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Receita de Ano Novo

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 10:01
 Terça-feira, 31 de dezembro



Quando os ponteiros do relógio se encontram, na noite de 31 de dezembro, seja no Norte ou no Sul, no Leste ou no Oeste, no Oriente ou no Ocidente, algo mágico acontece. Há em todos os corações uma explosão de alegria e felicidade indescritíveis. Quem dera que as únicas bombas que explodissem em nosso mundo fossem as da paz, da amizade, da concórdia, da boa união... Aí sim, teríamos, de verdade, um ano realmente novo. “Isso é utopia”, diria você. “Alimentar essa esperança é uma utopia, eu sei, mas o que seria do mundo sem as utopias?”, pergunto eu. Elas, no decorrer da história, podem não ter mudado o mundo, mas que mexeram com a estrutura dele, ah, isso mexeram.

Quando as luzes de fogos multicoloridos explodem nos céus, pelo mundo afora, anunciando a chegada de um novo ano, muitas são as esperanças de realizar os sonhos que não conseguimos realizar ano passado... São abraços, apertos de mãos. Às vezes nem ao menos conhecemos a pessoa que está ao nosso lado, mas fazemos questão de exibir o melhor de nossos sorrisos e dizer, em alto e bom som: FELIZ ANO NOVO!  Com aqueles que conhecemos e que nos são queridos, então, a emoção é dobrada.

Quando uma garrafa de champagne estoura na passagem de um ano para outro, ela deixa de ser apenas uma garrafa do milenar liquido borbulhante e passa a se revestir de um significado maior. O liquido que estoura e sai da garrafa com toda força, como se aquela prisão do vidro não fosse digna de contê-lo, é como os sonhos que cochilam dentro de nós, esperando apenas o momento em que abramos a garrafa de nossa esperança para que eles possam sair com força, vigor e vitalidade. O champagne, ao ser estourado na virada do ano, é um divisor de águas entre um ano que já faz parte de nosso passado e outro no qual depositamos todas as nossas expectativas. Talvez seja isso que anime todos os povos a comemorar com alegria contagiante esse momento singular: o fato de que o nosso combustível, aquilo que nos anima a caminhar e atravessar todo o ano, é a esperança no bem viver. Quem, em sã consciência, colocará o pé no ano vindouro, pensando o pior de si mesmo? A unanimidade quer alegria, paz, sucesso, prosperidade. É um instinto natural querer o bem para nós mesmos e para os que nos rodeiam.

E qual a receita para isso? Pular sete ondas? Comer caroços de romã em cima de uma cadeira? Vestir peças de roupas brancas na passagem do ano? São tantas as superstições que poderia passar todo esse texto enumerando-as. Você, certamente, tem as suas. É bom que as tenha, faz parte do show. Se isso lhe traz energias positivas, que as faça então. Mas não esqueça, porém, que a melhor receita de ano novo é deixar acordar o Ano Novo que cochila dentro de você desde sempre. Esse é o ingrediente especial que fará com que cresça aquele bolo da felicidade que você está preparando faz tempo.

Mas quem pode falar com mais propriedade que eu a respeito dessa eficiente receita não sou eu, é um mestre das palavras, o grande escritor brasileiro, poeta, contista e cronista, Carlos Drummond de Andrade. Drummond nasceu em Itabira do Mato Dentro, no Estado de Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902 e morreu no Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1987. Começou a carreira como colaborador do Diário de Minas, jornal que reunia em seus quadros, adeptos do iniciante movimento modernista mineiro. Drummond foi, seguramente, o poeta brasileiro mais influente de sua época ao abordar temas universais, como a vida, o homem e o mundo sob uma perspectiva filosófica. O escritor tem suas obras traduzidas para diversos idiomas.  

É com a Receita de Ano Novo, de Drummond, que estouro, agora, os fogos multicoloridos e o champagne com vocês e, de coração, lhes desejo um ano realmente novo. FELIZ ANO NOVO!

Que 2014 seja um ano pleno de realizações para todos nós!

Um grande abraço e até o ano que vem.


Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
Cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
Para você ganhar um ano
Não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
Mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
Novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
Novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
Mas com ele se come, se passeia,
Se ama, se compreende, se trabalha,
Você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
Não precisa expedir nem receber mensagens
(Planta recebe mensagens?
Passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
Para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
Pelas besteiras consumadas
Nem parvamente acreditar
Que por decreto da esperança
A partir de janeiro as coisas mudem
E seja tudo claridade, recompensa,
Justiça entre os homens e as nações,
Liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
Direitos respeitados, começando
Pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
Que mereça este nome,
Você, meu caro, tem de merecê-lo,
Tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
Mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
Cochila e espera desde sempre.


(Carlos Drummond de Andrade)

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Um duelo de gigantes no UFC termina de forma inesperada. Um passeio de esqui acaba de forma trágica

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 11:33
Segunda-feira, 30 de dezembro

“Não se trata da força com que você bate. 
Se trata de quanto você agüenta apanhar e continuar na luta”.
(Frase de Rock Balboa (Silvester Stalone), 
no filme, Rock Balboa (2006)

A vida é um imenso tabuleiro de xadrez. Ganha o jogo quem sabe o momento certo de mudar-se a si mesmo. A diferença entre o tabuleiro da vida e o tabuleiro real, é que o jogo da vida está sujeito a imprevistos, inesperados, chocantes e, ás vezes, trágicos...

***

Campinas, sábado, 28 de dezembro de 2013
Esquina das Ruas Conceição e Francisco Glicério. 18h30

Enquanto espero uma carona que me seria dada por Gentil e Toninha, pego o celular e disco o número de Ricardo, filho deles. Digo:

__ Oi Ricardo, vamos pedalar amanhã de manhã?

__ Vamos!

__ Que horas vocês pretendem sair?

__ Acho que por volta das oito horas.

__ Tudo bem. Chego aí às oito.

Ricardo mora em Souzas, distrito de Campinas, distante cerca de 10 km.

Enquanto ainda falava com Ricardo, o carro trazendo os dois amigos parou. Entrei no veículo ainda falando ao celular. Eu, Gentil e Toninha, participamos de um coral e íamos cantar na missa de aniversário de morte de Décio Delamano, que também havia participado do coral. Durante o percurso, Gentil comentou:

 “Hoje à noite tem a luta do Anderson. Você vai assistir”?

“Claro, não perco essa luta de jeito nenhum”.

Naquele momento, meu sexto sentido ordenou:

“Fala para ele que o Anderson não vai ganhar essa luta”.

“Fica quieto. Não fala nada”. Sussurrou minha razão de brasileiro esperançoso na vitória de Anderson.

Ao chegar em casa, após cantarmos na missa, fiquei na expectativa da luta que seria transmitida, no Brasil, na alta madrugada de sábado para domingo. Tentei dormir um pouco antes da luta, porém, não consegui: a expectativa era grande demais.

***


MGM Grand Graden Arena. Las Vegas. USA
Sábado, 28 de dezembro de 2013.

O imenso tabuleiro de xadrez estava armado no centro do imenso MGM Grand Garden Arena. Os jogadores, há meses, estudavam os movimentos um do outro, cada qual com a convicção de que ganharia a luta. Os movimentos naquele tabuleiro deveriam ser perfeitos. Uma jogada mal feita estragaria o treinamento de meses. O tabuleiro de xadrez, não era, na verdade, um tabuleiro. Era um octógono. Os jogadores, não estavam ali para jogar,  mas para realizar a luta de suas vidas.  

Em volta do octógono, milhares de pessoas ávidas pelo show, haviam esgotados os ingressos desde o início da semana.  Junto com elas, milhões de pessoas mundo afora, estavam parados em frente à televisão para assistir um dos maiores espetáculos da história do UFC (Ultimate Figthing Championship). As semanas que antecederam aquele momento, haviam sido de grande expectativa, debates na imprensa, nas bolsas de apostas foram bastante freqüentadas.  Os holofotes, espargindo luzes brancas e coloridas sobre o palco e sobre a multidão, lembravam bem o ambiente dos grandes shows. E aquele era um grande show. Aliás, o UFC é luta, é show e também uma fábrica de dólares. Os ingressos para a luta mais esperada da história do UFC: a revanche entre Anderson Silva e Chris Weidman, esgotaram-se rapidamente. Na primeira luta, a casa recebeu um publico de 12.964 pagantes, que gerou uma renda de US$ 4.826 milhões. Dessa vez,  a bilheteria não confirmou quantos ingressos foram colocados a venda, porém, uma vez que a capacidade máxima do local é de 16.800 pessoas, estima-se que os ingressos, que foram vendidos a preços entre US$ 100 e US$ 1.000, superem os US$ 6.901.655,00 que foram arrecadados no UFC 148, na também revanche entre Anderson Silva e Chael Sonnen, maior desafeto do Spider, no Ultimate. A expectativa dos organizadores é de recorde na arrecadação do em Vegas.

Tensão e expectativa pela chegada dos dois atores principais. A luta se tornava ainda mais especial por ser a revanche da luta entre Chris Weideman e Anderson Silva, ocorrida em 07 de Julho de 2013, no mesmo local onde agora será disputada a revanche. Na ocasião, Weideman venceu a luta por nocaute, devido a uma série de atitudes imprudentes de Silva. Durante cinco meses, a luta e a atitude de Silva, foi alvo de debates e discussões na imprensa e nas academias. A revista americana Forbes chegou a publicar uma matéria em que dizia que a derrota do brasileiro Anderson Silva fora coisa combinada. Especulações á parte, foi que Chris Weideman levou para casa o tão cobiçado cinturão dos pesos médios.


Imagem; http://o.canada.com/photos/photos-ufc-162-silva-vs-weidman/attachment/chris-weidman-anderson-silva-6/


Em um dos lados do octógono, de bermuda azul, está o atual campeão dos pesos médios do UFC, Chris Weideman, Nova Yorkino, nascido em Baldwin, em 17 de junho de 1984. No currículo de lutador de MMA: 10 lutas. Incentivado na carreira esportiva pelo pai, começou a lutar muito cedo. Especializou-se em luta olímpica e destacou-se nesse tipo de luta. Ganhou várias medalhas no colégio e na faculdade. Sua formação acadêmica é um bacharelado de Psicologia pela Universidade de Hofstra. Fez sua estréia no UFC em 3 de março de 2011 e, rapidamente, se destacou. Possui a habilidade de derrotar os adversários com facilidade, levando a luta para o chão, onde consegue melhores resultados. Aos 29 anos, não sabe o que é ser derrotado no octógono. No UFC, foi o único lutador a conseguir vencer Anderson Silva e a nocauteá-lo. Está invicto há dez lutas.

Do outro lado, de bermuda amarela e preta, está o desafiante, Anderson Silva, conhecido no meio esportivo como Spider. Nasceu na cidade de São Paulo, mas foi criado em Curitiba. Um lutador de estilo provocador, rápido, completo. Igual a seu adversário, começou a praticar esportes muito cedo, aos 5 anos de idade. Praticou, inicialmente, o Taekwondo, indo depois para o Muay Thai, Jiu-jistsu e boxe. Sua especialidade, porém, é o Muay Thai. Tendo passado por tantos tipos de luta, é considerado um lutador completo. Estreou no UFC em 2006 e sua ascensão foi meteórica. É considerado o melhor lutador de MMA de todos os tempos. Desde sua estréia, já contabiliza 17 vitórias, 10 defesas de títulos, 15 nocautes. É o lutador com maior  seqüência de vitórias e títulos da história do UFC. Não conhecia derrotas até que o nova yorkino cruzou seu caminho, em julho de 2013. Agora, tudo o que ele mais quer é recuperar o cinturão.

Enfim, chega o momento tão esperado: o portão do octógono fecha. O arbitro da luta olha para o Anderson Silva e para Chris Weidman e autoriza o início da batalha.


Imagem: http://clikhear.palmbeachpost.com/2013/all-sports/boxing-i-mma/ufc-168-weidman-and-rousey-retain-titles-silva-suffers-gruesome-injury/


Os dois lutadores começam a luta, no centro do ocotogono, com a postura de boxeadores. Analisam-se um ao outro, como fariam dois praticantes do xadrez. Chris Weidman tenta o primeiro o chute. Anderson se esquiva. A platéia se agita. Todos estão tensos. Muito tensos. Chris tenta levar a luta para o seu campo de especialidade: o chão. Agarra Anderson pelas pernas e consegue o seu objetivo. O Spider passa alguns segundos no chão e consegue se levantar. A platéia continua agitada. É como se ela pudesse lutar junto, como se, naquele momento, estivesse, também ela, defendendo um título. Anderson dá uma joelhada, tenta equilibrar a luta, sua concentração é total. Weidman novamente derruba Anderson e desfere uma seqüência de socos violentos. Anderson Silva está no chão e Chris Weidman o atinge com socos violentos, bate forte, muito forte. Anderson esboça alguma reação com alguns socos tímidos e, com as pernas, tenta se livrar da pressão de Weidman. Anderson Silva passa alguns minutos, no chão, em situação desesperadora. Será que aquele seria o fim da luta para o Spider? Aquela situação, porém, não era novidade. Ele já havia passado por situação semelhante, quando lutara com Chael Sonnen, no dia 07 de agosto de 2010, no UFC 117. Na ocasião, Anderson caiu após ser atingido por um golpe de esquerda de Sonnen, que partiu para cima do adversário, golpeando-o violentamente. Anderson conseguiu aplicar um triangulo de pernas em Sonnen, obrigando-o a pedir arrego, aos três minutos do quinto round. 

Para alívio de todos e, principalmente de Anderson Silva, soa o toque anunciando o fim do primeiro round. Os lutadores vão, cada um, para o seu ponto de apoio no ring, receber os cuidados necessários e orientação dos técnicos.


Imagem: http://esporte.uol.com.br/mma/ultimas-noticias/2013/12/28/anderson-mostra-familia-e-ve-show-na-vespera-da-revanche-com-weidman.htm


O arbitro anuncia o inicio do segundo round que começa com um Weidman, confiante, buscando a luta. Anderson tenta um chute baixo. Passa no vazio uma tentativa de um soco direto de Anderson Silva. A postura de Weideman é de quem quer levar a luta, novamente, para o chão, como no primeiro round. Tentando evitar que isso aconteça, Anderson procura manter certa distância. Weiderma lança golpes na tentativa de que o desafiante parta para o ataque e, dessa forma, ele possa derrubá-lo. Anderson tenta um lance comum, um chute para cima de Crhis Weidman. Chris, que já havia estudado os movimentos de Anderson, e sabe que aquele é um de seus movimentos características, se defende levantando um pouco a perna, apenas um pouco, de forma que o seu joelho forme um ângulo de 90 graus. O chute de Anderson vem com uma forte potencia e sua canela choca-se fortemente contra o joelho do americano. As câmeras de TV mostram o movimento em câmara lenta. A impressão que dá é a de que a canela do brasileiro havia se tornado de borracha. Uma imagem estarrecedora. O brasileiro desaba no chão gritando de dor. O público presente silencia. Ninguém queria ou esperava aquele desfecho. Os diversos telões espalhados pelo MGM mostravam o replay do lance. As pessoas colocavam as mãos no rosto evitando ver novamente a imagem. Os locutores esportivos que narravam à luta soltam um grito de espanto: “Meus, Deus! O que foi isso”? Chris Weidman sai alegremente comemorando, quando percebe a gravidade da situação, sua comemoração tornou-se bastante discreta. A equipe médica presta os primeiros socorros, ali mesmo, no ring. Colocam talas em sua perna e o retiram da Arena MGM, direto para a ambulância que o levaria ao hospital, enquanto o Spider  grita e se contorce com imensas dores. Quem assiste o embate pela TV também vê, com incredulidade, tudo aquilo. “Uma fatalidade”! “Que pena”! “Triste desfecho”, diziam os narradores televisivos da luta.

***

Campinas/Souzas. Brasil.
Manhã de domingo

Após a luta, tentei dormir um pouco, porém sempre que fechava os olhos vinha aquela imagem terrível da perna de Anderson Silva quebrando-se. Diferentemente dos outros, teimei em assistir o tal replay. Vendo que não conseguiria mesmo dormir, levantei-me e fui cuidar dos preparativos para as pedaladas de logo mais. Quando o dia clareou, me dirigi á casa do Ricardo. Cheguei lá ás oito e dez. O domingo estava bem agradável para se andar de bicicleta.

Chegando a Souzas, conheci também o Marcelo, que pedalaria junto conosco. Fizemos o nosso agradável passeio pelas belas trilhas de Souzas. Ninguém quebrou coisa alguma e foi tudo muito bom.

À noite, soube pelos noticiários, que o lutador brasileiro havia sido levado para o Centro Médico, em Las Vegas, onde havia passado por uma cirurgia durante à madrugada. Tudo havia corrido bem, em uma cirurgia de, mais ou menos, duas horas. Na cirurgia havia sido colocada uma haste dentro da Tíbia, um dos ossos quebrados, com a finalidade de estabilizá-lo. Além da Tíbia, Anderson quebrou também a Fíbula. A cirurgia foi tão bem sucedida que o lutador receberá alta em breve.  Ainda no hospital, Anderson recebeu as visitas de Dana White, presidente do UFC e do boxeador Roy Jones Jr. O atleta brasileiro, Ronaldo Fenômeno, também ligou. A intenção de todos era a mesma: levantar o astral de Anderson Silva. Particularmente, fiquei aliviado por ver que Anderson Silva estava bem.


Imagem: http://www.ausmotive.com/2009/07/30/more-on-schumachers-formula-one-comeback.html


Fiquei sabendo, também pelos noticiários, que o heptacampeão de Formula 1, Michael Schumacher, entrou em coma, depois de sofrer um grave acidente ao esquiar com o filho.  O acidente aconteceu às 11h, em horário local, enquanto ele praticava o esporte na estação de esqui de Méribel, nos Alpes franceses e, ao cair, bateu a cabeça numa pedra. O ex-piloto já chegou em coma ao hospital universitário de Grenoble, cidade próxima à divisa da França com a Suiça e a Itália. Neste hospital, foi submetido a uma cirurgia e os médicos consideraram seu estado “crítico”.


Imagem: http://3.bp.blogspot.com/-RF5Pqpj-1zM/UsF1iiLeBeI/AAAAAAAAAyQ/6pyVwSK-_98/s320/Schumacher+Reuters+01.jpg


Logo após o acidente, Schumacher foi levado de helicóptero ao hospital de Moütiers, região dos Alpes, porém, diante da gravidade da situação, o ex-piloto foi levado ao centro médico de Grenoble. De acordo com o serviço de imprensa da estação de Meribel, o local onde Schumacher esquiava não era sinalizado. Por sorte, ele usava os equipamentos de segurança necessários, pois se não estivesse usando capacete, não teria chegado com vida ao hospital. Quando as equipes de resgate chegaram ao local do acidente, o ex-piloto ainda estava consciente. Já nesta segunda-feira, pela manhã, os médicos do hospital onde Schumacher está internado, deram uma entrevista coletiva, e disseram que o ex-piloto ainda está em coma e seu estado continua crítico. Os médicos disseram também que o estado de saúde de Schumacher, em coma induzido, é muito grave e que ele corre risco de morte. O objetivo de mantê-lo em coma induzido é reduzir ao máximo os estímulos exteriores e estimular a boa oxigenação de cérebro. Dr. Girad Sailant, grande nome da medicina esportiva e especialista em lesões de cabeça e coluna, foi de Paris para Grenoble para acompanhar o paciente e amigo, Schumacher. Ao chegar a Grenoble e ver se perto a situação, o Dr. Girad se disse muito preocupado com a situação do piloto. A esposa do ex-piloto, Corinna, também está no hospital, juntamente com os dois filhos do casal, Gina-Marie, de 16 anos e Mick, de 14, que esquiava com o pai no momento do acidente. Michael Schumacher, um dos grandes nomes da Fórmula 1,  com sete campeonatos mundiais, é o piloto que tem mais títulos mundiais na história da F1. Schumacher fará aniversário no dia 03 de janeiro, quando completará 45 anos de idade.

Resta-nos enviar a Anderson e Schumacher, nossos pensamentos positivos em forma de oração. E que seja uma boa semana para todos nós.


 Boa recuperação Anderson! Força Schumacher! Estamos torcendo por vocês.

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Viajando no mundo das palavras com Sarah Passarella (II Parte)

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 20:08
Sexta-feira, 27 de dezembro
Que minha oração se espalhe pelo Universo
Como um alento aos abandonados,
Água para os que têm sede.
Que minha oração voe pelo Infinito
                   Espalhando pelos campos a boa semente
E trazendo conforto para os esquecidos,
Sorrisos para inocentes crianças.
Que minha oração seja como hosanas,
Com os acordes das liras dos Querubins e
As flautas dos Serafins.
Que arranque dos ímpios um canto,
E que os brutos cheguem até o pranto.
Que minha oração quebre o silêncio da catedral
Como se todo dia fosse Natal...”.

(trecho do poema Minha Oração, do livro Poemas de Cantar Natal

Autora – Sarah de Oliveira Passarella – Editora/Hortográfica)






José Flávio – Por falar nisso, como surgiu o livro, Poemas de cantar Natal, lançado dia 14 deste mês?

Sarah Passarela – Eu queria um título que fosse diferente de tudo o que já vi por aí. Eu entrei na Internet e não vi nenhum título parecido, nada. Então, eu falei, “Vamos colocar “Poemas de cantar natal”. Então alguém falou “Mas não é poemas de cantar o natal”? Eu falei, é “Poemas de cantar natal”, porque é um conceito de natal meu, da vida inteira. Se eu colocasse “Poemas de cantar O natal”, seria esse natal. É um poema de cantar natal a vida inteira. É um livro de poemas, embora tenha algumas crônicas. Porque mesmo quando você lê uma crônica, de repente ela tem alguma coisa... Que seja assim... Poético. Você quer vê, vou ler um trecho da crônica, Dia de Natal: “Como aquarela esbatida em cores suaves, aquela casa pintada de rosa-claro parecia dormir com os seus habitantes. Em volta, o cheiro do dia novo, tão leve que parecia uma oferta de Deus”. Isso é poesia, não é?

José Flávio – Como surgiu o projeto do livro?

Sarah Passarela – Os poemas, eles são antigos. Tem aquela poesia... Oração do menino ribeirinho. Essa poesia tem mais de vinte anos. Quando eu comecei a reuni-los, era um olhada na neta e escolhe um poema. Daí, eu fui reunindo tudo. Tem outra poesia que fala de Maria, ela estava num rascunho, num papel de pão que achei entre as minhas coisas. Queria reunir tudo o que eu tinha de natal num livro.  Então o livro nasceu dessa idéia de reunir tudo o que eu tinha de natal em um livro só. Algumas coisas são pessoais, como a história da guirlanda. Guirlanda eu só descobri que se colocava em túmulos, nos Estados Unidos. No Brasil a gente não costuma ver isso, aqui guirlanda é muito usada como enfeite natalino.

Sarah, narra esse interessante caso da guirlanda, na parte do livro que fala das tradições natalinas. Conta ela, no livro: “Na década de 70, num mês de dezembro, duas semanas antes do Natal, viajei para os Estados Unidos e como sempre faço em viagens, fui atrás de conhecimentos, curiosidades e tradições. Lá chegando, dispersei-me do grupo de companheiros de viagem e fui até Washington – Capital do país. Uma vez lá chegando, fui até o cemitério onde está sepultado o ex-presidente Kennedy – “John Fitzgerald Kennedy”. Emocionei-me diante do mausoléu e encantei-me com a beleza e o cuidado que todo o Campo Santo recebia. As cercas vivas eram de azevinhos muito verdes e repletos de frutinhos vermelhos. Só tinha visto esta beleza em cartões de natal. Mas o que mais me impressionou foram as guirlandas de natal que enfeitavam os túmulos. Perguntando para um funcionário do cemitério, fui informada de que era uma tradição do Hemisfério Norte. Acredita-se que os ramos verdes do azevinho trazem sorte e o formato circular simbolizam o ciclo da vida, do nascimento à morte. Então, enfeitam os túmulos de seus entes queridos, acreditando que eles vivam, embora em outra dimensão...”

José Flávio – Quantos livros você já escreveu?

Sarah Passarela – Esse é o sétimo.

José Flávio – Tem algum que você considera especial? Ou todos são especiais?

Sarah Passarela – Olha, é redundante dizer isso. Eu gosto de todos, mas o meu livro preferido é Fragmentos da Memória. Fragmentos da Memória, porque nele eu conto a minha história. Não que a minha história tenha algo de diferente, mas agradou muito porque eu citei muitas pessoas. Eu falo de minha infância, falo do Colégio Dom Bosco, que meu pai... Nós morávamos ali perto... Meu pai não era católico e nós meninas éramos barradas no colégio. Conto as travessuras, porque eu fui uma menina travessa, igual a todo mundo. Fui travessa, fui namoradeira, como todas as outras moças. Por isso que acho que Fragmentos da Memória foi o meu melhor livro que eu escrevi.




José Flávio – Já li Fragmentos de Memória e gostei bastante. A Sra. tem uma forma muito gostosa de escrever...

Sarah Passarela  - Que trecho recorda de Fragmentos da Memória?

José Flávio – Da árvore...

Resumindo o episódio da arvore, relatado por Sarah Passarela, no livro Fragmentos da Memória: Próximo a casa da escritora, havia uma grande árvore chamada Taiuveira, que produzia uns frutos pequenos como bagos de uva, porém com sabor bastante acido. As crianças aproveitavam a sombra da arvore e suas grossas raízes e divertiam-se bastante debaixo da frondosa árvore. Certo dia o pai de Sarah e outros agricultores notaram que um exército de formigas saúvas estava devorando os pomares e jardins. Após muita observação, descobriram que o quartel general das invasoras era debaixo das raízes da Taiuveira. Colocaram veneno ao pé da árvore. O veneno matou as formigas, porém, para tristeza da criançada, matou também a árvore. Tempos depois novos brotos surgiram e a árvore cresceu novamente.

Sarah Passarela – Que meu pai matou a árvore. Todo mundo gostou dessa história. (risos) Coitado de meu pai, ele não matou a arvore, ele matou as formigas... Ele precisava matar a formiga porque a formiga comia o roseiral dele, comia o cítrico dele.

José Flávio – Foi um mal necessário?

Sarah Passarela – Sim, foi um mal necessário. Mas as crianças não compreendiam aquilo.

José Flávio – A Sra. tem uma sensibilidade para as letras, de onde vem esse dom?

Sarah Passarela – Isso é uma coisa que me acompanha desde sempre. Eu sou de uma família que gosta de ler muito. Meu pai era evangélico, lia a Bíblia todos os dias, mas meu pai também lia Grande Hotel, que era uma revista de fotonovela que ele comprava para nós. Meu pai lia todos os clássicos da literatura. Ele não era um evangélico que era focado só naquilo. Ele gostava de literatura. Ele achava a Bíblia o livro mais importante, mas ele lia Camões, lia Eça de Queiroz, Machado de Assis. A minha mãe tinha paixão por romance. Ela costurava para algumas pessoas. Ela vendia ovos, vendia frangos para comprar livros. Então, nós acostumamos a ler. Era interessante porque se comprava um livro e tinha uma ordem para ler. Ela lia primeiro e depois nos líamos. Mas ninguém podia comentar nada do livro para que depois nós pudéssemos fazer uma mesa redonda e conversar sobre o livro. Saber o que foi assimilado, o que foi aprendido, o que foi engraçado. Isso era muito enriquecedor porque nos obrigava a ler o livro com muita atenção, pois não sabíamos o que iríamos conversar depois. Então eu venho de uma família muito literária. Depois casei, meu marido não abria uma revista, nunca leu. Ele estudou um pouco na Itália. Veio para o Brasil com nove anos. Estudou um pouco aqui, mas muito pouco...

José Flávio – Qual a profissão dele?

Sarah Passarela – Ele era mecânico de automóveis. Ele gostava muito de automóveis, mas eles também tinham uma metalúrgica, tem ainda, a Giovanni Passarela, em Hortolândia. Ele era um excelente mecânico de automóveis. Tanto é que ele tinha a empresa lá, mas consertava o carro dos amigos. Tinha gente que não comprava um carro sem o aval dele. Italiano gosta muito de carro, a empresa automobilística na Itália é muito antiga. Mas lê, ele não tinha esse hábito, não! Eu passei vinte anos sem escrever uma frase.

José Flávio – E porque não escrevia?

Sarah Passarela – Porque não tinha tempo. Meu marido tinha duas qualidades ótimas: era trabalhador e vivia para a família. Mas, em compensação, exigia muito também. Estávamos tomando o café da manhã e ele falava assim: “Você serve uma maionese na hora do almoço?” Então, ele estava chegando ao portão e eu ainda estava com a panela no fogo, porque uma maionese não se faz em cinco minutos. Ele era muito bom, mas muito exigente. Então, depois nasceu a filha... Aí depois ele morreu...

José Flávio – Em que ano ele morreu?

Sarah Passarela – Em 1990. No dia 16 de agosto de 1990. Ele morreu, quase que de repente. Passou mal. À noite ele já não estava bem. De manhã, ele falou: “Me leva para o hospital”. Chegamos ao hospital, o internaram. Isso foi numa terça-feira, na quinta, ele morreu. Infarto mesmo. Ele era obeso, fumante, tinha um histórico já. Só que a gente fica muito surpresa, apesar de eu saber que ele tinha esse histórico, mas ele tinha 45 anos e eu tinha 40 anos. A menina (Tessa), tinha 11 anos. A minha irmã gêmea Hagar, ficou aqui comigo por uns quinze dias e depois foi embora cuidar da vida dela. Fazia dezessete dias que ele tinha morrido, minha filha foi para casa de uma amiga dela para sair um pouco de casa. E eu não sabia o eu fazer, não conseguia me concentrar em nada. Ligava a televisão, mas não prestava atenção. Tentava dormir, mas não conseguia. Então, eu peguei um pedaço de papel e uma caneta e escrevi uma crônica para ele, chamada Pedaços Pedaços. Nela eu conto que a vida é um quebra-cabeça, feita de pedaços e a gente vai juntando, juntando... E termino falando que agora falta um pedaço que era no caso, ele. Daí a um mês, surgiu um concurso de crônicas – não necessariamente uma crônica, podia escrever qualquer coisa sobre Campinas - num jornal aqui da cidade. O tema era: Os caminhos de Campinas. Eu não tinha nada, a não ser aquela crônica que havia escrito recentemente, e transformei os pedaços em caminhos. Aí eu contei toda a história dos caminhos. Como nos encontramos, cruzamos o mesmo caminho, o caminho da igreja onde nos casamos. Depois o caminho da maternidade onde a filhas nasceu. Depois o caminho que eu percorri até o hospital, mas não cheguei a tempo, pois quando cheguei lá ele já tinha morrido. Peguei o primeiro lugar no concurso.           
José Flávio – Ficou surpresa com isso?

Sarah Passarela – Fiquei. Fiquei surpresa. Eu nem lembrava que tinha enviado essa crônica. Então falei: “Acho que é isso que eu sei fazer: escrever. Depois disso, não parei mais de escrever. Faz vinte e três anos.

José Flávio – A Sra., ultimamente, está em estado de graça...

Sarah Passarela – Estado de graça? Como assim?

José Flávio – Com o nascimento de sua neta, Pietra Aurora.

Sarah Passarela – Sim. É um estado de graça, sim!

José Flávio – Como está sendo essa experiência de ser avó de uma menina tão bonita?

Sarah Passarela – É muito bom. É uma experiência única. É diferente, é diferente de ter filho. É um amor maior... Dizer que é um amor maior que o da filha, é meio estranho, mas é, sabe? Você ama diferente. Não sei é porque você não tem a responsabilidade, você só tem o prazer, o lado gostoso da coisa. A Tessa sempre foi uma filha muito boa. Uma filha que foi muito amiga quando eu fiquei sozinha. Mas é um encantamento ter neta, independente, de ela bonita ou não. Se ela não fosse bonita, eu ia gostar dela do mesmo jeito.

José Flávio – A avó Sarah permite tudo?

Sarah Passarela – Não. Eu sou mais exigente do que a mãe. Os outros avós, eles são mais açucarados, pois vêem menos os netos. Outro dia eu estava conversando: “Olha, ela é bonita, ela tem muita saúde, mas ela tem que ser educada”. Então, é assim, agrado, brinco, se ela tivesse aqui agora eu estaria sentada no chão, brincando com ela. Preocupo-me com a alimentação dela. Preocupo-me muito com o vocabulário dela. Ela tem uma responsabilidade de falar corretamente, afinal, ela é neta de uma escritora. (risos)

José Flávio – Para terminar, que mensagem você gostaria de deixar para aqueles que vão ler essa entrevista?

Sarah Passarela – Depois que eu escrevi meu primeiro livro, eu levantei uma bandeira sobre o livro. Explicando para as pessoas, o valor do livro. Às vezes eu vou fazer palestra nas faculdades de letras sobre literatura. Então, eu digo para eles o valor do livro. Antigamente tinha-se uma idéia de que o brasileiro não lia porque o livro era caro. Hoje não fazem mais essa associação, porque eles viram que, realmente, não tem sentido. A pessoa, ela pode comprar um livro e o livro pode ser passado para várias pessoas. Então, uma pessoa compra um livro, mas 30, 40, 50 pessoas podem ler esse livro. Ou ela pode fazer um rateio entre 30, 40 pessoas e ler. Eu faço uma comparação e até pergunto para as pessoas: “Quantas vezes você deu um livro de presente para alguém. Eu lhe faço essa pergunta? Quantas vezes você já deu um livro de presente?

José Flávio – Não lembro, mas sei que não foram muitas.

Sarah Passarela – Então eu pergunto nas palestras: “Quem já deu um livro de presente”? Ninguém levanta a mão. “Quem já ganhou um livro de presente”? Ninguém levanta a mão. Então a pessoa compra... Vamos colocar esse livro. Esse livro custa vinte reais. Se você comprar um vidro de perfume, uma caixa de bombom, um buquê de flores, ele vai custar mais caro do que 20 reais. O perfume acaba, a flor murcha, o bombom engorda. Então, não é melhor dar um livro de presente?

José Flávio – Uma última pergunta. Você tem um escritor favorito?


Sarah Passarella – Olha, em termos de poesia, eu gosto muito do Fernando Pessoa. Em termos de Brasil, eu gosto do Guilherme de Almeida. Acho a rima do Guilherme de Almeida, uma coisa muito boa. Tem uma escritora que as pessoas quase não conhecem: Emí Bulhões Carvalho da Fonseca. Para mim, ela é a melhor escritora que eu já li. E é brasileira. Hoje, mudou muito a literatura. Hoje você não consegue recomendar para um jovem, um Machado de Assis. Ele não consegue ler. Porque Machado de Assis é um grande escritor, mas ele era muito minucioso. Eu até costumo falar nas palestras que ele levava quatro páginas para falar do calcanhar da donzela. Hoje, calcanhar de donzela não é mais fetiche para ninguém.    
 

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Viajando no mundo das palavras com Sarah Passarella ( I parte)

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 12:43
Quinta-feira, 26 de dezembro

Entrevista Sarah de Oliveira Passarella

"Eu fico fascinada com o natal"




No dia 14 de dezembro às 15hs, a escritora Sarah de Oliveira Passarella, lançou o livro “Poemas de Cantar Natal”, o evento aconteceu nas dependências do CIS-Guanabara, à Rua Mário Siqueira, 829, no bairro Botafogo, em Campinas. A festa de lançamento ocorreu durante uma cantata de natal da qual participaram diversos corais de Campinas e região. Foi uma bela festa. Entre um autografo e outro, perguntei a Sarah se ela poderia me conceder uma entrevista. Ela respondeu que sim e ficamos de combinar data e hora por e-mail. Quando perguntei a Sarah em que bairro ela morava, ela respondeu: “Eu não moro, me escondo na Vila Nogueira”. Enfim, marcamos a entrevista para o final da tarde/início da noite de sexta-feira, dia 20. No dia combinado, cheguei à casa da escritora, por volta das 8h30 da noite. Enquanto caminhava até lá, compreendi por que ela falou que não morava, se escondia. O bairro é de fácil acesso, mas a rua em que ela mora forma um circulo, e não é muito fácil de ser encontrada, porém vencido esse pequeno obstáculo, toquei a campanhinha. Enquanto esperava que Sarah viesse abrir o portão, fiquei apreciando a quietude da noite e a tranqüilidade da rua. No céu, ainda se conseguia ver os últimos raios de sol desaparecendo no horizonte. Ouvi o barulho da fechadura do portão se abrindo, e Sarah me recebeu com sua gentileza costumeira. Encaminhamo-nos para dentro de casa. Já na porta de entrada, me chamou à atenção uma exuberante guirlanda natalina, com enormes bolas vermelhas. Ao adentrar a residência da escritora fiquei encantado com a bela e caprichada decoração natalina. Senti-me entrando nas páginas de um livro de contos de natal. Eram árvores de natal, guirlandas, trenós, Papais-Noéis, anjos e presépios em profusão.

__ Onde você quer sentar: aqui no sofá da sala ou na mesa de jantar? Perguntou ela.

__ No lugar em que você se sentir melhor, respondi eu.

__ O lugar que eu acho melhor é em frente ao computador. Uma vez não sendo possível a entrevista lá. Podemos sentar aqui no sofá mesmo. Depois da entrevista, vou te mostrar minha coleção de presépios.

__ Podemos começar justamente por aí, pela sua coleção de presépios? - Havia lido no livro da Sarah, que ela é colecionadora desse gênero de arte e tem, atualmente, quinhentos e trinta e três exemplares. Fiquei impressionado com esse fato e queria satisfazer a curiosidade em ver tantos presépios juntos.

__ Claro! Respondeu Sarah, prontamente.




 __ A escritora foi me mostrando os presépios. Primeiros os que estavam expostos na sala. Depois descemos uma escada e, em outra sala, havia mais presépios, cada um mais belo que o outro. Fiquei admirando tudo aquilo enquanto ela me falava, com entusiasmo, de como havia adquirido alguns e de sua paixão por essa coleção. Através desse gênero de arte, a escritora trouxe o mundo para dento de casa. Há presépios trazidos de vários Estados brasileiros; do Nordeste ao Rio Grande do Sul, e de vários países; Estados Unidos, Alemanha, Itália, Egito, Portugal, Bolívia, México, Nigéria, dentre outros. Trouxe também a natureza junto: há presépios feitos de casa de milho, de casca de romã, de casca de nozes, de arame, tecido, louça, velas. Também os recicláveis estão presentes nas latinhas de refrigerante e em garrafas pet. Depois de me contar as histórias curiosas envolvendo os presépios, e me mostrar o restante da decoração, voltamos ao sofá da sala, onde conversamos por quase uma hora.

Sarah de Oliveira Passarella é paulista, nascida na cidade de Limeira, porém toda a sua infância e juventude foram vividas na cidade de Americana, da qual guarda as melhores lembranças. Vinda de uma família de seis irmãos, é filha de Fernando de Oliveira e Deldina Martins (dona Dina). É viúva do Ítalo brasileiro, Antonio Passarela, com quem teve a filha Tessa. A filha de Sarah, Tessa Virginia de Oliveira Passarela Madeira, é casada com Wander Marcelo Brugnola Madeira. Desse casamento, nasceu Pietra Aurora, hoje, com três anos de idade, neta de Sarah.  O poder publico da cidade de Campinas, outorgou a escritora, a medalha “Carlos Gomes” honra máxima da cidade, pelos serviços prestados junto à cultura de Campinas.

O livro, Poemas de Cantar Natal, é prefaciado pelo maestro Oswaldo Antonio Urban, e o texto que acompanha a orelha do livro foi escrita por Fernanda Beatriz de Oliveira de Faria Bernardi, advogada especialista em Direito Tributário.

Na entrevista, Sarah fala de seu fascínio pelo Natal, da família, do seu trabalho como escritora e do novo livro “Poemas de cantar Natal”.



José Flávio - Como surgiu essa paixão pelos presépios? Esse desejo de querer colecioná-los?

Sarah Passarela – O primeiro que eu vi foi numa igreja... Meu pai era adventista. Minha mãe era católica, mas era do tempo em que a mulher tinha que seguir o marido. Então, ela não podia ter outra religião, ou trabalhar fora. Trabalhar fora, ela não podia nem quando era solteira, pois o pai dela não permitia. Ela era do tempo em que mulher não trabalhava fora. O primeiro presépio que eu vi e, que hoje faz parte de minha coleção e tem mais de cem anos...




José Flávio - Isso foi em Americana?

Em Americana. Eu achei aquilo muito interessante. Achei bonito, retratar a história de Jesus através das imagens. Mas na minha casa não tinha, porque no conceito de meu pai, não se cultua imagens. Depois quando eu me casei, dois anos depois, meu marido me deu um presépio, que até está lá embaixo. Nós fomos à igreja, tinha uma lojinha lá, eu achei tão bonitinho. Então ele falou: “Leva para você, já que você gostou”. Então ele me deu aquele. Depois eu fui comprando outros. Quando eu vi, eu estava com mais de cem presépios. Quando eu viajo, qual a minha meta principal? Buscar presépio!  (risos).  Foi meio sem querer. Eu falei: “Gostaria de colecionar alguma coisa: passei a colecionar presépio. Eu acho interessante, passei a estudar bastante o que era realmente o presépio, o que representa essa palavra. As pessoas dizem “Ah, tal cidade é uma maravilha, parece um presépio". Ora, o presépio é uma cocheira, onde Jesus nasceu. Não dá para associar as coisas. Não era bonito, tem a simbologia bonita. Mas uma cidade bonita não parece um presépio. Mas é assim, eu comecei a gostar do assunto. Por isso que eu consigo colecionar presépio.

José FlávioEsse primeiro presépio que você viu e que hoje está montado em sua casa, como você o adquiriu?

Sarah Passarela – Passados muitos anos, eu me mudei de Americana. Eu me casei em 1970, vim morar aqui, e o meu cunhado, ele mora em Americana, mas trabalhava na Bosch, trabalhou trinta anos na Bosch, depois se aposentou. Ele foi convidado para trabalhar numa igreja. Ser comprador da igreja, naquela igreja na qual eu tinha visto o presépio. Eles compraram outro presépio grande para colocar no gramado, na frente da igreja. Aí eles perguntaram o que fazer em relação ao outro. O padre que tomava conta da igreja falou: “Amarreta ele e joga fora”. Então meu cunhado falou: “Não, se for assim, vou dar para minha cunhada. Ela gosta de presépio. Então ele me trouxe o presépio.

José FlávioÉ bem interessante, aquele primeiro presépio que você viu, veio parar em suas mãos. Não é muita coincidência?

Sarah Passarela – Vou te contar outra história. Eu gosto muito de viajar, meu marido gostava também. Mas a gente não viajou muito porque não tínhamos muita oportunidade. Ele trabalhava, não chegou nem a se aposentar, ele morreu antes, morreu muito novo, mas viajamos algumas vezes. Depois que ele morreu, eu continuei trabalhando, me aposentei, mas continuei trabalhando, mas aí surgiu outras oportunidades de viajar. Por que aí é mais fácil, você tem uma amiga que também é solteira, viúva ou separada que tem vontade de viajar... Aí nós fomos para o Egito e para Israel. Fomos à Jordânia e, chegando à Jordânia, você desce assim por uma estrada, é tudo pedras, eles fizeram uma estrada e, naquelas pedras, o vento foi formando desenhos. Depois que nós chegamos lá embaixo, havia um lugar sagrado, um portal que estava fechado, a gente não pode visitar, tinha duas barraquinhas de artesanato, de bugingangas, eram duas barraquinhas, tudo cheio de terra. Daí eu falei: “Preciso comprar alguma coisa, daqui. Tenho que levar algo da Jordânia”. Eu comprei três colheres de ferro. Aquelas colherzinhas tudo encardidas, sujas, mas mesmo assim eu trouxe, quando cheguei aqui eu lavei, lavei, e nada. Fique pensando: “Será que não sai essa terra dessas colheres”? Então, o que fiz? Comprei uma lata de querosene e mergulhei as colheres dentro dela. Quando elas ficaram limpinhas, sabe o que tinha no fundo das colherinhas? A Sagrada Família! Quando eu tirei do querosene e vi aquelas imagens no fundo das três colheres, fiquei sem acreditar no que estava vendo: era o presépio. O presépio, realmente, está ligado à minha vida.



José Flávio – O que representa o presépio para você?

Sarah Passarela – Eu acho que é um sinal da vida. A vida dá sinais, e dá sinais de vida. Cada vez que chega o natal, é uma vida que se renova. É algo que se renova. Por mais que você seja ateu, e não digo ateu no sentido de que não acredita. Não acredita porque não conhece. O natal mexe com a pessoa. É uma renovação para ela. Ela não acredita em nada, mas no natal ela fica mais sensível. Ela não costuma dar nada, mas quando chega o natal ela presenteia alguém. Ela passa o ano inteiro sem ver um irmão, mas quando chega o natal ela vai visitá-lo. Então, o natal, para mim, é sinal de nova vida. Um sinal de renascer. Eu acho isso fantástico! Eu fico fascinada com o natal, eu queria ter o triplo dos presépios que tenho, para festejar mesmo, essa nova vida, esse renascer. Eu penso assim, que... Não no cunho religioso, mas no poder dessa pessoa, chamada Jesus, o poder que ele tem... As pessoas morrem, daí a um mês, ninguém lembra mais. Ele (Jesus) morreu há dois mil anos e até hoje é lembrado. Ele mudou um calendário. Todo ano, as pessoas querem comemorar e ficam mais sensíveis e alegres com o nascimento dele. É uma coisa que independente de religião. Eu posso falar bem disso porque eu nasci num lar que não era católico. Tornei-me católica porque fui estudar em colégio de freira e elas eram muito boas para a gente. Isso fez com que a gente gostasse da religião católica. A vida dos santos, eu acho uma coisa maravilhosa. Convivo com amigos que são Espíritas, Batistas, Testemunhas de Jeová. Eu recebo Testemunhas de Jeová em minha casa toda vez que eles passam. Eles aprendem lá no culto, que só vão ganhar o céu, se eles levarem a mensagem. Se ninguém atender, como é que eles vão... Então, independente de religião, Cristo mexe com todas as pessoas. Em toda religião, pode ser ela qual for, Jesus está em primeiro plano. Então a força desse ser, é uma coisa maravilhosa. Então acho que eu escolhi o melhor caminho. Tem gente que coleciona borracha, canivete...

José Flávio – Selos.

Sarah Passarela – Selos. Não desfazendo de quem coleciona essas coisas, nada disso. Eu acho que eu escolhi o melhor caminho...



José Flávio – O que acha que falta para as pessoas levarem o espírito do natal pelo resto do ano?

Sarah Passarela – É conseqüência do mundo moderno que nós vivemos. As pessoas precisam trabalhar. Há as divergências, a pessoa acaba, às vezes, ficando revoltada com coisas que acontecem. Então você acaba até esquecendo aquele espírito de natal que você teve em dezembro, quando você um seqüestro de criança. Um pai de família que morre num acidente de trabalho. Então, sem querer, a pessoa dispersa daquele sentimento. Não dá para ela ficar com aquele espírito o ano todo. É o bem e o mal, não é? Deus colocou esse Filho no mundo, para que a gente tenha esse sentimento, mas tem o lado ruim que está aí, lhe cutucando e a gente precisa ser muito forte para não partir para o lado do mal. Eu não acredito em céu e inferno, em pecado, em Deus e demônio. Eu acredito em poderes... O poder da mente.

José FlávioComo era o natal junto com a sua família, em Americana?

Sarah Passarela – Comemorávamos o natal assim, na minha casa não tinha presépio. Meu pai não acreditava em... Acontece que meu pai era um evangélico de mente muito aberta. Ele não era inimigo do padre, meu pai era um homem culto. Ele estudava a Bíblia como quem estuda um livro. Preconceito, essas coisas ele não tinha. A árvore de natal era imprescindível em casa. Meu pai era agricultor. O forte dele era cítricos, mas ele plantava também pinheirinhos de natal, e a árvore mais bonita ia para minha casa. Então, pelo menos na minha visão de criança, a árvore mais bonita que existia, era a árvore de minha casa. Nós tínhamos a árvore de natal e comidas saborosas. Nesse dia, até vinho meu pai tomava. Ele lia um trecho de Lucas (o Evangelho de Jesus Cristo, segundo Lucas), que falava do nascimento de Jesus. Eu já nasci com isso.

José Flávio – Por isso que eu percebo, nos objetos que decoram sua casa, uma religiosidade muito forte...

Sarah Passarela – Sim. Nas historias que tem. E, quando não é época de natal, eu tenho objetos que possuem histórias belíssimas. Eu tenho um prato que a minha sogra usou na barriga, quando os alemães invadiram a casa deles. Eles moravam na Itália, ela estava em casa, de avental, então ela pegou aquele prato e colocou na barriga, então eles pensaram que ela estava grávida e deixaram-na ir embora, ela e os filhos pequenos, e na realidade o que ela tinha era um prato que havia colocado na barriga. Ela deu para mim, esse prato, porque ela sabe que eu amo, que eu gosto das histórias. Então, os objetos em minha casa sempre têm uma história. Nunca eles estão ali por estar.

José Flávio – É muito bonita sua relação com a vida, com os objetos. A Sra. busca colocar um significado em tudo aquilo que faz... Acho que nada na vida da gente é por acaso. Não estamos aqui por acaso.


Sarah Passarela – A gente está no mundo porque tem essa missão de estar no mundo. As pessoas que cruzam o caminho da gente. Pessoas que, às vezes, vem para enriquecer nossa vida, às vezes até para nos perturbar, mas isso também pode ser um enriquecimento. Tem tudo isso. A minha história de natal é essa. Eu escrevia muito sobre natal. Sempre escrevi uns versos, umas poesias. Até que um dia eu pensei: “Poxa, porque eu não lanço um livro de natal, já que eu gosto tanto de natal.

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