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Liberdade: O sol que nasce para todos

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 09:21
Segunda-feira, 20 de novembro
Mais é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez eu sei
Escuridão já vi pior de endoidecer gente sã.
Espera que o sol já vem
(Mais do mesmo – Renato Russo)



Hoje, vinte de novembro, é dia da Consciência Negra. Hoje, mais uma vez, como tem feito há muito tempo, o sol se levanta sobre todos: Negros, brancos, pobres, ricos, velhos e crianças, para gente da favela, e para gente dos palácios.
O sol, assim como a chuva, o vento, e todos os elementos da natureza, são, por natureza, sábios. Eles não fazem discriminação.
Já pensou um sol que nascesse apenas para os negros? Ou uma chuva que chovesse apenas para os brancos, ou um vento que ventasse apenas para os velhos, ou uma terra que desse fruto apenas para as crianças?
Os homens, todos os homens e mulheres deveriam aprender com a natureza. Isto é, deveriam ser tão sábios quanto ela, a mãe de todos nós: a mãe natureza. Essa mãe tão bondosa que abraça todos os seus filhos, sem fazer distinção de raça, cor, religião, filosofias, e todos os outros sistemas e categorias que os homens inventaram para complicar ainda mais a já tão complicada vida terrena.
E, notem, que para ser sábio, para ser sábia, não é necessário ter os melhores diplomas, nas melhores universidades. Ao contrário, tem muita gente que tem tudo isso, e, se comparado a um asno pastando no campo, o asno ainda é mais sábio. Diplomas e conhecimento não significam, necessariamente, sabedoria. Tem gente que têm as duas coisas: diplomas e sabedoria, e Deus seja louvado por isso.
Pensem vocês sobre qual curso a mãe natureza fez. E pensem vocês também em como tudo funciona com perfeição na natureza. O próprio astro rei tem um caminho a percorrer no céu, diariamente, e o percorre sem atrasar um segundo sequer. Se bem que, ao que nos parece, ele tem andando um pouco mais rápido, dada a velocidade com que tem se sucedido os dias, as horas, os anos. Mas todos os dias lá está ele, imponente, e disposto a cumprir a missão que lhe foi confiada.
Os órgãos de nosso corpo, os cabelos de nossas cabeças, as unhas de nossos dedos, por mais conhecimento e poder que tenhamos, não conseguimos dar sequer uma ordem a qualquer um deles, para que cresçam, ou deixem de crescer, para que funcionem, ou deixem de funcionar. Tudo é regido e permitido por uma força maior. Tudo na natureza é regido por uma força maior, inclusive, nós seres humanos, que ingenuamente, às vezes nos consideramos deuses. Coitados de nós, tão pequenos e frágeis, e tão nas mãos do destino!
E apesar de toda essa impotência, diante do poder criador que a tudo rege, ainda nos damos, enquanto raça humana, o direito de julgar as pessoas pela cor da pele, pela posição social que ocupa, por alguma limitação que tem no corpo do outro.
A pele, uma dia a terra pedirá de volta. Ninguém escapa disso, pretos, brancos, pardos, todos vieram do pó e ao pó voltarão. O dinheiro, por mais que se tenha, não dá para levar no esquife, o qual a terra também devorará. A limitação que vemos no corpo do outro e que nos faz vê-lo como menor e incapaz, pode estar apenas e tão somente no corpo, porque, na mente, aquele que vemos como incapaz pode estar a quilômetros á nossa frente.
Então, porque sair por aí, pisando, humilhando, maltratando, discriminando a quem quer que seja?
Metaforicamente, a vida já foi comparada a uma jornada, a uma vela, e tantas outras coisas, mas lembremos de que a vida, metaforicamente, também pode ser comparada a um processo judicial. E lembremos também que, em todo processo judicial, ao final dele, você estará sentado diante de um juiz que julgará suas ações. Lembre-se que ao final do processo judicial só há dois caminhos possíveis: a liberdade ou a condenação. Trabalhem pois, enquanto lhes sobra tempo para ganhar, ao final do processo, o merecido e agradável premio da liberdade.
Parem de perder tempo com coisas inúteis e desnecessárias. Olhai para a grandiosidade da vida, para a riqueza que é o outro que caminha a seu lado. Veja nele seu semelhante e não seu diferente. Afinal, Deus é um só. Porque então considerar o outro menor pela cor da pele, posição social e todos os outros critérios que levam a uma discriminação e preconceito que geram violência?
A seguir, este blog compartilha palestra de uma das melhores atrizes brasileiras: Thais Araújo, negra, mãe de dois filhos: um menino e uma menina, e casada com o também ator negro, Lazáro Ramos.
Thais proferiu palestra no evento, Mulheres que Inspiram, promovido pelo TEDx, em São Paulo, no começo deste mês.
Na palestra, de uma forma simples e emocionante, atriz fala da preocupação com a educação e o futuro dos filhos em país preconceituoso contra os negros e mulheres. Ela também fala de racismo, preconceito e violência.

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Thais Araújo

Como criar crianças doces num país ácido?

TEDx/São Paulo – Thais Araújo
Eu sou mãe de um menino de 6 anos chamado João Vicente e de uma menina de 2 anos e 7 meses chamada Maria Antonia, e a pergunta que eu mais escuto, a pergunta que mais me fazem é: qual a diferença entre criar um menino e criar uma menina? E a minha resposta ela é sempre muito imediata, ela é sempre a mesma. Eu sempre falo que eu não vejo diferença entre criar meninos e meninas. Eu to criando dois indivíduos, portanto, cada um tem suas características.
Essa minha resposta, apesar de sempre a mesma, ela é uma mentira. Eu vejo diferença entre criar meninos e meninas. O gênero é uma questão. Porque quando eu engravidei de meu filho, eu fiquei muito, mas muito aliviada, de saber que no meu ventre, tinha um homem. Porque tinha a certeza que ele estaria livre de passar por situações vivenciadas por nós mulheres.
Teoricamente, ele está livre, certo? Errado. Errado porque o meu filho, ele é um menino negro, e liberdade não é um direito que ele vai poder usufruir se ele andar pelas ruas, descalço, sem camisa, sujo, saindo da aula de futebol. Ele corre o risco de ser apontado como um infrator, mesmo com 6 anos de idade.
Quando ele se tornar adolescente ele não vai ter a liberdade de ir para a sua escola, pegar uma condução, pegar um ônibus com a sua mochila, com seu boné, ou com o seu capuz, com seu andar adolescente, sem correr o risco de levar uma investida da polícia, ao ser confundido com um bandido. Porque no Brasil, a cor do meu filho é a cor que faz com que as pessoas mudem de calçada, escondam suas bolsas, e que blindem seus carros.
A vida dele só não vai ser mais difícil que a vida da minha filha. Com a Maria Antonia eu me pego pensando o tempo inteiro o quanto nos mulheres somos criadas pra agradar, o quanto nos silenciam, e o quanto nos desqualificam, o tempo inteiro. Quando eu penso no risco que ela corre, simplesmente, por ter nascido mulher e negra, eu fico completamente apavorada, e o meu pavor tem uma razão.
Observando o mapa da violência no Brasil, esse mapa é o de 2015, é o último que a gente tem, os números são muitos alarmantes. Mas nós temos algumas vitórias muito poucas, mas eu queria ressaltar uma: o número de feminicidio contra mulheres brancas ele caiu. Ele caiu 9,8%. É muito pouco o que a gente deseja pra nossas irmãs brancas, mas caiu. Já o numero de feminicidio contra as mulheres negras aumentou 54, 8%.
É ou não pra eu ficar apavorada? Preciso dizer mais alguma coisa? Preciso dizer que, apesar do meu pavor, apesar do meu medo, apesar desses números alarmantes, eu não ouso perder a esperança, e fico elaborando o tempo inteiro uma maneira de eu criar meus filhos aqui no Brasil, no meu país.
Eu fico pensando em como criar crianças doces num país tão ácido? Como criar crianças que acreditem que pluralidade e diversidade são riquezas, num país que é tão plural, que é tão diverso, e que é tão desigual? Como não jogar sobre elas uma vivencia, experiência, até uma magoa que é minha, mas também como não permitir que elas enfrentem o mundo de maneira ingênua, pra que não sejam atropeladas pelo racismo que existe na estrutura de nosso país?
Eu assisti a um filme chamado a 13a emenda, um documentário, ele fala sobre o sistema carcerário norte americano, e fala de um homem, um homem branco, me chamou muito atenção. Ele disse: eu sou fruto de uma escolha feita pelos meus antepassados.  Os negros são frutos de uma falta de possibilidade de escolha dos seus antepassados. Eu, homem branco, tenho culpa dessas escolhas? Os negros contemporâneos têm culpa dessas escolhas? Não. Nenhum de nós temos culpa.  Mas foi uma herança que a gente recebeu, então a gente tem que ter a responsabilidade de lidar com essa herança das quais somos frutos.
Eu fiquei pensando no que esse cara falou, eu pensei: Gente, que ele tá falando? Essa herança que esse cara tá falando, ela tem um nome e ela se chama nossa sociedade. Sendo assim, a desigualdade social, a desigualdade entre gêneros, e o racismo, são, sim, problemas de todos nós. E não é só problema de gênero, não porque até a condição sexual importa muito nesse país.
O Brasil é o país que mais mata homosexual no mundo. Os meus filhos eles são crianças ainda. Eu não sei qual será a condição sexual deles, mas o que eu desejo para os meus filhos é o que eu desejo para toda e qualquer criança, seja branca, negra, indígena, heterossexual, homossexual, gay, trans, eu desejo que eles cresçam livres, cheios de amor, coragem, que sejam crianças potentes.
E eu também tenho um sonho. Eu tenho um sonho de ver ricos trabalhando para acabar com a pobreza, de ver homens se colocando no lugar de mulheres, de ver mulheres brancas entendendo que existe um abismo entre mulheres brancas e mulheres negras. Eu tenho um sonho de ver crianças heterossexuais aceitando crianças homossexuais e trans, de ver mulheres heterossexuais aceitando mulheres lésbicas, e, todos nós, que a gente fique muito atentos pra garantir o direito dos índios.
Eu queria aqui hoje fazer um convite, um convite pra gente se ajudar mutuamente, se ajudar para que todos possam ter de fato as mesmas possibilidades, porque perante a lei, somos todos iguais, mas na prática não somos. Isso não é um problema. As diferenças não são um problema desde que elas não causem desigualdade.
Pra isso acontecer, eu tenho a sensação de que a gente tem que começar a olhar pro outro com humanidade, com afeto. É um exercício. Olhar pro outro com afeto é um exercício. Entender que o outro e sim uma extensão da gente. Olha, se a gente quiser andar tranquilamente pelas ruas, de dia e de noite. Se a gente quiser ficar nas nossas casas sem aflição de saber como ou se os nossos filhos chegarão aos seus destinos. Se a gente quer ligar a televisão e não assistir a uma enxurrada de sangue. Se agente quer andar com os nossos com os vidros abertos, não quiser ficar fazendo conta de quanto será blindar um carro, a gente vai ter que melhorar a vida das pessoas. É a única maneira.
E uma chance disso é a gente olhar pro outro com afeto, com atenção, e aí fica a pergunta: como é que a gente pode melhorar a vida das pessoas? Eu não sou o governo. Eu não sou uma empresa. Por que um governo sério a gente sabe o que ele deve fazer para acabar com a desigualdade. Ele deve investir em políticas públicas, em ações afirmativas, em políticas educacionais, inclusivas, né?
Uma empresa ela pode reavaliar o seu quadro de funcionários, e fazer da diversidade um pilar real dessa companhia. Mas, e a sociedade civil? O que a sociedade civil pode fazer? Bom, nos somos a sociedade civil. E essa tem sido a questão da minha vida: como eu posso melhorar a vida das pessoas?
E aí eu fico pensando que talvez a gente tenha que transformar os nossos pensamentos, as nossas falas em ação. Entender que as ações individuais elas geram impacto diretamente no coletivo, e o coletivo somos nós. Somos a nossa sociedade. As pequenas ações elas são valiosas e elas são capazes de mudar o mundo. E onde começa o mundo senão em nós mesmos?

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Preconceito, racismo, e violência: Um legado indesejável

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 13:52
Domingo 19 de novembro

Ninguém ouviu /Um soluçar de dor
No canto do Brasil / Um lamento triste
Sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro / E de lá cantou
Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou
(Canto Das Três Raças: Composição: Mauro Duarte e
 Paulo César Pinheiro / Interpretação: Clara Nunes)



O Jornal Nacional, edição deste sábado (18), mostrou o caso do jovem, negro, ator, Diogo dos Reis Cintra.

Na madrugada da quarta-feira (15), Diogo foi abordado por dois homens brancos no Centro de São Paulo. Eles pediram o celular. Diogo hesitou... E fugiu correndo. Pensava ele: Vou entrar no terminal de ônibus onde há muita gente, e seguranças, pois lá encontrarei proteção.

Para azar do jovem, os homens também correram na mesma direção. Chegando lá, os que o perseguiam inverteram a situação. Disseram aos seguranças que Diogo era o ladrão. Advinha em quem os homens acreditaram? Em Diogo, ou nos dois homens brancos que o acusavam?

Acertou se você optou pelos dois homens que perseguiam o jovem. Os seguranças colocaram então todos para fora. Para Diogo, as coisas não pararam por aí. Ele levou vários socos, chutes, e pauladas. Não bastasse isso, ele ainda foi mordido pelo cachorro de outros dois homens que também participaram da agressão.

Debaixo do sofrimento e agressões, Diogo viu a morte de perto. Teve medo... E, mais uma vez, fugiu. Dessa vez não pediu proteção a mais ninguém. Vai que as coisas se tornassem pior...

Se fosse apenas Diogo a ser agredido pelo fato de ser negro, e se fosse apenas no centro de São Paulo, as coisas ainda podiam tomar um rumo diferente, podia-se corrigir a situação sem maiores problemas. Mas as coisas não são bem assim.

Ainda na mesma reportagem, o JN trouxe dados de uma pesquisa que mostra que os brasileiros negros são os que mais correm o risco de serem vítimas de agressão e violência, e, até mesmo, de serem assassinados.

A referida pesquisa foi elaborada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ela indica que os negros somam 54% da população, entretanto 71% deles são vítimas de homicídio.

Ainda segundo o Fórum, dados compreendidos entre 2005 e 2015, revelam que, dentre os mortos em homicídios, o número de brancos caiu 12%, enquanto o número de negros aumentou 18%.

Se fosse apenas essa pesquisa feita pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública ainda se poderia lançar uma sombra de dúvida sobre o resultado dela, porém, qualquer estudo que se faça nessa área apontará sempre para o mesmo resultado: os negros como as maiores vítimas da violência.

Por exemplo, o Atlas da Violência 2017, um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança. O estudo apresentado no dia 05 de junho deste ano mostra que homens, jovens, negros, e de baixa escolaridade são as maiores vítimas de mortes violentas no país. Segundo esse estudo, de cada 100 pessoas assassinadas no país, 71 são negras.

Isso falando da violência que se vê, que se nota, que se contabiliza e que se faz estatística. E o que dizer daquela violência praticada contra os negros de forma explícita, ou disfarçada, quando ao fazer uma entrevista de emprego, o entrevistador não olha a capacidade da pessoa que está na frente dele, mas olha para a cor da pele do entrevistado e para o lugar onde ele mora.

Amanhã se celebra em diversas cidades e municípios brasileiros, o Dia da Consciência Negra. Um dia que vale como um grito contra a opressão sofrida pelo povo negro e um grito de reivindicação por direitos iguais. Respeito.

Por que os negros precisam de um dia para celebrar a Consciência Negra? Essa é uma pergunta feita constantemente por brancos, nos ambientes universitários, onde se pressupõe certa cultura, nos ambientes de trabalho, ou até mesmo nas rodas de conversa.

Ora, por que o povo negro precisa de um dia para celebrar o Dia da Consciência Negra?

O povo negro precisa de um dia no ano para celebrar a consciência negra para lembrar a coletividade branca, e aos negros que não se assumem como tal, os 300 anos passados sobre o julgo da escravidão, tendo o coração cheio de liberdade, de saudade da distante Mãe África, de onde foram arrancados, colocados em navios e trazidos para terra distante.

A comunidade negra precisa deste dia para, simbolicamente, livrar-se das correntes pesadas que lhes atavam os pés e mãos. Para tirar do tronco os irmãos que sofriam debaixo de chibatadas que dilaceravam-lhe o corpo, sobre cujas feridas o remédio jogado era sal.

O Brasil precisa de um dia da Consciência Negra para fazer reverencia aos heróis e mártires que mesmo sob o julgo da escravidão, sempre acreditaram na liberdade, e que era possível ousar viver em uma sociedade diferente, onde eles não fossem tratados como bichos, animais, coisas.

Para lembrar a sociedade que a Lei Áurea que os libertou não os redimiu. Ao contrário, jogou-os na rua da miséria, sem que lhes acolhesse em seus direitos básicos. E assim, sem direito à saúde, educação, e condições de vida digna, foram os negros jogados pelos recantos mais desprezados pela população branca que gozava das benesses do estado brasileiro.

A você negro, a você negra, quando lhe perguntarem por que o povo negro precisa de uma para a celebrar o Dia da Consciência Negra, não lhe diga apenas que precisa desse dia porque seus antepassados apanharam amarrados a um tronco, sob os estalos de um chicote de um feitor cruel.

Diga-lhe que o povo negro precisa desse dia, pois ao povo negro foi deixado um legado de preconceito, de discriminação, de violência, de descaso com a saúde, e com a educação dessa parcela da população. Legado esse que ainda hoje, faz o povo negro sofrer violência, preconceito e discriminação.

A você negro, a você negra, quando lhe perguntarem: Porque o Dia da Consciência Negra, diga-lhes que é um dia para reivindicar liberdade e direitos iguais. Um dia para reivindicar respeito por todo um povo, por toda uma cultura, enfim, pelos braços que ajudaram a construir o país em que você mora, e que é o país no qual também mora quem lhe fez a pergunta.

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Andando na contramão da moralidade

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 12:53
Domingo, 12 de novembro
Onde a máquina me leva não há nada
Horizontes e fronteiras são iguais
Se agora tudo que eu mais quero
Já ficou pra trás
Qualquer um que leva a vida nessa estrada
Só precisa de uma sombra pra chegar
A saudade vai batendo e o coração dispara

(Retrovisor – Fagner)


Na sexta-feira (10), funcionários da Mercedes, equipe à qual pertence o piloto Lewis Hamilton, foram assaltados, em São Paulo. A equipe deixava o autódromo de Interlagos, Zona Sul da cidade, quando foi abordada por cinco ou seis bandidos armados, segundo Niki Lauda, chefe da Mercedes, que dispararam alguns tiros. A equipe está no Brasil para o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 que acontece neste domingo (12).

O tetra campeão mundial de Fórmula 1 não estava junto com a equipe no momento do assalto. Porém, ficou uma fera quando soube do ocorrido. “Alguns integrantes do meu time foram abordados por homens armados quando deixavam o circuito no Brasil. Tiros foram disparados e armas foram apontadas para a cabeça de alguns. É muito desapontador ouvir isso. Por favor, rezem por meus companheiros que são profissionais e estão abalados”, escreveu o piloto nas redes sociais, e acrescentou: “Isso acontece todo ano aqui. A Fórmula 1 e as equipes precisam fazer mais. Não há desculpas”.

O Sr. está certo, excelentíssimo Sr. tetra campeão da F1. A F1 e as equipes que a compõem precisam fazer alguma coisa para evitar esses constrangimentos. Porém o que o Sr. talvez desconheça é que quem precisa fazer muito mais são os nossos governos nas esferas municipais, estaduais, e federal, que gastam seu tempo e o dinheiro do contribuinte a roubar o dinheiro dos cofres da nação, e ainda por cima, na surdina, no silêncios dos porões sórdidos do Legislativo e do Executivo tramam planos para que o combate à corrupção e à impunidade — que deveria ser a bandeira máster a ser levantada por eles — seja, tal qual lixo, empurrada para debaixo do tapete, e jogada nos aterros do esquecimento.

Recentemente, o deputado Miro Teixeira, do Partido Rede, fez um comentário que, mais que um comentário político, é uma resumida análise sociológica. Disse ele, referindo-se a um projeto de lei que pode enfraquecer a Lei da Ficha Limpa: “Vai ser um passo atrás. A rigor vai ser um estímulo à impunidade. E sempre que aumenta a impunidade nas esferas mais elevadas da administração pública, acaba aumentando a sensação de impunidade do criminoso comum, aumenta o crime na rua. Uma coisa está muito vinculada à outra”.

Como diz o deputado, quem sabe não esteja aí a razão para o aumento da criminalidade em nosso país, principalmente nos grandes centros, como Rio e São Paulo. Pegando carona na fala de Miro Teixeira, podemos dizer que o Rio, é, nesse sentido, vitrine. O Estado viveu por duas administrações sob o comando da quadrilha liderada pelo ex-governador Sérgio Cabral. E hoje os cariocas vivem um inferno, principalmente, na área de segurança, onde os assaltos e conflitos entre policiais e traficantes tem sido uma constante.

Voltando ainda ao fato relacionado à fala do deputado Miro Teixeira. Tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que pode prejudicar em muito à Lei da Ficha Limpa.

A Lei da Ficha é uma lei que nasceu da incitativa popular, através de um projeto que reuniu mais de um milhão de assinaturas. O projeto se tornou lei em 2010, mas a lei apenas se tornou efetiva de fato em 2012, ocasião em que foram realizadas as primeiras eleições depois da criação da lei.

A lei determina que sejam considerados inelegíveis governadores e prefeitos que perderam os cargos eletivos por violarem à Constituição Estadual e à Lei Orgânica do Município. Ficam impedidos de se candidatar também os candidatos que foram condenados pela Justiça eleitoral nos processos que apuram abuso de poder econômico ou político.

Ficam inelegíveis também os candidatos que forem condenados pelos crimes contra a fé pública, a administração pública, o patrimônio público, e a economia popular, dentre outros crimes.

Enfim, a Lei da Ficha Limpa elenca uma série de elementos que podem colocar o Brasil nos trilhos que queremos, qual seja, um país sério onde as leis sejam respeitadas e os criminosos punidos. Que a corrupção seja, se não extirpada, eliminada de nosso meio, pelo menos abrandada. Esse é o deseja da sociedade brasileira.

Porém, entre o que quer a sociedade e o que querem os que a governam parece haver um abismo imenso. Se compararmos a um casamento, então há um divórcio não amigável entre os líderes políticos e a sociedade. Como por exemplo, esse projeto que quer alterar a lei da Ficha Limpa.

O projeto é de autoria do deputado do Nelson Marquezelli (PTB) e, detalhe, há requerimento para que o projeto seja votado com urgência. Tal qual abutres ávidos por carne podre de algum animal morto na caatinga, logo o projeto de Marquezelli recebeu o apoio incondicional de 15 partidos: PT, PMDB, DEM, PP, PTB, PC do B, AVANTE, SD, PRB, PHS, PROS, PSL, PRP, PV, e PSC.

O fantasma que está provocando tanto medo nos deputados a ponto de pedirem urgência para a votação deste projeto, é uma decisão do Supremo Tribunal Federal tomada em 04 de outubro deste ano.

Por seis votos contra cinco, o STF decidiu aplicar a Lei da Ficha Limpa também a políticos condenados antes de 2010, quando a lei passou a vigorar, tornando esses políticos inelegíveis por oito anos. A lei anterior à lei de 2010 estabelecia uma punição de três anos de inelegibilidade. 

Com essa decisão, o Supremo barra as candidaturas para as próximas eleições para os políticos que foram condenados por abuso de poder entre janeiro e junho de 2010, que foi o mês em que a Lei da Ficha Limpa foi sancionada. Os que foram condenados em 2009, ao final desse ano, já terão cumprido o prazo de inelegibilidade. Esse entendimento do STF pode levar a cassação de centenas de mandatos de políticos que foram eleitos em 2014 e 2016.

A causa “nobre” pela qual o deputado Nelson Marquezelli está lutando, e tentando ganhar aliados para ela, é de que a lei não seja retroativa, o que anularia a decisão do STF tomada em outubro. Segundo o deputado, o objetivo do projeto é evitar que a retroatividade seja tão intensa que venha a prejudicar a segurança jurídica, a soberania popular e a coisa julgada. Nesse pacote de objetivos, ele coloca também as demais consequências sociais, financeiras, e políticas que decorreriam da retroação da lei.

Ora, não é a lei da Ficha Limpa que ultraja segurança jurídica, a soberania popular e a coisa julgada, bem como as demais consequências citadas pelo deputado. Quem ultraja, todos os dias, os brasileiros violando esses princípios são os excelentíssimos deputados e senadores que, se esqueceram de legislar pelo país e apenas legislam em causa própria.

Não se pode desconsidera os crimes praticados pelos parlamentares antes da lei de 2010. Para os cidadãos comuns é certo que não haja retroação de lei, pois, nesse caso trata-se de direitos civis, e estes tratam das liberdades individuais, direito de ir e vir, etc. mas no caso do político, entra-se na questão dos direitos políticos. E os direitos políticos tratam da participação do governo na sociedade. Em tese, o povo participando do poder. Deveria ser assim. Então se o candidato pretende representar a coletividade é certo que ela tenha conduta ilibada para que não se corra o risco de que ele venha a ludibriar aqueles que representa, como é o que tem acontecido em nosso deplorável cenário político.

É nesse sentido que também caminha o pensamento do ex-presidente do Supremo, Aires Brito. Disse ele em entrevista ao Jornal Nacional: “Não confundir as coisas, nós estamos cuidando de direitos políticos. Quando a Constituição proíbe a retroação da lei penal está protegendo o indivíduo. Aqui nós estamos cuidando de direitos políticos porque o indivíduo presenta a si mesmo, fala por si, ao passo que o candidato tem a pretensão de representar toda uma coletividade, de ser porta-voz de todo o povo. Então, a Constituição exige muito mais do candidato para que ele tenha uma vida passada isenta de senões ou infringências à lei da improbidade administrativa. É de ser mesmo inelegível quem tem uma biografia, uma vida passada eticamente enlameada. Quem vive num lodaçal ético... chega a ser atrevimento postular uma candidatura para representar o povo”.

É preciso que a sociedade fique de olhos bem abertos e atentos, cada vez mais e mais, uma vez que o despudor dos políticos antes era mais recatado. Hoje, não. Eles, abertamente, posicionaram-se contra a moralidade e ao lado da roubalheira, da impunidade, e da corrupção.

No próximo ano teremos eleições, e, talvez, as mais importantes dos últimos anos, pois teremos um raio de X de como o todo da sociedade está reagindo a tudo isso. É possível que os lobos em pele de cordeiros sejam reeleitos? É possível que os corruptos e ladrões sejam reeleitos? Sim, é possível. Afinal, grande parte da sociedade ainda vive alheia a tudo o que acontece nos bastidores da política, bastidores estes que tem sido escancarados pela imprensa. Milhões de pessoas menos esclarecidas podem se deixar pela fala mansa dos lobos? Podem. Não podemos negar. Mas é justamente isso que a sociedade precisa evitar. Pois um lobo em pele de cordeiro, virá lobo em dois tempos, basta apenas conseguir o seu objetivo que é o de ser eleito. E um lobo em pele de cordeiro colocado em lugar errado devora todo mundo, aqueles que enganou e aqueles a quem não enganou. 

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Reflexos negativos de uma má decisão do STF

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:32
Segunda-feira, 06 de novembro


O universo é uma seta com duas pontas, duas extremidades: o micro e o macro. O micro representa as coisas pequenas, ou as coisas que, de tão pequenas, são invisíveis a olho nu. O macro representa toda a imensidão do universo. a origem deste último permanece um mistério para o homem e para a ciência. Não se sabe se ele foi formado a partir do micro, ou se o todo formou a parte. O fato é que as duas extremidades da seta possuem uma estreita relação.
Assim como no universo, as pequenas decisões que tomamos hoje, aquelas que achamos tão insignificantes que nem vale a pena pensar sobre elas estão, de alguma forma, influenciando o nosso amanhã.
Assim como no universo, assim como no campo pessoal, assim também é na sociedade, e nas instituições que fazem parte do organismo social. Uma decisão tomada lá atrás, terá uma grande influência sobre o momento presente. Isso vale tanto para as boas quanto para as más decisões tomadas por nós ou pelas instituições.
No dia 18 de maio, a Polícia Federal amanhecia nas ruas do Brasil — como tem feito de modo rotineiro ­— para cumprir mandados de busca e apreensões e prisões na operação denominada de Operação Patmos.
A operação foi deflagrada um dia após o jornal o Globo apresentar denuncia bombástica da existência de áudios que comprometiam diretamente o presidente Michel Temer, o assessor direto do presidente, o ex-deputado federal paranaense, Rodrigo Rocha Loures, além do senador Aécio Neves, e diversas outras figuras da política brasileira. As gravações foram feitas pelo empresário Joesley Batista e por outros agentes de sua empresa, a JBS.
Quanto a Temer os áudios indicavam tentativas do presidente de comprar o silêncio de Eduardo Cunha, impedindo-o, dessa forma de fazer a tão temida delação premiada. Cunha está preso desde outubro de 2016, no Complexo Médico-Penal de Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, acusado de crimes de corrupção. Infelizmente, a Câmara dos Deputados ao tomar conhecimento da denúncia, e ao julgá-la, fez vistas grossas a sequencia de crimes descrita nos áudios revelados pelo jornal O Globo, e decidiu pelo arquivamento da denúncia.
Quanto ao senador Aécio Neves recaia sobre ele a denuncia de que teria recebido R$ 2 milhões da JBS para pagar sua defesa na Lava Jato, e também para influir na aprovação da legislação que eximiria de culpa os políticos flagrados fazendo uso de caixa dois nas campanhas eleitorais. Nesta operação foram presos, Frederico Pacheco de Medeiros, e Andreia Neves, respectivamente, primo e irmã do senador. Foi feito ainda um pedido de prisão para Aécio Neves, pela Procuradoria Geral da República, pedido este que foi negado pelo Supremo Tribunal Federal.
Ainda no dia 18 de maio, e após o escândalo, o STF determinou o afastamento do senador, e também presidente do PSDB, de suas funções no senado. No dia 30 de junho, o ministro do STF, Marco Aurélio de Melo, surpreendeu a todos e determinou a volta de Aécio ao senado. Na mesma decisão o ministro proibiu o senador de deixar o país, e de fazer contato com outros investigados, ou réus no processo. Após o escândalo, Aécio abriu mão da presidência do seu partido, o PSDB.
No dia 26 de setembro, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, decidiu por 3 votos a 2, afastar o senador Aécio Neves do exercício do mandato pela segunda vez, através de medida cautelar à pedido da Procuradoria Geral da República, no mesmo inquérito que apura ato de corrupção passiva e obstrução de justiça por parte do senador.
A medida cautelar determinou ainda que Aécio ficaria impedido de sair de casa no período noturno, entregar seu passaporte, e de não poder se comunicar com os outros investigados no caso, inclusive a irmã dele, Andreia Neves.
Voltando ao momento da prisão de Frederico, na Operação Patmos, em 18 de maio, as provas do envolvimento do senador no esquema de corrupção são notórias.
As gravações reveladas pelo jornal O Globo, e que envolvem o senador, mostram que ele pediu R$ 2 milhões de propina ao empresário Joesley Batista, um dos donos da JBS. No dialogo entre Joesley e o senador Aécio Neves, Joesley pergunta quem poderia fazer a entrega desta fortuna, ao que o senador responde: “Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação. Vai ser o Fred com um cara seu”. Ficou então responsáveis pela transação, Fred, primo de Aécio, e Ricardo Saud, por parte da JBS.
Ficou acertado que a quantia seria paga em quatro parcelas de R$ 500 mil. Fred chegou a fazer 3 viagens entre Minas Gerais e São Paulo para receber parte do dinheiro. só não fez a quarta viagem, fechando o negócio, porque foi preso pela PF.
A defesa de Aécio disse que ele estava sendo submetido a uma exposição descontextualizada das informações, e que os R$ 2 milhões pedidos por Aécio a Joesley tinham como finalidade o pagamento de um empréstimo pessoal. Como se no país não existissem instituições bancárias seguras que pudessem efetuar a transação, e que essas transações tivessem que ser feitas às escondidas.
No dia 21 de junho, a Primeira Turma do STF mandou soltar o primo e a irmã de Aécio, concedendo-lhes prisão domiciliar, e obrigando-os ao uso de tornozeleira eletrônica.
Novela Aécio vai, novela Aécio vem, o fato é que a decisão do STF de afastar o senador pela segunda vez, e impondo-lhe pena um pouco mais severa, provocou uma crise entre o Senado e o STF. Tanto a base aliada como a imensa maioria da oposição consideraram o caso com uma afronta do STF ao Legislativo, e que a atitude do Judiciário feria a independência entre os poderes.
Demagogicamente, o senador, Jorge Viana, do PT, do Acre, chegou a dizer que não estava tentando salvar Aécio, mas que sua luta era em prol da Constituição e o Estado Democrático de Direito.
Após a crise houve um recuo do Supremo e este recuo foi prejudicial para o país como um todo. Uma má decisão do STF que pode provocar um efeito em cascata em relação àqueles que usam o manto da justiça para a prática de crimes.
Na quarta-feira, 11 de outubro, o STF se reuniu para julgar a questão das medidas cautelares impostas a parlamentares. Ao final do julgamento, ficou decido que cabia ao Legislativo a palavra final sobre a suspensão do mandato parlamentar por parte do Judiciário. Ou seja, o STF pode recomendar o afastamento do parlamentar, mas é a Câmara ou o Senado que tem a palavra final.
Foi do entendimento dos ministros que a medida cautelar pode ser imposta, porém, no caso da medida impossibilitar, direta, ou indiretamente o exercício do mandato, ela deve ser remetida em até 24 horas para a Câmara ou para o Senado.
Dentre as medidas cautelares que o Judiciário pode determinar estão; afastamento do mandato, proibição do contato do investigado com determinadas pessoas, impedimento de deixar o país, proibição de frequentar determinados lugares, e recolhimento domiciliar no período noturno. Entretanto, se alguma dessas medidas impossibilitarem o exercício regular do mandato, a decisão final sobre elas cabe ao Legislativo.
Votaram pelo afastamento do parlamentar com aval do Congresso, os ministros; Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Ricardo Lewandovisk, Gilmar Mendes, Marco Aurélio de Melo. Votaram a favor do afastamento sem aval do Congresso os ministros; Edson Fachin, Luís Roberto Barroso, Rosa Weber, Luiz Fux, e Celso de Mello.
Como percebem houve um empate no jogo que acabou em 5 x 5. Coube a ministra Carmem Lúcia o voto de minerva e o grupo vencedor da demanda foi o grupo que preferiu o afastamento do parlamentar com aval do Congresso. A presidente do STF poderia ter dado sua contribuição ainda maior na luta contra a corrupção, mas preferiu dar um passo atrás, talvez com medo de conflitos e represálias, não quis se expor.
Para alegria sua e de seus comparsas, digo companheiros de plenário, o senador voltou a exercer suas funções parlamentares no dia 18 de outubro, tendo sido grandemente beneficiado pela decisão do Supremo Tribunal Federal.
Entretanto, a decisão do STF a respeito das medidas cautelares acabou provocando um efeito em cascata nas Casas Legislativas de todo o país, e pode provocar estragos ainda maiores. Todos já perceberam que tais casas legislativas têm funcionado muito mais como abrigo de bandidos do que casas onde se fazem leis justas.
Na sexta-feira (03), reportagem do jornal O Globo trazia denuncia de que Assembleias Legislativas e Câmaras de vereadores de todo o país, estão usando da decisão do STF, tomada em 11 de outubro, para reconduzir ao cargo, parlamentares que haviam sido afastados por denuncias de corrupção.
Ainda segundo o jornal o Globo, em Mato Grosso, a Assembleia Legislativa botou em liberdade o deputado estadual, Gilmar Fabris (PSDB), preso por crimes de corrupção. A decisão dos deputados estaduais foi direto para o sistema prisional com ordem de soltura, sem nem sequer passar pelo Judiciário, e no dia 25 de outubro, Fabris foi solto, após passar cerca de 40 dias preso. Na maioria dos casos, como no de Fabri, há vídeos mostrando a ação criminosa, mas nada disso parece convencer os pares dos vereadores, deputados, e senadores.
Outros dois casos aconteceram no Rio Grande do Norte. Lá, o deputado estadual Ricardo Mota foi afastado de suas funções pelo Tribunal de Justiça. Ele é suspeito de ter desviado dinheiro do caixa do Instituto de Desenvolvimento Sustentável do Estado do Rio Grande do Norte (IDEMA). Mesmo assim ele foi liberado para assumir suas funções pelos deputados daquele estado. Entretanto, a Procuradoria Geral da República, através da procuradora Raquel Dodge, pediu ao STF que suspenda a decisão por considerar que os deputados revogaram o afastamento de Mota com o caso ainda em tramitação no Supremo.
A Câmara de Vereadores do Rio Grande do Norte também fez a sua parte: reconduziu ao mandato o vereador, Raniere Barbosa (PDT), afastado desde o mês de julho por suspeita de envolvimento no superfaturamento e pagamento de propina referentes aos contratos de iluminação pública em Natal, capital do estado.
O Brasil poderia hoje estar dando grandes passos em direção ao combate à corrupção e à impunidade. E de certa forma está. Eis aí a Operação Lava Jato para confirmar.
O que impede o país de avançar nesse sentido é a qualidade de nossos líderes políticos tanto no Legislativo quanto no Executivo que, ao que parece, não tem a menor intenção de que o mal da corrupção seja extirpado de nossa nação, até porque eles agem como vampiros sempre dispostos a sugar o sangue das suas vítimas até a última gota. E suas vítimas são, no caso, nós, o povo brasileiro.

Entretanto sempre se pode dispor de estacas de madeira, alho, água bento, e crucifixo para afastar, e até mesmo exterminar de nosso meio, essas criaturas medonhas. 

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Arte que imita a vida e vice-versa

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:40
Quinta-feira, 02 de novembro
Os habitantes da terra estão abusando
Ao nosso supremo divino sobrecarregando
Fazendo mil besteiras e o mal sem ter motivo
E só se lembram de Deus quando estão no perigo
(Saco Cheio – Composição: Almir Guineto
Interpretação: Maria Rita)



Telona se ilumina. Nela aparece um fundo preto, e sobre ele, a frase

 Há muito tempo numa galáxia distante...

Nesse primeiro momento não há música, apenas silencio. E o silêncio, lembremos, traz expectativa do que está por vir a ser dito, a ser mostrado.

Em seguida, estampado nele, aparece um céu estrelado e saindo das extremidades da telona e desaparecendo rapidamente no céu infinito, o título do filme, Guerra nas Estrelas (Star Wars), enquanto o espectador ouve a clássica, Star Wars Theme Song, parte da trilha sonora de John Willians, composta para o filme. De baixo para cima, e ainda sob a magistral trilha do John, vai surgindo a introdução, apresentação do filme:

Episodio I

Uma Nova Ameaça

A galáxia vive tempos de expansão...

Assim, em 1977, começava uma das sagas de maior sucesso na história do cinema mundial: Guerra nas Estrelas (Star Wars). Dividida em seis episódios, desde sua estreia a série já faturou bilhões de dólares, e incontáveis espectadores já a viram na telona, ou na telinha.

Talvez o sucesso da série se desenhe já no seu momento inicial do primeiro filme quando apresenta ao espectador a frase: “Há muito tempo numa galáxia distante...”.

Ora, todo mundo em sua imaginação quer saber o que se passa numa galáxia distante. Haverá alienígenas? Como serão eles? São seres avançados? Querem dominar a Terra, ou serão amigos dos humanos?

A verdade é que a ficção mexe com nossa imaginação, sacode nossos sentimentos. Pensando assim, percebemos que os filmes de maior sucesso de bilheteria são aqueles que exploram esse lado curioso de nossa imaginação, fazendo-nos viajar para mundos diferentes do nosso e habitados por seres estranhos.

A ficção científica é um campo vasto, uma tela em branco, por assim dizer, pois, por nunca termos ido numa galáxia distante, então pressupomos que tudo pode acontecer por lá. Nossa mente não se reprime, assim como também não reprimimos nosso sentimento. Podemos até ver um extraterrestre comendo um rato — como, por exemplo, na série V – A Batalha Final, outra série de grande sucesso — como se se fartasse de um gostoso pedaço de queijo que os ambientalistas não moveriam um músculo para protestar, afinal, é ficção cientifica, e nela os ETs podem comer ratos, e outros animais semelhantes. Isso apenas pode causar certo nojo na maioria dos espectadores, mas não passa disso.

Porém, e quando a ficção desenha, espelha, imita, o nosso mundo real? E quando a telona, ou a telinha refletem no espelho do tempo o retrato fiel de nossa sociedade? Bem, meus amigos, minhas amigas, aí a coisa muda de figura.

 A sociedade conservadora e tradicional, em sua maioria, não está preparada para aceitar o diferente. Para essa sociedade, tudo teria que funcionar como se o mundo fosse regido por um grande ditador que decretasse que todos os seres devem agir todos dentro de uma uniformidade. Algo como na Coreia do Norte, do ditador, Kim Jong-un, no qual o estado dita a moda.

Nesse país não circulam revistas de moda, aliás, por lá, em se tratando de mídia, apenas circulam um jornal diário e uma revista semanal, ambos editados e controlados pelo estado. É o estado que diz como devem se apresentar os cidadãos. As mulheres podem dar-se ao luxo de escolher o corte de cabelo em um catalogo nacional que contém 14 tipos de cortes de cabelo. Às mulheres casadas é recomendado o uso dos cabelos curtos, e às solteiras, comprimento mediano, e até ondulado.

Sobre os homens, nesse aspecto, a exigência é maior: eles são instruídos a cortar o cabelo a cada 15 dias. Os cabelos masculinos não devem ultrapassar os 5 cm de cumprimento. Também não podem usar produtos como o gel para cabelos para não parecerem muito efeminados.  Em se tratando de vestimenta, também tem um código a ser seguido, tanto por homens, quanto por mulheres.

No campo das ideias, em certos setores da sociedade, principalmente os mais conservadores, as coisas funcionam, mais ou menos, da mesma forma: as pessoas não podem sentir diferente, ser diferentes, ou agir diferente. E aqui nem está se falando de transgressões, mas apenas de modo de ser, de essência humana, de ser aquilo que se é.
Falando da vida imitar a arte e da arte imitar a vida, falemos das novelas brasileiras, tão assistidas Brasil afora, e principalmente, das novelas da Globo, que vez por outra, suscitam grandes polêmicas.

Recentemente, a Globo exibiu a novela, A Força do Querer, no horário das 21hs. A autora Glória Perez trouxe para a novela a questão da transgeneridade, drama vivido pelos personagens Ivana (Carol Duarte) e Nonato (Silvero Pereira). Ivana é uma bela jovem, que ao longo da trama vai descobrindo que, dentro de seu corpo feminino habita uma alma masculina. E provoca um grande conflito na família quando resolve se vestir e agir como homem, tomando, inclusive hormônios que façam sobressair traços masculinos em seu corpo.

 A família abastada não aceita o fato de que Ivana venha a se tornar Ivan. A novela mostra o preconceito contra os trans, não apenas por parte da família, dentro de casa, mas também fora de casa, quando Ivan é agredido na rua algumas vezes, tendo, em uma dela ido parar no hospital todo machucado pelas agressões físicas sofridas na rua. Ao final, a família se convence de que não há nada que possa impedir a transgeneridade de Ivana e aceita a nova condição da filha.

Quanto a Nonato, ele é um jovem que, durante o dia trabalha em escritório de advocacia, e à noite, se transforma em mulher e faz shows em boates da cidade. É Nonato quem orienta Ivana em sua nova fase, alertando-a para os dilemas e preconceitos que a jovem teria de enfrentar ao assumir a condição de transgenero.

A novela teve como ambientação em seus primeiros capítulos, a cidade de Belém do Pará, e depois o cenário mudou para a cidade do Rio de Janeiro.

Ao abordar uma questão tão delicada a novela e a emissora atraíram a ira de grupos religiosos e de outros setores da sociedade. Padres e pastores propuseram uma cruzada contra a Rede Globo, que segundo eles, é uma destruidora dos lares e modificadora da realidade moral das famílias brasileiras. Mensagens foram pregadas nos púlpitos católicos e protestantes contra a novela que estava sendo exibida e contra os transgeneros.

Ao imitar a vida a novela, de forma artística, de forma sensual, porém sem cair no pornográfico, relevou ao Brasil a condição de milhares de pessoas no país, e milhões no mundo, que vivem o drama de ser transgenero, e que não sabem lidar com essa questão. Essas pessoas vivem na terra o seu calvário, carregam a cruz pesada do preconceito, sofrem depressão e violência.

Quando a emissora de televisão traz à tona um tema tão controverso, ela não está atingindo, nem destruindo a moral familiar, ela está apenas mostrando que existe uma realidade diferente daquela que não é a realidade da grande maioria. Ela está mostrando apenas que o universo é movimento e que o mundo não é algo estático, que o tempo passa, os costumes mudam.

Olhando por cima do ombro, e para o passado, veremos que já avançamos muito, e que a humanidade já viveu assentada sobre ideias que eram dominantes na época, e que hoje nos parecem ridículas e infantis. Ideias essas que também eram sacramentadas pela igreja, pois tudo fazia parte de um contexto social, de uma época, de um momento.

Já se disse, por exemplo, que os negros não tinham alma, já se disse que as mulheres eram incapazes de assumir postos de comando, também já disse das mulheres e dos negros que não eram aptos a votar.

Ainda hoje há por aí gente que ainda pensa rasteiro em relações a essas questões, haja visto o número ainda crescente de discriminação contra os negros e contras as mulheres.

A Globo encerrou uma novela polêmica e já colocou no ar outra que está dando o que falar. A nova novela das 21hs, O Outro Lado do Paraíso, de Walcyr Carrasco, em seus primeiros capítulos já apresentou temas com o estupro, e violência contra a mulher. A novela abordará ainda temas quentes como o racismo e homofobismo.

Esses são temas presentes na sociedade e que precisam ser discutidos para serem compreendidos. Não adianta se fingir de cego, ou querer tapar o sol com a peneira, pois quem assim o faz, pode despencar no precipício da ignorância, e aí sim, haverá choro e ranger de dentes.

Não adianta ignorar que são altíssimos os números de agressões contra os trangeneros, contra os homossexuais, e contra as mulheres. Quando a sociedade, principalmente os setores religiosos, através de uma atitude preconceituosa, fecham-se para a discussão desses temas, é como se eles tivessem se colocando ao lado dos algozes e condenando as vítimas.

Estamos vivendo em um mundo conturbado, onde o respeito pelo outro diminui a cada dia. Nesse universo é preciso entender que se deve julgar o outro não pela sua sexualidade, mas pelo caráter, não pela sua natureza sexual, mas pela luz que há em seu coração.

É preciso entender que a homossexualidade, ou a transgeneridade não encerram em si mesmas as devassidões do mundo, pois a maldade presente no mundo. É preciso compreender que o que, de fato, destrói as famílias não é a sexualidade deste ou daquele, mas sim a falta de amor, de compreensão, e de aceitação do outro, daquele que é diferente de nós, e esse tipo de sentimento está no coração de padres, de pastores, de leigos, de crente e ateus, pois que é uma coisa inerente ao coração humano, e Deus deu livre arbítrio ao homem de escolher entre o bem e mal, escolhai, pois, vós, o bem.

É preciso compreender também que uma mulher não está pedindo para ser estuprada apenas por estar com uma roupa provocante. Que ela não é escrava do homem, mas companheira. Que a sua fragilidade física não é um convite à agressão.

Ademais, é bom que esses setores religiosos ajam como verdadeiros profetas sociais, e gritem, não contra quem faz arte que imita a vida, mas contra os poderosos que desviam milhões dos cofres públicos e comemoram a impunidade reinante no país com os melhores vinhos e champagne importados. Porém, para essa realidade cruel e gritante eles parecem fazer vistas grossas.

Que eles se levantem contra os falsos religiosos e falsos profetas que usam as tribunas do Congresso Nacional para proclamar suas hipocrisias e apoio à corrupção e à roubalheira que campeia em nosso país. Se querem ser profetas de verdade, denunciem também os pastores que enriquecem, ilicitamente, à custa do dízimo dos fieis.

Agindo dessa forma eles estarão, sim, fazendo a vontade Cristo, de quem se dizem seguidores, e não estarão fazendo a vontade de Cristo levantando o chicote contra aqueles que apenas querem ser gente, e querem ser respeitados como gente.

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