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Um mar de esperanças nos céus do Brasil

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:14
Sexta-feira, 12 de janeiro

Réveillon 2018 em Copacabana

5, 4, 3, 2, 1.

A escuridão da noite que recobre a casa de Iemanjá vai embora e, como num passe de mágica, o breu dá lugar a uma chuva de fogos de artifícios das mais variadas cores e formas. Toneladas deles — nesse ano de 2018 foram 25 toneladas  — fascinam e encantam a multidão que assiste a esse fantástico espetáculo tecnicamente musicado e coreografado que se desenha nos céus de Copacabana na festa de Réveillon. A cada ano, o espetáculo fica mais técnico, mais seguro, e mais belo que nos anos anteriores. Esse ano durou cerca de 17 minutos. Se quisermos colocar um pouco de poesia na cena, diríamos que, sob as bênçãos do Cristo Redentor, os céus do Rio de Janeiro choram de alegria.

Pessoas de todos os cantos do mundo acorrem ao Rio para essa festa espetacular. Enquanto os fogos explodem nos céus, formando figuras geométricas como corações, carinhas felizes, espirais, círculos, e estrelas, a 500 metros das areias da praia de Copacabana, na beira da praia, os espectadores explodem os seus champanhes, desejam-se uns aos outros votos de um ano próspero e cheio de paz.

Definitivamente não é uma festa para os excluídos, o que não os impedem de que, em algum lugar da cidade, eles vejam os clarões e o estampidos dos fogos. Alguns deles enfiam-se entre a multidão numa relação puramente comercial, afinal capitalista é o mundo em que vivemos e, para alguns, é preciso faturar algum dinheiro enquanto os outros se divertem. Fazem isso os hotéis, os restaurantes, e também aqueles que tiram da atividade comercial o básico para o sustento de suas casas e famílias. Guarde-se os lucros nas devidas proporções de cada um.

Menino a olhar os fogos em Copacabana - Foto: Lucas Landau
No meio da multidão, um fotografo experiente, sensível, e competente, conseguirá registrar belas imagens. Foi o que fez o fotografo Lucas Landau, que registrava átimos de momento para a agência Reuters.

Foi o fotografo que captou o belo momento registrado na foto acima. Nela se vê o fascínio de uma criança negra e pobre, habitante de uma das favelas do Rio. Da foto pode se fazer uma série de leituras da realidade, tais como raça, posição social, desigualdade social, ou apenas a arte de apreciar o belo expressado no olhar de uma criança.

O menino é filho de uma vendedora ambulante que desceu o morro, junto com os filhos, e percorreu os 17 quilômetros que separam o humilde barraco onde habitam das areias da famosa praia, tão belamente cantando no verso da canção escrita por João de Barro (braguinha) e Alberto Ribeiro “Copacabana, princesinha do mar, pelas manhãs tu és a vida a cantar, e à tardinha o sol poente, deixa sempre uma saudade na gente”.

A vendedora foi à praia vender chaveiros entre parte dos 2,5 milhões de pessoas que comemoravam o Réveillon nas areias cariocas. Quando começaram a pipocar os fogos, o menino aproveitou para entrar no mar e dar um mergulho na magia daquele momento. A foto ganhou proporções e repercussões maiores do que o autor dela esperava. Também suscitou muitos debates, tendo repercutido, inclusive, em jornais internacionais. Os motivos pelos quais a foto foi tão debatida, alguns deles já expostos acima, não serão objetos desta postagem, apenas essa cena, tanto a festa, quanto a foto, de certo modo, se conectam com o nosso momento brasileiro atual, traçando com ele um paralelo.

Enquanto o mar de Iemanjá, orixá regente das águas marinhas, chora de alegria com tanta beleza, luz, e cor, os céus da Justiça, regido pelo orixá Xangô, choram de tristeza por ver tanta podridão e descaso para com a população brasileira.

Dos altos escalões do governo, passando pelas instituições, pelos empresários, e entrando no seio da sociedade, a corrupção campeia livre e soberana pela nossa pátria. É possível dizer que, mais que um governo corrompido, temos uma sociedade que se deixou corromper. E por ter se corrompido, e se deixado corromper, entrou num labirinto do qual é difícil sair, pois são muitos os caminhos que não levam a lugar algum. Nesse emaranhado de caminhos sem saída, fica complicado achar a ponta do novelo que nos levará a saída para o iluminado caminho da ética e da moralidade. Na verdade, esse é um esforço, uma busca que deve ser feita por cada cidadão brasileiro, a começar pelos dirigentes que formam a elite política da nação.

Entretanto, pelo andar da carruagem, não há o menor esforço por parte destes últimos em encontrar a saída do labirinto da corrupção. O governo atual parece estar se lixando para o que a sociedade considera ou não ético. Nele, os interesses do estado, do cidadão, e das instituições, são, claramente, relegados a segundo plano. A cada ato, a cada ação do governo, as manobras se repetem.

Roberto Jefferson e Cristiane Brasil
Por exemplo, veja-se essa queda de braços do governo com a justiça por causa da nomeação da deputada, Cristiane Brasil, filha do ex-deputado Roberto Jefferson, para o Ministério do Trabalho, caso já citado na postagem anterior.

Depois de o presidente Michel Temer desistir da nomeação do deputado federal Pedro Fernandes (PTB-MA), simplesmente porque Sarney não concordou com a nomeação do deputado, e de aceitar indicação de Cristiane Brasil (PTB-RJ), para o comando do Ministério do Trabalho, Temer agora briga com a justiça para que a nomeação de Cristiane seja efetivada.

A posse de Cristiane era para ter ocorrido na terça-feira (09), entretanto foi suspensa na noite da segunda-feira (08). Um grupo de advogados trabalhistas entrou com ação cada qual nas comarcas em que atuam, com o objetivo de impedir a posse. Um desses advogados é Carlos Alberto Patrício de Souza, advogado de um dos motoristas que moveu o processo trabalhista contra a deputada Cristiane Brasil. Leonardo da Costa Couceiro, da 4a Vara Federal de Niterói, acatou o pedido.

O governo devia estar tão confiante que derrubaria a liminar que manteve a solenidade de posse, marcada para as três da tarde da terça-feira. Os convidados também tinha a mesma convicção e compareceram ao Palácio do Planalto, mas deram com a cara na porta. Não foram autorizados a entrar.

A Advocacia Geral da União até havia entrado com pedido de suspensão da liminar, perante o Tribunal Federal da 2a Região, porém, o desembargador federal Guilherme de Couto Castro negou o pedido, mantendo dessa forma, a decisão dada anteriormente pelo juiz Leonardo da Costa Couceiro, da 4a Federal de Niterói (RJ).

A vontade de não desagradar o PTB é tão grande que o governo até ensaiou recorrer ao Supremo Tribunal Federal, mas desistiu e, em vez disso, protocolou, na terça-feira (08), outro recurso junto ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) ainda tentando reverter a decisão que impediu a posse de Cristiane.  

Para isso, o presidente se reuniu antes com Cristiane Brasil e com o pai dela, para analisarem o cenário mais favorável a eles. O primeiro seria o de que a ministra Carmem Lúcia, indeferisse de imediato o pedido, e o segundo, o de que a mesma resolvesse levar o caso ao plenário do STF, coisa que só deveria ocorrer em fevereiro, devido ao recesso do Judiciário. Acharam melhor então tentar mais uma vez junto ao TRF-2.

Por fim, o presidente deixou para a semana que vem a decisão sobe a questão. Antes, porém pediu que a AGU estudasse os possíveis cenários para a posse de Cristiane, os caminhos possíveis e as possíveis consequências de cada decisão.

A causa de tanto querer agradar ao PTB é que o partido tem garantido votos ao governo quando necessário, e o governo precisa de votos para aprovar a reforma da Previdência. Por causa disso, arma todo esse circo.

Não são apenas os dois motoristas que processaram a deputada Cristiane Brasil. Em pelo menos mais um caso, ela foi processada pela empregada doméstica em 2003, mais uma vez, por causa de direitos trabalhistas não respeitados. A empregada alegou no processo que a patroa não fazia o recolhimento de contribuições previdenciárias. Em 2005, houve uma audiência de conciliação e Cristiane concordou em pagar R$ 500 de indenização.

Imaginem os senhores e senhoras como deve ser a relação entre patrão-empregado de Cristiane para com seus empregados. Para assumir um ministério tão importante como o Ministério do Trabalho, é preciso, pelo menos, que se conheça de leis trabalhistas, coisa que a deputada federal parecer desconhecer.

Com essa sede votos pela reforma da Previdência, com toda essa submissão aos partidos e seus caciques, o presidente Michel Temer tem transformado questões de suma importância para os rumos da nação em detalhes qualquer, coisas sem importância.

Naquele momento fugaz, na festa de Réveillon deste ano em Copacabana, o fotografo, Lucas Landau, captou o olhar extasiado do garoto dentro do mar, a olhar os fogos coloridos. Se Landau fosse em busca de registrar momentos nas favelas do Brasil afora, não captaria olhares extasiados, mas sim, olhares carentes, desejosos de um futuro melhor, com mais esperança e qualidade de vida dignas. Quisera Deus, que as crianças que habitam as favelas, e as crianças que habitam cada recanto desse Brasil, olhassem para os céus e ficassem fascinadas com a luz da esperança que deveria brilhar sempre sobre elas que, como todos nós, se abrigam debaixo das asas da pátria mãe gentil.

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República de bananas

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:46
Domingo, 07 de janeiro


Já passava das seis horas da tarde de sexta-feira (05), quando descia uma das movimentadas ruas do centro de Campinas, São Paulo. O horário de verão propiciava que o sol ainda desse o ar da graça mesmo naquele horário. A maioria das lojas comerciais já havia fechado às portas. Apenas permaneciam ainda abertas lojas do setor alimentício. Diversas pessoas ainda passavam pelo centro.
Fazia uma tarde quente e agradável. Passei por uma família formada por pai, mãe, e uma criança aparentando cerca de uns dois anos de idade, provavelmente menos. O menino caminhava à frente dos pais, mas bem próximo a eles. O pai, com um sorvete na mão, a mãe com outro, e a criança, com agua na boca, exigia, do jeito e na linguagem infantil que é peculiar a qualquer criança nessa idade, um pouco daquela delícia. Os pais ignoravam o pedido da ansiosa criança. Talvez por não querer que a criança tão bem arrumada se lambuzasse toda de sorvete.
Parei um pouco, e me dirigi, em tom de brincadeira, mas parecendo sério, ao pequeno, e lhe disse:
— É isso mesmo, pequeno, você tem que exigir os seus direito. Seus pais se deliciando com sorvetes e você sem nada. Não fique calado. Exija os seus direitos.
O menino pareceu tomar como séria a situação, e do seu jeito, tentou me dizer exatamente o que eu já havia percebido: que ele queria sorvete e os pais se recusavam a deixa-lo lambuzar-se com aquela delícia. Os pais riram. Eu também. E me continuei meu caminho. Não sem antes, por sobre os ombros, notar que a mãe havia satisfeito o desejo da criança.
Depois do caso passado, fiquei pensando no ocorrido, e cheguei à conclusão de que é isso mesmo que, de forma similar, acontece em nosso país.
Os políticos estão se labuzando de gostosos e caros sorvetes, e nós não estamos tendo a atitude daquela criança com a qual dialoguei na rua. Nós não estamos reivindicando nossos direitos.
O povo, de modo geral, encontra-se como que num estado letárgico.  E assim, eles, os políticos, continuam usurpando as riquezas do nosso país e fazendo tudo o contrário do que deveriam fazer.
Um exemplo disto é a nomeação da deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ). Cristiane é filha do ex-deputado Roberto Jefferson, pivô do escândalo do mensalão, e atual presidente do PTB.
A vaga ocupada pela filha de Jefferson era para ser do deputado federal, Pedro Fernandes (PTB-MA). O deputado havia sido indicado pelo partido para ocupar a vaga de Ronaldo Nogueira (PTB-RS), e a data da posse até já havia sido escolhida pelo governo Temer.  Porém o nome do deputado foi vetado pelo ex-presidente José Sarney.
O motivo do veto foi uma disputa política no estado do Maranhão. Sarney ainda é cacique do PMDB, presidente de honra de partido, possui forte influencia no governo Temer, e no próprio partido. Sarney percebeu rápido que a nomeação de Pedro Fernandes fortaleceria o governador Flávio Dino (PC do B), forte adversário de Sarney no estado.
Na quinta-feira (04), o governo nomeou então, Cristiane Brasil para comandar o ministério do Trabalho. O ex-deputado Roberto Jefferson, pai de Cristiane, até chorou lágrimas de crocodilo ao fazer o anuncio do fato.
Com a nomeação da nova ministra do Trabalho constata-se mais uma vez que o que move a máquina estatal no Brasil não é a vontade de acertar, de fazer o que é melhor para o país, mas sim, os conchavos, rixas, e acordos políticos.
Cristiane assume o ministério e já respondeu perante a justiça por não assinar a carteira profissional de dois motoristas particulares contratados para serviços em sua residência particular.
Um deles é Fernando Fernandes Dias. Durante mais de três anos, o motorista prestou serviços para a deputada sem que esta fizesse o registro em carteira. Em entrevista ao Jornal Nacional, ele afirma que vistoriava os carros, o seguro, levava os filhos da deputada para a escola, médicos, psicólogos, e que levava a empregada para fazer as compras do mês.
O outro que entrou com ação na justiça foi Leonardo Eugênio de Almeida Moreira. Leonardo trabalhou por mais de um ano na casa de Cristiane também sem registro em carteira. Quando ele questionava a patroa sobre essa irregularidade, ela sempre vinha com promessas de encaixá-lo em algum cargo público futuramente.
Em fevereiro deste ano, Cristiane foi condenada a pagar mais de R$ 60 mil a Fernando. Apesar de o processo já ter transito em julgado, o empregado diz que ate hoje não recebeu esse dinheiro.
No segundo processo, movido por Leonardo Moreira, ela foi condenada a pagar uma indenização de R$ 14 mil parcelada.
Apesar desse flagrante desrespeito às leis trabalhistas, a deputada foi nomeada ministra. Esse é o nosso Brasil. Esse é o nosso governo.
Outro caso emblemático vem do governo de Minas Gerais. Lá, César Augusto Monteiro Alves, o novo diretor nomeado para o DETRAN (Departamento Estadual de Trânsito), pelo governo Fernando Pimentel, acumula 120 pontos na carteira de motorista. A maioria das multas recebidas pelo órgão do qual ele agora é presidente, foram por excesso de velocidade.
Em 18 vezes ele recebeu multas por excesso de velocidade. Ele também já foi multado por avançar o sinal vermelho, o que caracteriza infração gravíssima.
E assim, foi nomeado para um cargo de diretor de um órgão, cuja finalidade é promover a segurança do trânsito e da cidadania, e promover ações políticas para reduzir o número de acidentes de trânsito, um cidadão com 120 pontos na carteira.
Enquanto os políticos brasileiros continuarem praticando esse tipo de clientelismo, esse modo nada ético de se fazer política e de administrar o país, e as cidades, o Brasil continuará andando sempre em círculos, sem sair do lugar. E assim sendo, a terra que “em se plantando tudo dá”, exaltada por Pero Vaz de Caminha, escrivão que acompanhou a esquadra de Pedro Alvares Cabral, em 1500, não passará de uma republica de bananas. 

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Desesperar? Jamais!

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:02
Quarta-feira, 03 de janeiro
Desesperar jamais
Aprendemos muito nesses anos
Afinal de contas não tem cabimento
Entregar o jogo no primeiro tempo
Nada de correr da raia
Nada de morrer na praia
(Desesperar, Jamais - Compositor: Ivan Lins/Vitor Martins)
 

Réveillon, Praia de Copacabana


Paz! 

Este é o meu desejo para todos os leitores que acompanham este blog, no Brasil, e no exterior. Esteja você onde estiver, em que cidade habitar, desejo-lhe um esplendido 2018.

Desejo-lhes paz, em primeiro lugar, por entender ser ela o ponto de equilíbrio, o trampolim para a conquista dos demais itens passíveis de nos trazer a felicidade. Se você tem amor, mas em seu relacionamento não reina a paz, é possível que, mais cedo, ou mais tarde, perca o amor.

Se você tem dinheiro, mas se falta a paz necessária para usufruí-lo, é possível que perca dinheiro em seus negócios, ou que não o usufrua como deve, o que lhe trará muitas dores de cabeça.

Da mesma forma, se você tem saúde, mas não tem paz, logo, logo, ficará deficitário em saúde.

E assim para as demais coisas da vida. Se lhe falta a paz, com essa ausência virá um cortejo de coisas desagradáveis.  Creio que nenhum, nenhuma de vocês quererá ficar em companhias desses maus agouros, não é verdade?

A verdade é que mais um ano se passou e outro chegou. E o que se fez novo em sua vida? Que promessas feitas no estourar dos champanhes e dos fogos no réveillon de 2017 você fez? Conseguiu cumprir todas ou pelo menos algumas delas? Para muitas pessoas, as promessas feitas na virada do ano ficam apenas na boca, e elas as engolem como engolem os alimentos e as guloseimas servidas nas ceias de Natal e Réveillon. Promessa feita para ser cumprida de verdade exige uma mudança de atitude daquele que a fez, coisa que a maioria das pessoas não faz. Ao contrário, elas sentam-se sobre suas ideias, e daquele pequeno universo ficam a olhar o mundo, e pior ainda, ficam ali, como se senta um reizinho egoísta no trono esperando que o mundo venha lhes servir.

Não. Não deve ser assim com você. É preciso ir em busca dos seus sonhos, das suas aspirações, dos seus sonhos. Se estes lhes fogem, seja insistente, persistente, tal qual caçador que cerca sua presa por todos os lados, estuda suas atitudes, e, no momento certo, joga a rede, ou laço, e a imobiliza e a traz para si. Não deu certo dessa vez, tenta de novo. Não fique a chorar pitangas, nem muito menos pelo leite derramado. O tempo que você passa lamentando o que deixou de fazer é tempo perdido. E na vida, cada minuto deve ser aproveitado. Pense nisso. Pense na fugacidade da vida... E parta para a ação.

Para que o ano se faça realmente novo, é preciso, primeiramente, que você se faça uma pessoa nova, livre dos velhos hábitos e velhas amarras.

Nós brasileiros, atravessamos um ano difícil. O desemprego assustou, a carestia dos produtos assustou, a corrupção nos assustou. E o cenário a se descortinar à nossa frente, ainda não é tão animador quanto gostaríamos. Porém, nada disso deve nos fazer perder a fé, perder a esperança. O otimista é aquele que sabe transformar a crise numa oportunidade. O pessimista é o que transforma a crise num momento de cruzar os braços e se fazer de vítima das circunstâncias. Seja você um otimista. Isso também se chama equilíbrio.

O professor, escritor, e historiador brasileiro, Leandro Karnal, em uma palestra para vendedores, no Rio de Janeiro, assim se expressou: “Equilíbrio é aquilo que nós estamos em plena crise, só que há pessoas neste ano de crise que perderam, outras se mantiveram, e outras prosperaram. Então não é a crise que faz diferença. É a sua reação diante dela. A crise veio para todos os 206 milhões de brasileiros. Há pessoas que afundaram, há pessoas que mantiveram o que tinham, e há pessoas que hoje estão melhores do que estavam há algum tempo. É claro que hoje, no momento da crise, eu vou dar uma pista histórica importante. O que é crise? É quando eu tenho muitas perspectivas diante de mim. Só que a crise é aquilo que separa o amador do profissional. Todo mundo sabe dirigir numa boa estrada em dia de sol. Pouquíssimas pessoas sabem dirigir numa estrada com chuva, à noite, esburacada. A crise separa quem é bom, de quem é ruim, o amador do profissional, de quem veio ao mundo a trabalho ou à passeio”.

Portanto caro leitor, cara leitora. Seja você mesmo o protagonista de sua própria vida. Não transfira à crise, ao seu chefe, ou àqueles que te impedem de avançar, a responsabilidade do que acontece de bom ou de ruim com você. Lembre-se de que, no barco da vida, você está no comando. Você é o capitão, a capitã. Não entregue essa tarefa na mãos de outros, de outras, pois esse outro, essa outra, pode te levar para aguas turbulentas, ou até mesmo, jogar seu barco contra algum rochedo. Claro, tenha o leme nas mãos, mas não esqueça nunca da guia segura do Deus altíssimo.

Por fim, além da paz deseja inicialmente, quero desejar a todos, especialmente para o ano que se inicia, muito amor, sucesso, alegria, prosperidade, e coragem para enfrentar os monstros da crise, da tristeza, das decepções.

Aproveito também para compartilhar um texto do grande médium, Chico Xavier, que sempre trouxe ao mundo, muita paz, sabedoria, e bons exemplos.

***



Mensagem de Chico Xavier


Que Deus não permita que eu perca o ROMANTISMO, mesmo sabendo que as rosas não falam...

Que eu não perca o OTIMISMO, mesmo sabendo que o futuro que nos espera não é assim tão alegre...

Que eu não perca a vontade de TER GRANDES AMIGOS, mesmo sabendo que, com as voltas do mundo, eles acabam indo embora de nossas vidas...

Que eu não perca a vontade de AJUDAR AS PESSOAS, mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de ver, reconhecer e retribuir esta ajuda...

Que eu não perca o EQUILÍBRIO, mesmo sabendo que inúmeras forças querem que eu caia...

Que eu não perca a VONTADE DE AMAR, mesmo sabendo que a pessoa que eu mais amo, pode não sentir o mesmo sentimento por mim...

Que eu não perca a LUZ e o BRILHO NO OLHAR, mesmo sabendo que muitas coisas que verei no mundo, escurecerão meus olhos...

Que eu não perca a RAZÃO, mesmo sabendo que as tentações da vida são inúmeras e deliciosas.

Que eu não perca o SENTIMENTO DE JUSTIÇA, mesmo sabendo que o prejudicado possa ser eu...

Que eu não perca a BELEZA E A ALEGRIA DE VER, mesmo sabendo que muitas lágrimas brotarão dos meus olhos e escorrerão por minha alma...

Que eu não perca a vontade de SER GRANDE, mesmo sabendo que o mundo é pequeno...

E acima de tudo...

Que eu jamais me esqueça que um pequeno grão de alegria e esperança dentro de cada um é capaz de mudar e transformar qualquer coisa, pois...

A VIDA É CONSTRUÍDA NOS SONHOS E CONCRETIZADA NO AMOR!

Amorosamente,


Francisco Cândido Xavier

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Heróis e vilões

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 15:27
Sábado, 30 de dezembro



Comecemos com Zumbi dos Palmares.

Zumbi foi um forte líder do maior quilombo existente no período colonial, que era situado na Capitania de Pernambuco, na Serra da Barriga, em uma região que atualmente pertence ao município de União de Palmares, no estado de Alagoas.

Mais que um quilombo, o lugar era um espaço de liberdade criado em meio à opressão das chibatas, troncos, correntes, e senzalas, e, mais que isso, uma negação total do ser negro por uma comunidade escravista e exploradora.

Era ao Quilombo dos Palmares que se dirigiam os negros fugidos das fazendas. Palmares chegou a ter por volta de trinta mil habitantes, população considerável se considerarmos que se fala dos anos 1600.

Os negros não se conformavam com um sistema social injusto e buscaram alternativas de liberdade.

Demos também uma passada em Minas Gerais, ainda no período colonial, nos idos de 1700. Naqueles longínquos anos, a coroa portuguesa, cobrava altíssimos impostos sobre as riquezas retiradas da região, principalmente sobre o ouro, produto sobre o qual era cobrado o chamado quinto, que equivalia a 20% do total extraído. Mesmo quando o ouro extraído na região começou a rarear, o imposto não foi reduzido, permanecendo na casa dos 20%. Tudo isso começou a incomodar um grupo de intelectuais mineiros que se uniram num movimento chamado Inconfidência Mineira para lutar contra essas injustiças.  Sob a liderança desse movimento estava Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

Em São Paulo, entre os meses de julho e outubro de 1932, surgiu um movimento armado, denominado Revolução Constitucionalista de 1932, cujo objetivo era por fim ao governo provisório de Getúlio Vargas, e convocar uma Assembleia Nacional Constituinte. Os paulistas descontentes com o governo provisório de Getúlio Vargas empreenderam uma revolta armada que durou de julho a outubro de 1932.

Mais recentemente, tivemos o movimento Diretas Já, quando a população brasileira foi às ruas reivindicando eleições diretas para presidente da República. O movimento aconteceu nos anos de 1983-1984, e teve a participação de partidos políticos, intelectuais, artistas, e de toda a população brasileira. O povo foi às ruas, grandes comícios foram realizados. Era um tempo de esperança.

Exceto, este último que teve um final feliz, todos os outros movimentos citados não tiveram um desfecho feliz. O Quilombo dos Palmares, apesar de ter existido e resistido por mais de um século foi vencido pelas forças militares do estado. Os inconfidentes foram traídos, Tiradentes enforcado, e o movimento abafado. Os que fizeram a Revolução Paulista foram vencidos pelas tropas getulistas. Porém, vitoriosos ou não, esses personagens e movimentos se tornaram marcas registradas na história pelo seu caráter de contestação e luta contra alguma situação de opressão.

Eram tempos idealistas. Eram tempos de utopias. Eram tempos de sonhadores e realizadores. Eram tempos de heróis. Eram tempos de esperança.

E nos tempos atuais, onde estão todas essas coisas?

Os idealistas sumiram, as utopias morreram, os sonhadores se esconderam em algum lugar do passado. Os heróis? Desses há tempos não se ouve falar.

Desde que, em 2005, estourou o escândalo do mensalão, o Brasil tem visto um mar de lama invadir as brancas areias de suas praias de esperança, e tem assistido de braços cruzados a tudo isso.

Houve algumas parcas e esparsas reações, como, por exemplo, os protestos populares que tomaram as ruas em 2013, quando o povo foi às ruas, de forma desorganizada e sem liderança, para protestar contra diversos espinhos que atormentavam a vida do brasileiro.

Depois o povo retornou às ruas exigindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Até aí, se pensava que o grande vilão era o PT e seus corruptos integrantes... Até que veio a Lava Jato e nos mostrou que não havia um partido inimigo, mas que em todos os partidos havia inimigos, políticos corruptos e desavergonhados, que não mediam esforços em ludibriar os eleitores e depenar os cofres públicos.

A partir daí houve um espécie de letargia no povo. Ninguém saí mais às ruas. Ninguém protesta. Ninguém faz nada para que essa situação mude. Estarão os brasileiros assustados? Estarão apáticos? Decepcionados, com certeza. Mas de que modo, e por quais meios expressarão suas inquietações e insatisfações? Isso parece, no momento, uma incógnita.

Saiu Dilma e entrou Temer, e descobrimos que Dilma estava com a razão quando se dizia vítima de um golpe. Com a frieza e capacidade de fazer manobras nada constitucionais demonstradas pelo atual presidente e seus ministros e correligionários, é possível perceber que a queda de Rousseff foi muito bem tramada, não pelo povo, mas por aqueles que, nos submundos de Brasília, desejavam assumir o poder, para poderem, dessa forma, diminuir a força e a atuação daquela operação cujo objetivo é atenuar a corrupção em nosso país: a Lava Jato.

As manobras do governo Temer, no sentido de fazer prosseguir a corrupção são notórias, e parece que os governistas não fazem questão de esconder de que lado estão. Haja visto o indulto de Natal, assinado pelo presidente Temer, no qual o presidente reduz o tempo mínimo de prisão para que o preso possa ter acesso ao indulto: de quatro para um quinto do total, nos casos de crime sem violência à pessoa ou grave ameaça, como é o caso dos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção. A questão é que o decreto assinado pelo presidente atinge aos condenados por este tipo de crime.

 O decreto também estabelece a diminuição das multas que os condenados por corrupção tem que pagar. Em entrevista a Globo News, o procurador da República, Deltan Dallagnol afirmou: “É um feirão de Natal. Não podemos perder de vista o contexto em que isso está acontecendo. Nós precisamos ver que o presidente da República é acusado por crime de corrupção e as pessoas ao redor dele também estão sendo denunciadas ou presas por crime de corrupção. O que esse decreto de indulto faz é arranjar uma saída para todo esse povo. Esse decreto de indulto diz para esse povo: ‘olha, vocês vão ter que cumprir só 20% da pena, o resto vai ser perdoado. Isso passa uma mensagem péssima pra sociedade. Passa a mensagem de que a corrupção no Brasil compensa mais ainda do que já compensava. É um tapa na cara dos brasileiros. É uma vergonha nacional e isso precisa ser mudado”.

O decreto causou polêmica e indignação, tanto que a Procuradora-Geral da República (PGR), Raquel Dodge, entrou com ação no STF, pedindo a suspensão do indulto natalino concedido por Temer.

Atendendo ao pedido da PGR, a ministra do Supremo, Carmem Lúcia, suspendeu parte do decreto, e a decisão sobre o indulto vai ficar a cargo do Supremo Tribunal Federal.

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Natal: Tempo de esperança

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 12:52
Sábado, 23 de dezembro


As luzes piscam, coloridas, faiscantes. As fachadas das casas e das lojas vestem sua melhor roupa brilhante para celebrar esta época do ano. As ruas e avenidas caminham na mesma direção. Árvores naturais e artificiais recebem bela decoração. As lojas, shoppings e centros comerciais estão apinhados de gente, carregando sacolas, abarrotadas de presentes que serão distribuídos entre os entes queridos. Nas igrejas, os sinos tocam alegre e festivamente. Enquanto das cozinhas das casas saí um cheiro de comida gostosa que será servida na ceia de Natal.

É uma época mágica, onde aflora a solidariedade.

No outro lado da moeda da vida está os menos afortunados, aqueles a quem a sorte não lhes sorriu. Não tem casa, não tem teto, não tem chão. Vivem nas ruas, perambulando,à toa, dia e noite, faça chuva ou faça sol, seja noite estrelada ou noite escura.

Porém, mesmo para estes, há olhos e mãos de voluntários que se voltam, que se doam, e que se esmeram em preparar para eles uma ceia humilde, cujo significado ultrapassa o alimentar o corpo que muito precisa, e, muito mais que isso, alimenta-se a alma daqueles cuja vida a muito perdeu a luminosidade.

Há também os que, nas favelas, guetos e periferias das grandes cidades, mesmo tendo um teto, lhes falta o luxo e o glamour das comemorações de Natal que só lhes é permitido participar através da visão das revistas e dos programas de televisão. Para estes o glamour do Natal, eles vêem e comem apenas com os olhos.

A grande maioria, com os olhos fitos nos presentes que ganharam, com a boca cheia de saliva pelas carnes, saladas, farofas, e frutas diversas que comem, nem se lembram de agradecer o dom vida ao dono da festa que nasceu pobre e esquecido, em uma manjedoura, entre pastores e animais, nos arredores de uma gruta de Belém.

Outros, grande parte daqueles que estão no poder, além de não se lembrarem do humilde menino nascido naquela gruta obscura, ainda o maltratam, renegam, e o matam. Por causa dos muitos bilhões de reais desviados dos cofres públicos, e que poderiam ser aplicados em saúde, educação, e segurança, há meninos Jesus nascendo e morrendo em hospitais nos quais os médicos não dispõem do mínimo necessário para o parto das crianças. Isso quando há médicos para atenderem a parturiente neste momento tão delicado. Muitos estabelecimentos de saúde carecem de médicos e enfermeiras.

Por causa da falta de caráter de muitos políticos e de homens do poder judiciário, há milhares de meninos Jesus nas esquinas, pedindo, esmolando umas parcas moedas para comprarem ao menos um pedaço de pão que alimente suas barrigas famintas.

Por causa da ambição daqueles que, sem nenhum compromisso com o povo brasileiro, voltam às costas para ele, e abraçam e beijam as empresas que lhes depositam milhões de propinas em suas abarrotadas contas, há muitas Marias e Josés sem esperança no futuro deles próprios e de seus rebentos. Por todo o território brasileiro, há meninos Jesus nascendo e morrendo em grutas obscuras, quando o dinheiro que os pais pagaram de impostos ao governo daria para propiciar que nascessem em leitos dignos e confortáveis de bons hospitais.

Porém, nem toda esperança está perdida para aqueles que sabem enxergar o Natal com os olhos da fé. Veja, por exemplo, o caso daquele menino que nasceu a tanto tempo naquela gruta de Belém. Ele veio ao mundo nas piores condições nas quais uma criança pode vir ao mundo. Entretanto, arrebatou multidões, incomodou aos poderosos, e transformou sua vida numa vida tão cheia de plenitude e de amor, que até hoje, sua luz brilha, seus ensinamentos florescem, e são repassados de geração a geração.

Quantas crianças mundo afora nasceram em condições degradáveis e se tornaram homens e mulheres prósperos, conhecidos, e admirados pelo mundo inteiro?

É com este sentimento de esperança e fé que este blog vem desejar a todos os seus leitores um FELIZ NATAL!

Abaixo, este blog compartilha um conto de Natal, de autoria do saudoso escritor e jornalista brasileiro, Rubem Braga. O conto é ambientado em um ambiente rural, mas poderia muito bem retratar o drama de famílias pobres que habitam os grandes centros de qualquer parte do mundo.

***



Conto de Natal

Rubem Braga

Sem dizer uma palavra, o homem deixou a estrada andou alguns metros no pasto e se deteve um instante diante da cerca de arame farpado. A mulher seguiu-o sem compreender, puxando pela mão o menino de seis anos.

— Que é?

O homem apontou uma árvore do outro lado da cerca. Curvou-se, afastou dois fios de arame e passou. O menino preferiu passar deitado, mas uma ponta de arame o segurou pela camisa. O pai agachou-se zangado:

— Porcaria...

Tirou o espinho de arame da camisinha de algodão e o moleque escorregou para o outro lado. Agora era preciso passar a mulher. O homem olhou-a um momento do outro lado da cerca e procurou depois com os olhos um lugar em que houvesse um arame arrebentado ou dois fios mais afastados.

— Péra aí...

Andou para um lado e outro e afinal chamou a mulher. Ela foi devagar, o suor correndo pela cara mulata, os passos lerdos sob a enorme barriga de 8 ou 9 meses.

— Vamos ver aqui...

Com esforço ele afrouxou o arame do meio e puxou-o para cima.

Com o dedo grande do pé fez descer bastante o de baixo.

Ela curvou-se e fez um esforço para erguer a perna direita e passá-la para o outro lado da cerca. Mas caiu sentada num torrão de cupim!

— Mulher!

Passando os braços para o outro lado da cerca o homem ajudou-a a levantar-se. Depois passou a mão pela testa e pelo cabelo empapado de suor.

— Péra aí...

Arranjou afinal um lugar melhor, e a mulher passou de quatro, com dificuldade. Caminharam até a árvore, a única que havia no pasto, e sentaram-se no chão, à sombra, calados.

O sol ardia sobre o pasto maltratado e secava os lameirões da estrada torta. O calor abafava, e não havia nem um sopro de brisa para mexer uma folha.

De tardinha seguiram caminho, e ele calculou que deviam faltar umas duas léguas e meia para a fazenda da Boa Vista quando ela disse que não agüentava mais andar. E pensou em voltar até o sítio de «seu» Anacleto.

— Não...

Ficaram parados os três, sem saber o que fazer, quando começaram a cair uns pingos grossos de chuva. O menino choramingava.

— Eh, mulher...

Ela não podia andar e passava a mão pela barriga enorme. Ouviram então o guincho de um carro de bois.

— Oh, graças a Deus...

Às 7 horas da noite, chegaram com os trapos encharcados de chuva a uma fazendinha. O temporal pegou-os na estrada e entre os trovões e relâmpagos a mulher dava gritos de dor.

— Vai ser hoje, Faustino, Deus me acuda, vai ser hoje.

O carreiro morava numa casinha de sapé, do outro lado da várzea. A casa do fazendeiro estava fechada, pois o capitão tinha ido para a cidade há dois dias.

— Eu acho que o jeito...

O carreiro apontou a estrebaria. A pequena família se arranjou lá de qualquer jeito junto de uma vaca e um burro.

No dia seguinte de manhã o carreiro voltou. Disse que tinha ido pedir uma ajuda de noite na casa de “siá” Tomásia, mas “siá” Tomásia tinha ido à festa na Fazenda de Santo Antônio. E ele não tinha nem querosene para uma lamparina, mesmo se tivesse não sabia ajudar nada. Trazia quatro broas velhas e uma lata com café.

Faustino agradeceu a boa-vontade. O menino tinha nascido. O carreiro deu uma espiada, mas não se via nem a cara do bichinho que estava embrulhado nuns trapos sobre um monte de capim cortado, ao lado da mãe adormecida.

— Eu de lá ouvi os gritos. Ô Natal desgraçado!

— Natal?

Com a pergunta de Faustino a mulher acordou.

— Olhe, mulher, hoje é dia de Natal. Eu nem me lembrava...

Ela fez um sinal com a cabeça: sabia. Faustino de repente riu. Há muitos dias não ria, desde que tivera a questão com o Coronel Desidério que acabara mandando embora ele e mais dois colonos. Riu muito, mostrando os dentes pretos de fumo:

— Eh, mulher, então “vâmo” botar o nome de Jesus Cristo!

A mulher não achou graça. Fez uma careta e penosamente voltou a cabeça para um lado, cerrando os olhos. O menino de seis anos tentava comer a broa dura e estava mexendo no embrulho de trapos:

— Eh, pai, vem vê...

— Uai! Péra aí...

O menino Jesus Cristo estava morto.

Texto extraído do livro "Nós e o Natal", Artes Gráficas Gomes de Souza - Rio de Janeiro, 1964, pág. 39.

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