro! Milhões de dólares! Ao ser alçado a condição de superstar em tão pouco tempo, o jovem talento perdeu sua vida própria. Não só pelo fato de que não podia sair mais às ruas como qualquer pessoa, por razões obvias, mas também pelo fato de que passou a ser manipulado pela indústria para fins comerciais e de marketing. Foi considerado, no início de sua carreira, má influência para a mocidade. Era preciso mudar a imagem de rebelde. Era preciso transformá-lo num produto que fosse facilmente consumido não apenas pelos jovens, mas também pelo restante da família. Então que tal uma boa jogada de mestre. O Exército? Perfeito! Caía como uma luva. E lá se vai Elvis servir ao Exército em 1958, sob uma ampla cobertura da imprensa. Servindo na Alemanha, conheceu a jovem Priscilla Beaulieu que viria a ser a Sra. Presley, com a qual teve uma filha: Lisa Marie - Lisa veio posteriormente a se unir a Michael Jackson com quem passou dois anos casada. Provavelmente foi no Exército que Elvis conheceu suas maiores inimigas: as anfetaminas – comprimidos que foram companhia constante no restante de sua vida. Outro fato marcante na carreira e na vida pessoal do astro ainda nesse período, foi a morte de sua mãe Gladys. Gladys sempre fora uma mãe superprotetora. Elvis aos quinze anos de idade ainda era levado pela mãe à escola, conforme contam alguns de seus biógrafos.

Enfim, o fenômeno retorna do Exército em 1960. Volta diferente. Já não é o rebelde que na década anterior era visto com maus olhos pela sociedade conservadora. Mudou também o comportamento. Ele que sempre fora tido como um cara bonachão, alegre, simples. Mostrava agora, por vezes, um lado agressivo, arrogante. Ainda na adolescência uma de suas paixões era o cinema. Fascinava-se com as interpretações de James Dean e Marlon Brando. Pediu e o coronel o levou também a Hollywood. Na década de 60, afastou-se dos palcos, do público e dedicou-se quase que 100% a sétima arte.


Imagem: http://rockabillynblues.blogspot.com.br/2011/11/elvis-love-me-tender-movie-premiered.html


A carreira no cinema havia começado antes de entrar para o serviço militar, em 1956, com o filme Love me Tender (Ama-me com ternura, 1956). Essa fase de sua carreira abrangeu o período de 1956-1969. No total foram 31 filmes e 02 documentários. Entretanto essa passagem pela telona representou uma “faca de dois gumes” para a carreira do cantor e, agora, ator. Hollywood percebeu rapidamente a fórmula: Elvis Presley = milhões de dólares. Sabendo disso produziu filme após filme num ritmo frenético. Nem ao menos terminava um e já outro era iniciado. O resultado disso foi uma série de filmes de baixa qualidade, com o ator desempenhando papéis fracos em roteiros mais fracos ainda. Os filmes sempre vinham acompanhados de trilha sonora, que, feita às pressas, resultava em discos cuja qualidade técnica deixava a desejar. Claro que Elvis não estava satisfeito com essa situação. Desde o início queria atuar de verdade. Interpretar papéis sérios. Era esse seu objetivo quando entrou para o fascinante mundo do cinema. Porém nem o coronel, nem Hollywood, estavam interessados nisso. Os filmes estavam fazendo com que entrasse muito dinheiro em caixa, portanto, para que mudar isso?


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