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Coisa pra argentino ver

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:35
Quinta-feira, 25 de julho


Hoje, o Papa Francisco esteve na favela de Vaginha, Rio de Janeiro. A visita que fez a favela não estava nos planos. Foi um pedido dele de última hora. Sem querer, ou querendo, trouxe à tona um “truque” do qual o poder público em nosso país sabe usar com maestria: fazer coisas para inglês ver. No caso, para argentino ver, ou para o Papa ver, dá no mesmo.  A comunidade de Vaginha, estava lá, esquecida, invisível aos olhos das autoridades. De repente, o Sumo Pontífice diz: “Quero ir numa comunidade carente.” E lá estava um exército de funcionários fazendo uma limpeza nas ruas, refazendo o cabeamento da rede elétrica, recapeando asfalto. Até o campo onde o papa fez o seu discurso ganhou iluminação nova. Tudo como num passe de mágica! É assim que as coisas funcionam pó aqui, todos sabemos disso.
Assistindo a transmissão pela TV Globo, me chamou à atenção o discurso de Rangler dos Santos, ao lado da esposa Joana, ambos moradores da comunidade. No discurso, além de dar boas vindas ao Papa – a quem ele pediu licença para, carinhosamente, chamar de pai Francisco – o jovem, de modo simples, chamou a atenção para essa realidade acima descrita e, com isso, deu um puxão forte de orelhas na imprensa e no poder público. Quis trazer a vocês, leitores, a palavra desse rapaz, pois no discurso dele está uma das chaves para a compreensão do nosso momento político de manifestações e revoltas.
Em seguida, apresento o discurso do Papa Francisco que – sem ser coisa combinada – vem a ser uma resposta aos anseios daquele jovem que, na verdade, representa a grande maioria do povo brasileiro.
Foi como um filho falando ao pai. Foi como um pai respondendo aos anseios do filho.
Fiquem com trechos do discurso...  Depois eu volto falando um pouco mais desse Francisco que tem conquistado aos brasileiros e ao mundo inteiro.

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Discurso de Rangler dos Santos, morador da comunidade de Vaginha, durante visita do Papa a comunidade de Vaginha.


Santidade e demais autoridades, Senhoras e Senhores, bom dia! Em nome da comunidade Vaginha, queremos dar as boas vindas e afirmar que este é um dia muito especial por estar recebendo neste lugar tão simples tão humilde, nosso querido e amado, Papa Francisco... Gostaríamos de pedir a Vossa permissão para quebrarmos um pouco o protocolo, assim como Vossa Santidade faz em alguns momentos, e chamá-lo de pai, pai Francisco. Aquele que acolhe a todos, especialmente os mais pobres...
... Essa comunidade iniciou sua história no ano de 1940, esse lugar era um lixão aterrado que foi ocupado, em sua grande maioria, por pessoas de vários estados do nordeste brasileiro, uma das regiões mais pobres do país e do estado de Minas Gerais, movidas pelo sonho de dias melhores. Pessoas que, juntamente com seus familiares e amigos, construíram suas casas com muito suor, com muita dedicação, esforço, lágrimas, união e bênçãos de Deus, como nossos pais e avós. Estes nunca desistiram de seguir em frente mesmo com todos os confrontos armados que muitos moradores já presenciaram e, por muitas vezes, com o descaso do poder público no momento das enchentes e outras situações que ainda nos impedem de viver com dignidade, mas o descaso, nosso pai amado, ficou para trás a partir do anúncio da sua visita à nossa comunidade. Deparamos todos os dias com pessoas que iam e vinham, asfaltando e iluminando ruas, limpando as calçadas regularmente e as caçambas de lixo sendo melhor distribuídas, tudo aquilo que não fazia parte do cotidiano de nossos moradores passou a acontecer, esperamos que possa continuar dessa forma. A sua visita, pai Francisco, nos levou a nos tornar sinal internacional, pois antes nós fazíamos parte das reportagens dos jornais, não nas colunas sociais, mas nas páginas policiais, por causa dos confrontos armados que ocorriam ou pela enchente dos rios, que ocorrem em dias de chuva muito forte. Tal problema das enchentes até hoje, nem sequer foi discutido com os moradores para encontrar uma solução...

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Discurso do Papa Francisco na Comunidade de Vaginha


... Ninguém pode permanecer insensível às desigualdades que ainda existem no mundo! Cada um, na medida das próprias possibilidades e responsabilidades, saiba dar a sua contribuição para acabar com tantas injustiças sociais! Não é a cultura do egoísmo, do individualismo, que frequentemente regula a nossa sociedade, aquela que constrói e conduz a um mundo mais habitável, mas sim a cultura da solidariedade; ver no outro não um concorrente ou um número, mas um irmão.

Quero encorajar os esforços que a sociedade brasileira tem feito para integrar todas as partes do seu corpo,incluindo as mais sofridas e necessitadas, através do combate à fome e à miséria. Nenhum esforço de “pacificação” será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma. Uma sociedade assim simplesmente empobrece a si mesma; antes, perde algo de essencial para si mesma. Lembremo-nos sempre: somente quando se é capaz de compartilhar é que se enriquece de verdade; tudo aquilo que se compartilha se multiplica! A medida da grandeza de uma sociedade é dada pelo modo como esta trata os mais necessitados, quem não tem outra coisa senão a sua pobreza!


... Aqui, como em todo o Brasil, há muitos jovens. Vocês, queridos jovens, possuem uma sensibilidade especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com notícias que falam de corrupção, com pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram o seu próprio benefício. Também para vocês e para todas as pessoas repito: nunca desanimem, não percam a confiança, não deixem que se apague a esperança. A realidade pode mudar, o homem pode mudar. Procurem ser vocês os primeiros a praticar o bem, a não se acostumarem ao mal, mas a vencê-lo. A Igreja está ao lado de vocês, trazendo-lhes o bem precioso da fé, de Jesus Cristo, que veio «para que todos tenham vida, e vida em abundância» (Jo 10,10). 

Hoje a todos vocês, especialmente aos moradores dessa Comunidade de Varginha, quero dizer: Vocês não estão sozinhos, a Igreja está com vocês, o Papa está com vocês...

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