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O sofrimento de Maria

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 13:50

Domingo, 13 de maio

Hoje, 13 de maio, coincide de o calendário juntar duas datas a ser comemoradas: o Dia das Mães e os 130 anos da abolição da escravatura. Para celebrar esses dois eventos especiais esse blog brinda aos leitores e leitoras com o conto, O Sofrimento de Maria, que fala do sofrimento e das alegrias de uma escrava negra chamada Maria, mãe do menino Emanuel.
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O sofrimento de Maria



Corria o ano de 1884.  O sol dourado descia por trás dos montes na Fazenda Engenho Novo pintando o horizonte de um amarelo-dourado que lembrava mais o ouro das minas do que a vida sofrida que levavam os escravos naquele pedaço de chão do agreste pernambucano. A natureza caprichosa parecia ter copiado os tons, sombras e cores de algum quadro de Van Gogh.
Pode, porém, o criador copiar a criatura? Mais provável é que o inverso aconteça. É mais natural que o famoso pintor, embevecido pela delicadeza da mãe natureza e pelo traço perfeito e inconfundível da força criadora do universo, tenha se posicionado com sua tela, tintas, e pinceis, em algum fim de tarde e, copiando a natureza, tenha se tornado ele mesmo criador.
Nenhum outro pintor soube captar tão belamente a energia e a luz da estrela central de nosso sistema solar como o fez Vincent Van Gogh. Sem ele, o sol, não haveria vida nessa via de expiação a que os humanos resolveram chamar de Terra.
Sem dúvida, derramar os olhos na imensidão daquela beleza de quadro pintado no horizonte, ajudava a aliviar o sofrimento da gente negra que dividia aquele espaço com os senhores de engenho, com seus filhos e filhas e demais familiares, e também com os feitores, sempre dispostos a castigar os negros à primeira ordem dos patrões. Para merecer esses castigos não era preciso grandes crimes: às vezes um copo de cristal quebrado bastava para que os escravos sentissem no corpo o peso das chibatas.
Ali naquele pedaço de chão encravado naquele pé de serra, em Belo Jardim, agreste pernambucano, a estrela central do funcionamento de toda aquela estrutura era a casa grande senhorial. Diferentemente do astro rei, se algum dia a estrela central daquele sistema opressor viesse a faltar, para os negros escravos sobraria ainda uma longa vida de liberdade a ser vivida e aproveitada com intensidade.
A casa grande do Engenho Novo, como quase todas as casas grandes daquela época, era construída na parte mais elevada do terreno. Isso porque a preocupação maior, herdada dos primeiros tempos da colônia, era mais com a segurança que com o conforto, se bem que não possa dizer que a casa grande daquele engenho fosse feia ou desconfortável, muito pelo contrário, a arquitetura da construção mais parecia com um castelo, internamente decorado com finas louças trazidas de viagens que os senhores de engenho faziam frequentemente ao exterior.
Nas proximidades da fortaleza ficavam; a senzala, ampla habitação coletiva, sem divisórias, que abrigavam escravos. Essa habitação sim, feita de madeira, não contava com conforto nenhum. Os escravos dormiam em esteiras, ou até mesmo no chão. Nela não havia banheiro ou coisa parecida. Quando os escravos queriam fazer suas necessidades fisiológicas, a mata era vastíssima para isso. Quando era necessário banhar-se, as águas dos rios e cachoeiras eram limpas e claras.
Na frente da senzala, e debaixo de um frondoso pé de juá, ficava o terror de todos os negros e negras que derramavam seu suor do nascer ao pôr do sol para o enriquecimento do patrão: o pelourinho, que nada mais era que um tronco onde os escravos eram amarrados e sofriam dolorosos castigos físicos. Muito sangue já havia escorrido naquele tronco, debaixo daquele juazeiro. Muitas vidas negras também já tinham sido tombadas naquele temido pedação de chão.
Nas redondezas da casa grande ficavam ainda o engenho onde a cana era transformada em açúcar, a casa de farinha, onde a mandioca era transformada em farinha, o paiol, e as instalações que funcionavam como uma espécie de escritório que geria toda aquela estrutura.
O banco onde era guardada a fortuna arrecadada era os cofres que se situavam dentro da casa grande, onde também eram guardadas as joias de propriedade da família senhorial.  Bem próximo à casa grande e a senzala ficava também a capela, onde os brancos faziam suas orações aos santos, e os negros, quando podiam entrar lá, pelo sincretismo faziam aos seus orixás, pedidos ardentes por liberdade.
Os ágeis pincéis do criador do universo já tinham feito sumir o amarelo dourado e, no lugar dele, pinçava alguns tons em um cinza forte e mais escuro. Era o manto da noite que caia suavemente sobre o Engenho Novo.
O sino da capelinha bateu anunciando às seis horas, chamando os devotos e devotas para a reza do terço. Dentro da sala da casa grande, as mãos delicadas da sinhazinha abriram uma partitura, se debruçaram sobre as teclas do piano, e começaram a entoar com perfeição e sentimento, a bela melodia escrita por Charles Gounod para a Ave Maria. A melodia, executada com tanta perfeição, pareceu ganhar vida e saindo pelas amplas portas e janelas, foi-se a correr pelos campos e ao pé da serra, divinizando ainda mais uma hora tão bela.
Enquanto na sala da casa uma canção ecoou, na mesma hora sexta, debaixo do pé de jucá, a mão do feitor desceu com o chicote na pele de uma negra, e um grito de dor ecoou dentro da recém-chegada noite.
Chegara a vez de a negra Maria sofrer os castigos corporais. Dos castigos corporais se diz por que das torturas psicológicas ela já sofria faz tempo, principalmente, há três anos, depois que chegara naquele engenho.
Lembrava-se de quando subira a ladeira em direção à senzala. Enquanto subia ficava a pensar no que a aguardava naquelas paragens. Já havia sido alertada por outros escravos, durante as negociações de sua compra no mercado de escravos, de que, na Fazenda Engenho Novo ficava um dos senhores de engenho mais cruéis da região. Não apenas ele, mas também a sinhá, esposa dele, era muito cruel e intolerante. Ao lembrar-se das coisas que os companheiros de cativeiro lhe haviam falado daquele lugar, sentiu um arrepio a lhe percorrer o corpo... E entregou-se nas mãos dos seus orixás e da sua homônima, a virgem Maria.
Apesar de jovem, tinha ela 22 dois anos de idade, em suas andanças pelas terras brasileiras já tinha ouvido muita coisa, nas senzalas, e nas salas da casa grande, pois, por diversas vezes, já trabalhara como escrava doméstica acompanhando as sinhazinhas em pequenos afazeres. Uma dessas coisas que ouvira foi de que os movimentos abolicionistas já estavam bem avançados, tendo inclusive diversos senhores de engenho já concedido liberdade a seus escravos. Em seu último trabalho em casa de um senhor de engenho no Rio de Janeiro, ela estava a limpar os cristais da cristaleira da sinhá, quando, discretamente, ouviu a conversa do patrão com um figurão bem próximo aos monarcas, de que a escravidão estava com os dias contados e que logo seria abolida em solo brasileiro.
Maria não tinha ido à escola, mas tivera a sorte de encontrar uma patroa que lhe ajudara a dar os primeiros passos no mundo das letras. Aprenderam um pouco, o suficiente para observar com mais atenção o mundo que a cercava e dele tirar suas conclusões.
Ao subir aquela leve ladeira que levava ao complexo casa-grande e senzala, pensou em como ainda havia gente de pensamento tão atrasado pelos recantos do Brasil, e ela tivera a infelicidade de cair nas mãos de um desses.
Enfim, começara a trabalhar na casa grande como escrava doméstica, auxiliando a sinhá e a sinhazinha em afazeres domésticos. Os filhos do patrão, um estava estudando na Europa e outro no Rio de Janeiro. Nesses três anos em que ela estivera trabalhando ali, só tivera oportunidade de vê-los duas vezes quando eles vieram em férias.
Tudo corria tranquilo para ela. Fazia o seu trabalho como houvera feito normalmente em outras casas senhoriais por onde passara. Porém, sua beleza não passou despercebida ante os olhos do patrão. Começou a sofrer investidas constantes. Na frente da patroa não fazia nada. Comportava-se. Porém, bastava que essa virasse as costas para que ele começasse a passar a mão pelos seus seios, suas coxas, e tocasse suas partes íntimas.
Maria sempre se esquivara e até mesmo ameaçara contar para a patroa os intentos do patrão, mas essa era uma mulher vingativa. A escrava tinha sabido conquistar a patroa, após observar-lhe os pontos fracos. Sabia que o ciúme que ela sentia do marido era do tamanho dos montes que circundavam o engenho e, por isso fugia das investidas do sinhô como o diabo foge da cruz.
Mas o homem era mesmo perverso. Certa vez, a sinhá foi ao Rio de Janeiro com suas filhas assistir ao espetáculo de uma famosa cantora parisiense que viera ao Brasil para um concerto no Teatro João Caetano. Elas estavam empolgadas com a vinda da cantora de quem gostavam bastante.
O sinhô logo pôs uma série de obstáculos para que Maria não as acompanhasse. Mentiu que estava doente e que iria precisar dos cuidados dela. Como ele era bom em convencer as pessoas, mesmo quando estava com más intenções, as três logo acreditaram nele.
Naqueles dias em que a patroa e filhas estiveram na capital do Brasil, as investidas do patrão tornaram-se ainda mais fortes. A escrava sempre dava um jeito de fugir dele, aproximando-se de outras pessoas, ou inventando outros artifícios.
Uma noite, porém, não teve como fugir. Ele colocou algo dentro de um chá de erva doce que ela frequentemente tomava antes de recolher-se à senzala. Completamente dopada e sem o uso de suas faculdades. Ele a levou para o quarto na casa grande e ali passou à noite com ela. Depois disso, a patroa retornou e Maria ficou em segurança pois junto da esposa e da filha, ele continuaria a ficar apenas nas ameaças.
Um mês depois, o pavor tomou conta de Maria. Ela descobriu que estava grávida e só podia ter sido naquela noite com o patrão. Mas ficou em silêncio sobre essa descoberta, pois se falasse alguma coisa, era bem capaz de a patroa pedir para o feitor sumir com o corpo dela em algum lugar escondido na mata.
Certa feita, o patrão aproximou-se dela com segundas intenções e ela, perdendo a cabeça, lhe deu um tapa no rosto. Foi o suficiente para o furor dele contra a escrava crescer. Esperou o momento certo, e, quando ela quebrou, acidentalmente, a taça de vinho preferida dele, e que havia sido trazido de Portugal, ele impiedosamente, mandou castiga-la no tronco.
E ali, estava ela, com o corpo ensanguentando. A Ave Maria que vinha do piano da sala da casa grande trazia-lhe certo alivio. Amarrada aquele tronco ela sonhava com a liberdade. Pensava nas palavras do fidalgo no Rio de Janeiro de que a escravidão logo acabaria. No desespero, pensava em mil maneiras de fugir para o quilombo. Agora tinha mais motivos ainda para pensar nisso. Ia ser mãe. Tinha de sair dali antes que a barriga começasse a crescer. Isso era urgente, a fuga. Era um filho que fora concebido de forma indesejada, e de um homem de quem não gostava, mas era seu filho, estava na sua barriga e ela o estava gerando. Tinha de amá-lo e cobri-lo de carinhos. Já tinha visto outras escravas fazerem aborto, mas isso além de arriscado, ia contra seus princípios.
Um mês depois dessa noite horrorosa passada no tronco. Ela finalmente conseguiu fugir. O plano foi simples. Um dia em que o feitor relaxou na vigilância, ela inventou de ir ao riacho lavar algumas roupas da patroa, e de lá, desapareceu na mata para nunca mais voltar. Foi bem acolhida entre os irmãos quilombolas. Seis meses depois dava à luz a um menino e lhe pôs o nome de Emanuel.
E, no quilombo ensinou ao menino que um homem deve fazer da liberdade o seu farol, o seu Norte na vida, e que de gaiolas, nem os pássaros gostam. Passou ao filho o que sabia do mundo das letras para que ele não crescesse na ignorância delas e que soubesse conversar até com os doutores que dele se aproximassem.
Junto de Emanuel, Maria experimentou o amor sem limites, a gratuidade do amor. Era mãe, e mãe não mede esforços nem sacrifícios quando se trata de cuidar e proteger o filho.
Poucos anos mais tarde, se cumpriu o que o fidalgo fluminense havia profetizado em casa de um antigo patrão dela. Era 13 de maio de 1888, a escravidão no Brasil havia sido abolida. Houve festa no quilombo e por todo o Brasil o tambor tocou em comemoração a esse fato.
Um sorriso iluminou o lindo rosto de Maria, ao olhar o filho correndo para lá e para cá, junto com as outras crianças negras do quilombo, seus companheiros de brincadeiras. Eles cresceriam num país de homens livres. Não sabia ela, que por muito tempo ainda o negro ainda carregaria o estigma do preconceito e da discriminação.
Quem sabe algum espírito santo ainda venha e pouse sobre os homens e liberte os preconceituosos de seus próprios preconceitos, assim como os negros foram libertos da escravidão.

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A política republicana de Lima Barreto

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 17:02

Sábado, 12 de maio


Conforme prometido no último paragrafo da postagem anterior, segue texto publicado pelo escritor e jornalista, Lima Barreto, no ano de 1918. Excetuando os parágrafos em que o autor trata das coisas do império, os demais em que fala daqueles primeiros anos de república poderia muito bem expressar o pensamento de qualquer brasileiro dos dias atuais em relação aos fatos que se sucedem na cena política de nossos dias.
Não que na monarquia não houvesse corrupção e corruptos. Por certo devia haver, mas não era a regra geral. A política republicana parece ter exacerbado esse vicio criminoso que atrasa qualquer nação e não apenas o Brasil. Se a corrupção antes era um rato que devorava nosso queijo, com o passar dos anos ela se tornou um monstro de grandes proporções a engolir tudo o que encontra pela frente.
De lá pra cá, o gestão criminosa quem em nossos dias e em nosso país recebe o nome de política, decerto aumentou e muito.  O bom disso tudo é que o povo parecer ter percebido que a sangria que se pratica contra os cofres públicos precisa ser estancada, antes que o sangue que pulsa vital nas veias da nação, se esvaia por completo, tornando-se ela anêmica, ou até mesmo vindo a ter sérios problemas no organismo social.
No mais, deixo que o leitor, por si só, reflita nas reflexões que Lima Barreto faz acerca da política republicana que se começava a praticar naqueles primeiros 29 anos de república.

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A política republicana


Lima Barreto

Não gosto, nem trato de política. Não há assunto que mais me repugne do que aquilo que se chama habitualmente política. Eu a encaro, como todo o povo a vê, isto é, um ajuntamento de piratas mais ou menos diplomados que exploram a desgraça e a miséria dos humildes.
Nunca quereria tratar de semelhante assunto, mas a minha obrigação de escritor leva-me a dizer alguma coisa a respeito, a fim de que não pareça que há medo em dar, sobre a questão, qualquer opinião.
No Império, apesar de tudo, ela tinha alguma grandeza e beleza. As fórmulas eram mais ou menos respeitadas; os homens tinham elevação moral e mesmo, em alguns, havia desinteresse.
Não é mentira isto, tanto assim, que muitos que passaram pelas maiores posições morreram pobríssimos e a sua descendência só tem de fortuna o nome que recebeu.
O que havia neles, não era a ambição de dinheiro. Era, certamente, a de glória e de nome; e, por isso mesmo, pouco se incomodariam com os proventos da “indústria política”.
A República, porém, trazendo tona dos poderes públicos, a borra do Brasil, transformou completamente os nossos costumes administrativos e todos os “arrivistas” se fizeram políticos para enriquecer.
Já na Revolução Francesa a coisa foi a mesma. Fouché, que era um pobretão, sem ofício nem benefício, atravessando todas as vicissitudes da Grande Crise, acabou morrendo milionário.
Como ele, muitos outros que não cito aqui para não ser fastidioso.
Até este ponto eu perdoo toda a espécie de revolucionários e derrubadores de regimes; mas o que não acho razoável é que eles queiram modelar todas as almas na forma das suas próprias.
A República no Brasil é o regime da corrução. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e, para que não haja divergências, há a “verba secreta”, os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência.
A vida, infelizmente, deve ser uma luta; e quem não sabe lutar, não é homem.
A gente do Brasil, entretanto, pensa que a existência nossa deve ser a submissão aos Acácios e Pachecos, para obter ajudas de custo e sinecuras.
Vem disto a nossa esterilidade mental, a nossa falta de originalidade intelectual, a pobreza da nossa paisagem moral e a desgraça que se nota no geral da nossa população. Ninguém quer discutir; ninguém quer agitar ideias; ninguém quer dar a emoção íntima que tem da vida e das coisas. Todos querem “comer”.
“Comem” os juristas, “comem” os filósofos, “comem” os médicos, “comem” os advogados, “comem” os poetas, “comem” os romancistas, “comem” os engenheiros, “comem” os jornalistas: o Brasil é uma vasta “comilança”.
Esse aspecto da nossa terra para quem analisa o seu estado atual, com toda a independência de espírito, nasceu-lhe depois da República.
Foi o novo regime que lhe deu tão nojenta feição para os seus homens públicos de todos os matizes.
Parecia que o Império reprimia tanta sordidez nas nossas almas.
Ele tinha a virtude da modéstia e implantou em nós essa mesma virtude; mas, proclamada que foi a República, ali, no Campo de Santana, por três batalhões, o Brasil perdeu a vergonha e os seus filhos ficaram capachos, para sugar os cofres públicos, desta ou daquela forma.
Não se admite mais independência de pensamento ou de espírito. Quando não se consegue, por dinheiro, abafa-se.
É a política da corrução, quando não é a do arrocho.
Viva a República!
A.B.C., 19-10-1918

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Restrição do foro privilegiado: Tentando reparar erros

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:48
Segunda-feira, 07 de maio

Acho que todos alguma vez já ouviram a expressão popular, “cegos em meio a um tiroteio”. É assim que estão os políticos e os partidos nesse ensaio de início de campanha eleitoral.
É evidente que há um grande desencontro entre os políticos e a sociedade. Ambos caminham em direções opostas. Sonham sonhos diferentes. Vislumbram possíveis caminhos diametralmente opostos.
Eles, os políticos, que não se metam a aparecer em manifestações populares, quaisquer que sejam elas: pacíficas, políticas, de solidariedade, e outras.
Que o diga presidente Michel Temer quando resolveu visitar o edifício Wilton Paes de Almeida, no centro de São Paulo. Com 24 andares, o prédio tornou-se uma ocupação irregular e veio abaixo, após um incêndio, na madrugada do dia 1 de maio.
O presidente resolveu ser solidário e foi até o local visitar os desabrigados. Chegando lá, foi recebido pelos que estavam no local com vaias e xingamentos. Temer não pode se demorar nessa breve visita, tendo sido, praticamente, expulso do local pela multidão.  Na saída, algumas pessoas deram tapas no vidro e na lataria do veículo que transportava o presidente.
Nesse tiroteio popular Temer, é atingido por todos os lados. De um lado estão os partidários do PT, que o acusam de golpista. De outro lado, estão os demais setores da sociedade que não encontram nele credibilidade. Apesar de uma melhora quase imperceptível na economia, não se pode dizer que Michel Temer faz um governo tranquilo. Ao contrário, o que se vê nesse governo são turbulências em cima de turbulências.
O presidente já tem duas denúncias por corrupção e pode ainda ser alvo de uma terceira. De parte do governo, não há um foco no desenvolvimento econômico, político, e social. Ele até tenta fazer isso. Porém, percebe-se, claramente, que a preocupação de Temer tem sido se defender das acusações e crimes dos quais é acusado, bem como, traçar estratégias para seus ministeriáveis, muitos deles, que estão, ou que já estiveram no governo, também enredadados nas tramas da corrupção.
Até mesmo o próprio Lula, que poderia ser um candidato em potencial, e trabalhava para isso antes da prisão, foi hostilizado em diversas cidades por onde passou.
O PT vive hoje uma situação de desespero. Não formou lideranças que ocupasse o lugar do ex-presidente, talvez achando que ele seria o eterno líder popular e sempre inatingível pela justiça. Hoje a situação do partido é a mesma dos cegos perdidos em tiroteio: correm ao mesmo tempo para todos os lados e acabam em lugar nenhum.
Neste sábado, 5 de maio, no Brazil Forum UK, um seminário organizado por estudantes brasileiros, em Londres, a ex-presidente Dilma Rousseff, disse que, mesmo Lula estando condenado, e preso, desde 07 de abril, em Curitiba, Paraná, o partido não tem um plano B para as eleições deste ano. 
Dilma afirmou no evento, que o ex-presidente é inocente, que foi condenado sem que tivesse cometido crime, que a posição do PT é lutar pela liberdade dele, que o partido não pretende lançar outro candidato que não seja ele, Lula.
A posição do PT em relação a esse assunto é de uma fragilidade tremenda, pois, ao invés de apostar todas as suas fichas na inocência do ex-presidente, o partido revelou sua incompetência na formação de líderes durante todos esses anos que esteve no poder. Por outro lado, joga o Supremo Tribunal Federal numa grande fogueira, pois o ex-presidente Lula não foi condenado em um processo qualquer montado às pressas, em qualquer esquina da vida.
Ao contrário houve todo um rito processual sério no qual foram ouvidas testemunhas de acusação, de defesa, apresentação e contestação de provas, após a condenação ainda foram apresentados recursos aos tribunais superiores, recursos esses que foram negados. Soltar o ex-presidente depois de tudo isso seria, por parte do judiciário, uma insensatez.
A situação do PSDB de Aécio Neves não é diferente quando se trata de credibilidade em relação aos eleitores. Em relação aos pequenos partidos nem se fala. Além destes estarem de rabo preso e de mãos dadas com a corrupção ainda funcionam como balcão de negócios, não encontrando respaldo nem credibilidade na população para seus anseios políticos.
Apesar de todo esse cenário que se apresenta nefasto na política brasileira, as consequências desses atos desonestos, ainda que vagarosamente, começam a ganhar contornos de punição perante a justiça brasileira, e isto, por si só, já é um grande avanço. Mesmo que, vez ou outra, e quase sempre, algum dos ministros do STF tenha um entendimento diferente do que anseia a sociedade brasileira como um todo, as decisões nessa área parecem avançar.
Uma questão importante foi tomada na semana passada pelo STF e refere-se à restrição do tal do foro privilegiado, que nada mais é que uma opção para que bandidos se escondam sob o manto da lei, e do peso dela consigam escapar ilesos.
Com a decisão tomada na quinta-feira (03), haverá restrição para o foro privilegiado de deputados federais e senadores. Atualmente as ações criminais contra esses parlamentares a serem julgadas pelo STF, referem-se a qualquer tipo de crime, tenham sido eles praticados antes, ou durante o mandato.
A partir da decisão do STF na quinta-feira passada, essas ações criminais apenas se restringirão aos crimes praticados durante o exercício do mandato e precisam estar relacionadas às funções parlamentares. Os ministros foram unânimes na decisão de restringir o foro.
A decisão já começou a surtir efeitos práticos. Já na sexta-feira, 04, Dias Toffoli, ministro do STF, enviou a instâncias superiores seis ações penais e uma investigação que tramitavam na Suprema Corte. Outros ministros também deverão agir da mesma forma, de modo que, parte dos 540 inquéritos e ações penais que envolvem parlamentares federais deverá sair da competência do STF.
Surgiu desse caldeirão um questionamento da Câmara e do Senado que pode acabar trazendo mais luz para a questão. É a tal da história: por apenas nós e eles não?
Ao tomar conhecimento da decisão do Supremo, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal, estão se articulando para tirar o foro privilegiado também de outras autoridades que foram preservadas na decisão da Corte, inclusos nisso, o próprios membros do Poder Judiciário.
No Brasil, segundo dados mostrados em reportagem da Folha de São Paulo, a legislação brasileira garante o foro privilegiado a cerca de 58.660 pessoas. Ainda segundo a Folha essas autoridades estão distribuídas em mais de 40 tipos de cargos, nas mais diversas áreas.
É muita gente a praticar o errado escondida debaixo das asas da justiça. Essa é uma questão que também pode ser adicionada como causa da impunidade gritante que reina em nosso país.
Entretanto, sempre é tempo de começar a corrigir o que, na lei, está em desacordo para que caminhemos na direção do que seja um país sério. Ainda há muito que se fazer nesse sentido, mas, como diz um velho ditado popular: Antes tarde do que nunca.
Dizem que a justiça é cega, mas bem que ela podia enxergar um pouco e punir de fato e de direitos àqueles que usam a nação como trampolim para suas ambições pessoais.
Na próxima postagem, esse blog compartilhará um texto do escritor brasileiro, Lima Barreto, escrito no ano de 1918, que ilustra bem como esse comportamento antiético na política, já preocupava a sociedade desde aqueles primeiros vinte e nove anos do Brasil como nação republicana. Comportamento este que precisa ser mudado com urgência antes que nossa nação sucumba de vez no vazio e na ignorância provocados por um sistema corrupto e injusto.

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Partidos políticos ou organizações criminosas?

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:13
Terça-feira, 01 de maio


Há muito que os partidos políticos brasileiros deixaram de ser um espaço para a discussão ideias, e para a elaboração de planos e ações a ser desenvolvidas no sentido de provocar o bem estar da nação e o desenvolvimento humano, social, cultural e econômico dos que nela habitam.  
Seguindo esse raciocínio, também há tempos voou para bem longe aqueles que ingressavam nesses mesmos partidos com intuito de investir-se de responsabilidades governamentais ou tomar assento em casas legislativas com a finalidade de estabelecer nexos partidários para formar governos comprometidos com os ideais democráticos, discutir acordos legislativos, promover leis que visem o bem estar comum.
No redemoinho de informações nos quais somos envolvidos todos os dias pelos mais diversos tipos de mídias, podemos concluir que, no atual cenário político brasileiro, entre partidos políticos e organizações criminosas, a diferença entre partidos políticos e organizações criminosas é muito tênue. Quase inexistem diferenças entre os dois conceitos. Ainda nesse rastro conceitual é bem próximo o universo de ideias que circulam em torno do mar nebuloso de pensamentos entre os que formam uma e outra coisa.
Fica evidente ainda ao olharmos para a cena política o fato de que quando não pecam pelo crime de corrupção, os integrantes das agremiações políticas pecam por omissão. Qual pecado e maior ou menor, deixemos para as esferas do julgamento moral latente no íntimo de cada um de nós.
À exceção de uns dois três partidos de esquerdas não afinados com o PT, todos os outros estão fortemente comprometidos com ideais nada republicanos, principalmente os grandes partidos políticos, dos quais pensávamos que pudesse sair algum, se não salvador da pátria, pelo menos algum lider que fizesse o país voltar aos trilhos do desenvolvimento econômico, moral e ético.
Aproximam-se as eleições e as agremiações políticas são vítimas das armadilhas que elas próprias armaram para si mesmas.
Um desses caciques da politica nacional, o PSDB, por exemplo, tem no caso de Aécio Neves um exemplo de omissão. O senador tucano namorava a candidatura à presidência desde 2002, mas sempre foi preterido por José Serra, que disputou a cadeira presidencial nas eleições de 2002 e 2010. Finalmente, em 2014, o herdeiro político do avô, Tancredo Neves, alcançou o seu desejo de disputar a vaga para o posto máximo no Palácio do Planalto.
Naquela campanha política o senador levantou a bandeira da luta contra a corrupção acusando a sua opositora, Dilma Rousseff e o partido ao qual pertence, o PT, de tal prática. O eleitor, àquela época já sabia que alguma coisa não andava bem das pernas em nosso sistema político, e votou em Aécio, apenas na tentativa de, por assim dizer, escolher o menos pior.
Dilma acabou sendo eleita com votos na casa dos 54 milhões de votos, e Aécio com votos na casa do 51 milhões. Sem dúvida uma votação expressiva do senador. Também chamou a atenção os cerca de 10 milhões entre eleitores que votaram em branco ou nulo, e os 27 milhões que deixaram de comparecer as urnas.
Enfim, passaram as eleições, e as peças ocuparam lugar nos seus tabuleiros. Dilma foi para o Palácio do Planalto e Aécio voltou ao senado. Tudo seguiu seu curso de aparente normalidade, pois de normalidade não tinha nada, ao contrário, no submundo da política transações escusas eram realizadas e os ratos se fartavam de queijo de boa qualidade.
Foi em maio de 2017 que caiu a mascara de bom moço para o senador tucano. Ele foi flagrado em uma conversa com o dono da JBS, Joesley Batista, pedindo a quantia de dois milhões de reais, que supostamente seriam para pagar advogados em sua defesa em acusações de corrupção na Lava Jato. Investigações posteriores revelaram que esse dinheiro não passou pelas mãos do advogado. O primo do senador, Frederico Pacheco de Medeiros, foi filmado recebendo parte do dinheiro e foi preso. Ao todo foram feitas quatro entregas de 500 mil reais cada uma. Na ocasião também foi presa a irmã do senador, Andreia Neves.  Como nada nesse mundo cão da política é de graça, Aécio trabalharia no senado para defender os interesses da JBS, quando na verdade deveria defender os interesses do povo brasileiro, e não de uma empresa, ou grupo econômico, em especial.
Quase um ano depois do ocorrido, no último dia 17 de abril, a Procuradoria Geral da República denunciou o senador por corrupção passiva e obstrução à justiça. A denúncia, baseada em delações premiadas de executivos da J&F, foi aceita pela Primeira Turma do STF, formada pelos ministros: Luís Roberto Barroso, Rosa Weber, Luís Fux e Alexandre de Moraes.
Na mesma semana em que virou réu no STF, surgiram novas denuncias contra o senador. Sérgio Andrade, um dos donos da Andrade Guitierrez, revelou em depoimento à Polícia Federal que fez pagamentos vultosos ao senador tucano. Para essa transação foi feito um contrato fraudulento com uma empresa de um amigo de Aécio. Esse outro inquérito apura se o senador recebeu dinheiro das construtoras Odebrecht e Andrade Guitierrez. 
Em troca o político em questão beneficiaria as empresas na construção da hidrelétrica Santo Antônio, localizada no Rio Madeira, em Rondônia. De acordo com o delator, foi feito um pagamento de 35 milhões de reais através da empresa de Alexandre Accioly. Alexandre recentemente prestou depoimento à PF. Quem também prestou recente depoimento foi Joesley Batista.  À PF o empresário disse ter repassado a Aécio a quantia de R$ 110 milhões em 2014. Segundo Joesley Aécio havia solicitado a soma para repartir entre os partidos que o apoiavam na campanha presidencial daquele ano. O empresário apresentou à PF documentos que comprovam o pagamento.
Ainda segundo Joesley, novos pedidos de dinheiro foram feitos por Aécio, após os R$ 110 milhões. Havia pagamento de campanha pendentes e Aécio queria saldá-las, e para isso houve mais pedido de dinheiro ao dono da JBS. Em 2015, houve um encontro entre Joesley e Aécio, em Belo Horizonte, no qual foi discutida a compra de um apartamento, no valor de R$ 17 milhões, na capital mineira para mascarar o acordo. Novos pedidos de dinheiro foram feitos por Aécio a Joesley, mas como já estava sendo investigado, o empresário negou o pedido.
Joesley também afirmou que Aécio recebeu pagamentos mensais, no valor de R$ 50 mil, durante dois anos. Esses pagamentos foram feitos por meio de notas fiscais emitidas à Radio Arco Iris, que é afiliada da Rádio Jovem Pan, em Belo Horizonte. O senador detinha 40% dos direitos sobre a emissora.
Outra acusação relacionada ao caso de obstrução à justiça foi feita pelo deputado Osmar Serraglio que, à época em que o caso ocorreu, era ministro da Justiça. O deputado disse que Aécio tentou alterar o curso das investigações da Lava Jato através da interferência na escolha dos delegados da PF.
Desde o momento em que ocorreram as fortes acusações contra Aécio no ano passado, o PSDB não tomou nenhuma atitude punitiva em relação ao senador, praticamente, cruzando os braços diante do ocorrido, mantendo inclusive, Aécio como presidente do partido.
Outro erro do PSDB foi continuar apoiando o ex-governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, mesmo após o escândalo do mensalão tucano, em Minas. Segundo denúncias, durante a campanha para a reeleição em 1998, empresas estatais mineiras foram usadas para desviar dinheiro para a campanha de Azeredo. O operador desse esquema ilegal era Marcos Valério, o mesmo que fazia as operações no caso do PT.
As investigações a respeito desse caso foram concluídas apenas em 2017. Baseados nos relatórios da PF, a Procuradoria Geral da República denunciou Azeredo pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro. A primeira condenação de Azeredo só veio acontecer em 2015. Ele foi condenado a 20 anos e dez meses de prisão, e recorreu da decisão. Apenas em 2017, vinte anos após o crime ter ocorrido é que o processo chegou à segunda instancia, os desembargadores mantiveram a condenação, mas ressaltaram que o político mineiro só poderia ir para cadeia depois de esgotados todos os recursos na segunda instancia. A defesa apresentou então novos recursos.
No dia 21 deste mês, os desembargadores da Quinta Câmara do Tribunal de Justiça mineiro mantiveram a condenação dada em 2017, mantendo também a decisão de somente prender o acusado depois de esgotados todos os recursos.
Por parte do PSDB houve omissão em ambos os casos. No caso de Aécio, aumenta a pressão para que ele não seja candidato nas eleições de outubro. Integrantes do partido alegam que se ele resolver se candidatar ao senado vai atrapalhar o candidato ao governo do estado de Minas, Antônio Anastásia. A candidatura de Aécio também poderia prejudicar a campanha à presidência de Geraldo Alckmin. Segundo delatores, o nome de Alckim também constava da lista elaborada pelo setor de propina da Odebrecht. Disseram eles que, nas campanhas de 2010 e 2014, foram destinados, por meio de caixa dois, R$ 10 milhões para a campanha de Alckim.
Todo esse quadro leva Aécio a um futuro político incerto em relação às eleições de outubro.
Quanto ao MDB, na última semana houve mais chumbo grosso lançado contra o presidente Michel Temer. Apenas seis meses após aberto o inquérito dos portos, no qual o presidente é suspeito de ter editado decreto para beneficiar empresas do setor portuário, autoridades dizem haver indícios de que o presidente tenha lavado dinheiro na reforma de imóveis em casa de familiares, além de dissimular transações imobiliárias em nome de terceiros na tentativa de ocultar bens. Entre os proprietários desses imóveis estão a mulher de Temer, Marcela, e o filho deles, Michel. Quanto às reformas, estas teriam ocorrido na casa da filha do presidente, Maristela, e da sogra dele, Norma Tedeschi. Reportagem da Folha de São Paulo revelou que um dos fornecedores teria recebido pagamento em dinheiro vivo pelos serviços diretamente da mulher do coronel Lima, Maria Rita Fratezi.
Investigações da PF apontam que o presidente teria recebido ao menos R$ 2 milhões em propina por meio do coronel João Baptista de Lima Filho. Ainda segundo os investigadores esse dinheiro veio das empresas JBS e de uma empresa ligada à Engevix.
Assim como o PT parece ter em Marcos Valério um operador atuante, o presidente parece ter no coronel Lima um homem com empenho semelhante, uma vez que ele aparece como elo em negócios que beneficiam diretamente o mandatário da nação.
A Polícia Federal intimou a filha de Temer, Maristela Temer a depor no dia 03 de maio. Os investigadores querem saber por que o coronel Lima pagou a reforma de uma casa pertencente a ela, em São Paulo. Os pagamentos da reforma do imóvel foram feitos em dinheiro vivo e de alto valor.
Logo após a filha ser chamada a depor, o presidente Michel Temer fez um discurso enfático e em tom raivoso.
No pronunciamento feito à nação no último dia 27, Temer, mais uma vez usa argumentos frágeis para se defender. Para começar ele diz que as acusações são mentiras lançadas contra a honra dele, e que atingem a família o e filho, hoje com nove anos de idade.
Temer faz ameaças veladas a divulgação das informações pela PF quando diz: “Eu até solicitarei para que realmente as instituições possam funcionar regularmente, vou sugerir ao ministro Jungmann que apure internamente como se dão esses vazamentos irresponsáveis, porque, mais uma vez, eu digo: não é imprensa que vai lá de forma, digamos, escondida para examinar os autos, os dados são fornecidos por quem preside o inquérito, quem comanda o inquérito, seja onde for”.
Temer deve ter lido na cartilha dos petistas, tanto na forma de fazer negócios no submundo da política, quanto na fórmula que usa em sua defesa, dizendo que é vítima de perseguição.
Tanto os petistas como os emedebista atribuem à PF um papel que não faz parte de suas funções: a de perseguir este ou aquele político, ou a quem quer que seja. O trabalho da polícia é investigar e apresentar relatórios baseados em provas. E isso a PF tem feito muito bem.
Por tudo isso, e muito mais o presidente deseja ser candidato a presidência. Talvez mais por querer se abrigar no foro privilegiado do que para trabalhar pelo desenvolvimento do país.
Quanto ao PT, para as próximas eleições, a situação do partido é delicada. Tendo em Lula o seu baluarte, e estando este preso e impossibilitado de disputar as eleições por causa da Lei da Ficha Limpa, o partido não cuidou de trabalhar novas lideranças e, por isso, fica por aí, tentando de todas as formas e maneiras que a prisão do ex-presidente seja revista e que ele venha a ser libertado.
E as denúncias por corrupção parecem um poço sem fundo.
No fim da tarde de hoje, a Procuradoria-Geral da República apresentou mais uma denúncia contra o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, o contra os ex-ministros, Antonio Palocci, Paulo Bernardo, e a ex-ministra e atual senadora, Gleisi Hoffman. Também foi denunciado o empresário Marcelo Odebrecht.
Os atos criminosos, segundo a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, tiveram origem no ano de 2010. Naquele ano, a Odebrecht teria prometido ao então presidente Lula, que doaria cerca de R$ 40 milhões caso o presidente produzisse decisões políticas que viessem a favorecer a Odebrecht.
O dinheiro foi colocado à disposição do Partido dos Trabalhadores e isso ficou provado em depoimentos de delatores e também através da quebra de sigilo telefônico, da apresentação de planilhas, mensagens trocadas entre os envolvidos, dentre outras. Segundo Raquel Dodge, o esquema criminoso era composto por quatro núcleos; o econômico, o administrativo, o financeiro, e o político.
A denúncia foi encaminhada ao ministro, Luiz Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF.
Por tudo isso e muito mais, as próximas eleições deverão ser uma das mais imprevisíveis e perigosas para o futuro do país, pois na falta de lideranças e de candidatos em quem se possa confiar, muitos estão tentando construir mitos, e mitos não são a solução para os problemas do país, muito pelo contrário, eles podem ser uma grande ameaça. Lembremo-nos de que Collor também foi alçado à condição de mito e deu no que deu.
Também não precisa o Brasil de salvadores da pátria. Salvadores ficam bem no ambiente religioso e nas histórias em quadrinhos. Acho que não é o caso da política brasileira, no momento.
E de quem precisamos para liderar o país? Precisamos de pessoas que governem para aqueles que o elegeram gratuitamente: o povo da nação. E não para aqueles que compraram, à alto preço, fidelidade dos candidatos, e que exigirão deles também alto preço, logo que seus nomes sejam confirmados como eleitos pelas urnas.

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Terra, nossa casinha no universo

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 13:16

Domingo, 22 de abril


A respeito da nossa tão querida casinha no universo, a Terra, nosso planeta, disse um samurai, no Século XIV, em um poema a ele atribuído, intitulado, Credo do Samurai:

Credo do Samurai

Eu não tenho pais, faço do céu e da terra meus pais.
Eu não tenho casa, faço do mundo minha casa.
Eu não tenho poder divino, faço da honestidade meu poder divino.
Eu não tenho pretensões, faço da minha disciplina minha pretensão.
Eu não tenho poderes mágicos, faço da personalidade meus poderes mágicos.
Eu não tenho vida ou morte, faço das duas uma, tenho vida e morte.
Eu não tenho visão, faço da luz do trovão a minha visão.
Eu não tenho audição, faço da sensibilidade meus ouvidos.
Eu não tenho língua, faço da prontidão minha língua.
...
Também sobre ela se pronunciou, Alberto Caieiro — um dos pseudônimos de Fernando Pessoa — quando tão belamente versejou na poesia, Da Minha Aldeia:

Da Minha Aldeia

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Mais recentemente, escreveram em versos os poetas cantantes, Caetano Veloso, na canção, Terra:

Terra

Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens...
Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?...
...

E Guilherme Arantes, na canção, Planeta Água:

Planeta Água

Água que nasce na fonte serena do mundo
E que abre um profundo grotão
Água que faz inocente riacho e deságua na corrente do ribeirão
Águas escuras dos rios que levam a fertilidade ao sertão
Águas que banham aldeias e matam a sede da população
Águas que caem das pedras no véu das cascatas, ronco de trovão
E depois dormem tranquilas no leito dos lagos, no leito dos lagos.
...

Esse blog dá voz a esses poetas que, com suas palavras bem construídas e bem colocadas ajudam a tornar o mundo mais colorido, mais musical, para construir uma justa homenagem a nossa casa em comum no universo.
Hoje, dia 22 de abril, é dia dela, a Terra, nosso planeta. O Dia Mundial da Terra foi um evento criado pelo senador norte-americano e ativista ambiental, Gaylord Nelson. O ato foi um jeito de fazer um protesto contra a poluição da Terra, após constatar as desastrosas consequências de um desastre petrolífero, ocorrido em 1969, em Santa Bárbara Califórnia.
A manifestação conclamada pelo senador mobilizou a sociedade norte-americana, e dela participaram cerca de duas mil universidades, dez mil escolas primárias e secundárias, além de centenas de comunidades. O resultado desse grito de insatisfação foi que o governo norte-americano criou a Agência de Proteção Ambiental, além de leis que protegem o meio ambiente.
Desde aquela insatisfação sentida por Gaylord Nelson, pouca coisa mudou. A verdade é que desastres ambientais continuam acontecendo, no Brasil e no mundo, sem que os responsáveis paguem por esse crime. Pelo menos aqui no Brasil, as grandes empresas, geralmente as responsáveis pelos grandes desastres ambientais, se beneficiam da lentidão da justiça, e tudo fica por isso mesmo. Só não fica por isso mesmo as milhares de vidas prejudicadas pelos atos desastrosos, e também os rios, lagos, oceanos, a fauna, a flora, e as terras atingidas.
A Terra está pedindo socorro, e isso já faz tempo. É como se uma pessoa tivesse sendo levada em direção a um precipício, e os que estão em sua volta, em vez de lhe darem às mãos, a empurram ainda com mais força para a queda inevitável no vazio.
Há vozes a alertar do perigo iminente, mas os grandes líderes fazem ouvidos de mercador, fingem que não ouvem, dão uma de desentendido.

“Em outros declives semelhantes, vimos, com prazer, progressivos indícios de desbravamento, isto é, matas em fogo ou já destruídas, de cujas cinzas começavam a brotar o milho, a mandioca, e o feijão. (...)."
“Pode-se prever que em breve haverá falta até de madeira necessária para as construções se, por meio de uma sensata economia florestal, não se der fim à livre utilização e devastação das matas desta zona”.

Os dois parágrafos entre aspas acima falam de uma realidade que poderia ter sido observada em qualquer lugar do mundo, porém a narrativa refere-se a terras brasileiras. O leitor, a leitora pode até achar que se trata de um quadro atual pela semelhança do que acontece hoje em território brasileiro.
Essas informações, porém não são atuais em seu contexto, apenas em seu conteúdo. Nem tampouco foram observadas por um brasileiro.
As informações em destaque fazem parte de um livro escrito pelo naturalista austríaco, Johann Emanuel Pohi. O livro, intitulado, Viajem no Interior do Brasil, e publicado em 1976 pela editora Itatiaia, relata uma série de viagens feitas pelo naturalista, pelo interior do Brasil, entre os anos de 1818 e 1819. Há quase 200 anos o naturalista austríaco já percebia que o meio ambiente no Brasil não estava sendo bem cuidado, bem tratado. Já pensou se os governantes daquela época lhe tivessem dado ouvidos? Que paraíso tropical nós teríamos?
Observações feitas por Johann Emanuel Pohi, também devem ter sido feitas há muito tempo atrás por outros naturalistas, cientistas e pesquisadores. Também se lhe tivessem sido dados ouvidos aos alertas, estudos, e conselhos, não teríamos as consequências que vemos planeta afora, tais como aumento na temperatura, derretimentos das geleiras, destruição da camada de ozônio, e ameaça da falta de nosso bem mais precioso: a água, problema que já se faz sentir em grande parte do globo terrestre.
As coisas começarão a tomar um rumo diferente quando os homens compreenderem que, seja na África, Ásia, Europa, América, Oceania, ou na Antártida, mesmo vivendo culturas diversas, costumes diversos, dividimos todos e todas a mesma casa comum no universo. Que apesar de sermos diferentes na cor da pele, por dentro, somos todos iguais, com tecidos, órgãos, células, e nervos que repetem, a cada segundo, o mesmo processo, e desempenham as mesmas funções em nossos corpos tão humanos.
É preciso que compreendamos, principalmente, os grandes líderes, que o desabamento de uma casa começa, na maioria das vezes, com uma pequena rachadura que faz ruir toda a estrutura.
Os avisos e alertas foram dados no passado, e estão sendo dados, a cada dia, no presente. E, diante das evidencias de desarmonia climática, será que ainda continuaremos a fazer ouvidos de mercador?
Antes de finalizar, celebremos o 22 de abril também como a data que marca o nascimento de nossa nação. Pois foi em um dia como hoje que as caravelas da esquadra portuguesa, comandada por Pedro Alvares Cabral, aportaram no litoral Sul do atual estado da Bahia. Não diríamos que eles descobriram o Brasil, afinal por aqui já habitavam milhões de indígenas.
Mas, enfim, esses primeiros portugueses, pode-se dizer deles que desembarcaram num paraíso... O resto da história vocês já conhecem.
E assim, lá se vão quinhentos e dezoito anos da chegada dos portugueses, sem contar outros tantos nos quais esta terra era coberta de índios de uma infinidade de tribos.
Salve a Terra! Salve o Brasil! Salve o mundo!


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